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Sleep ao vivo em Londres: Em nome do riff [reportagem do concerto]

A BLITZ esteve presente na edição londrina do Desertfest, que aconteceu simultaneamente em Berlim. Leia a reportagem do concerto dos Sleep e de outras bandas na sala Koko, em Camden.

A acontecer simultaneamente em Londres e em Berlim, o Desertfest trouxe a estas duas capitais alguns dos nomes mais significativos no que, hoje em dia, à música lenta e pesada diz respeito. Na capital britânica, o evento realiza-se em diversos clubes e bares da pitoresca zona de Camden Town e, num fim-de-semana em que atuaram nomes tão respeitados e aplaudidos dentro do doom e seus derivados como Eyehategod, Orange Goblin, Brant Bjork, Red Fang ou Floor, coube aos norte-americanos Sleep colocarem um ponto final no certame face a uma The Koko totalmente esgotada e rendida ao poder da banda liderada por Al Cisneros e Matt Pike. Antes disso os presentes puderam desfrutar de uma ambiciosa seleção de grupos de qualidade superior, que - durante a tarde e o início da noite - mantiveram a plateia da histórica (e belíssima) sala londrina muito bem composta apesar das outras atuações que estavam a acontecer nas imediações. Com o tiro de partida a cargo dos alemães My Sleeping Karma e do seu psicadelismo envolvente, a toada totalmente instrumental manteve-se com os Karma To Burn, que tocaram logo de seguida, mas adotou uma postura mais stoner, tipicamente norte-americana. A cada vez que grava, o trio da Virgínia continua a surpreender pela forma como consegue escrever verdadeiras canções mesmo sem recurso à voz, temas que ficam na memória à custa de riffs pujantes e memoráveis, apoiados numa secção rítmica elástica. Em palco, com uma descarga bem gorda e os graves muito bem definidos a fazerem-se sentir em alto e bom som, tudo ganha uma dimensão extra, que resultou num abanar de cabeça generalizado e numa receção calorosa com direito à primeira ovação unânime do dia. Com o peso como ponto comum a todos os grupos que passaram pelo palco, os Acid King, comandados pela icónica Lori S. na guitarra e voz, mantiveram os níveis stoner em alta, mas a ex-mulher de Dale Crover (dos Melvins) optou por aquele compasso bem mais lento que já é seu apanágio para interpretar uma sequência de temas do novíssimo Middle of Nowhere, Center of Everything intercalados com material mais antigo. Os italianos Ufomammut foram confrontados com vários problemas técnicos que os levaram a interromper o tema de abertura por duas vezes, mas mesmo assim justificaram todos os elogios de que são alvo actualmente, protagonizando um concerto hipnótico, feito de riffs monolíticos, psicadelismo e garra considerável. Nada poderia, no entanto, ter preparado a audiência para o que se seguiria.

Com um considerável atraso, em parte provocado pelo encore que os Ufomammut protagonizaram apesar das paragens no início da sua prestação, a entrada em palco dos Sleep foi feita ao som de uma transmissão áudio da NASA, que por esta altura se tornou habitual nos concertos da banda. Protegidos por uma cortina na boca do palco, os roadies iam afinando o material e preparando o palco para a subida dos músicos, enquanto a antecipação se começava a tornar palpável na plateia. Não é por isso muito estranho que, quando se ouviram os acordes de abertura de "Dopesmoker", a The Koko tenha explodido num clamor coletivo, rapidamente abafado pelo som poderosíssimo que saía das colunas do PA. Em Londres, os Sleep soaram verdadeiramente colossais. Com o bombo e as cordas do baixo a sentirem-se no peito e a sujidade dos riffs a ganhar embalo, o trio formado por Cisneros, Pike e Jason Roeder atacou a parte inicial do álbum feito de um único tema de 52 minutos - que, no final da década de 90, levou à implosão do grupo - e percebeu-se desde logo que estão a atravessar um excelente momento de forma. Com Cisneros e Pike ocupados, respetivamente, com os OM e High On Fire, a banda não tem sido profícua em estúdio, daí que "The Clarity", o segundo tema do alinhamento e único que gravaram desde o regresso em 2009, se tenha transformado em mais um  hit junto dos fiéis no espaço de apenas um ano. O peculiar tapping que abre a canção foi recebido com aplausos e ficou ali provado que os Sleep Séc. XXI continuam a ser exatamente o que eram nos 90, uma simbiose perfeita (e avassaladora) entre as linhas de baixo etéreas e ondulantes e o peso dos riffs inspirados na cartilha Iommi, apoiados em ritmos contundentes, mas que conservam um balanço verdadeiramente contagiante e que não deixa ninguém indiferente. Sem projeções ou sequer um pano de fundo, torna-se óbvio que não há muito para ver em palco durante uma atuação dos Sleep; à exceção do mais aguerrido Pike, Cisneros e Roeder estão essencialmente focados  na música e nos seus respetivos instrumentos, unidos por uma cola mágica que faz deles uma das sessões rítmicas mais coesas de que há memória no espectro da música pesada. O que não deixa de ser curioso (e uma boa prova do talento destes músicos), uma vez que o baterista dos Neurosis só começou a sentar-se atrás do kit dos Sleep após o abandono de Chris Hakius, em 2010. Tal é o seu empenho que se torna difícil imaginá-los sem os seus préstimos; Roeder é hoje uma peça-essencial do que a banda é em palco, tocando temas como "Dragonaut", "Sonic Titan" ou "Holy Mountain" com uma garra que faz esquecer que não foi ele que gravou as versões originais. "From Beyond", o terceiro tema de Holy Mountain a ser interpretado nesta ocasião, antecedeu, no alto dos seus 10 minutos, o final do espetáculo com um medley que começou com "Cultivator" (que não é mais que a parte final de Dopesmoker) e terminou com "Improved Morris", um inédito ainda não registado em estúdio. Se dúvidas restassem, ficou provado que os Sleep são muito mais que um exercício nostálgico apoiado num par de discos incompreendidos na década de 90, mas que ganharam um culto enorme durante as décadas seguintes. O que continuam a fazer continua a ser tão, ou mais, válido que na altura em que apareceram... Porque, feitas as contas, os bons riffs são intemporais.

Texto: José Miguel Rodrigues Crédito: Kevin Nixon