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Sérgio Godinho faz hoje 70 anos: recorde uma das mais recentes entrevistas à BLITZ

Nascido no Porto em 31 de agosto de 1945, o autor de "Com um Brilhozinho nos Olhos", "A Vida é Feita de Pequenos Nadas" e incontáveis outros marcos do cancioneiro português completa hoje 70 primaveras. Recorde uma das entrevista que o músico deu à BLITZ em 2014.

Gravado ao vivo em Lisboa e no Porto e composto por versões de temas que lhe falam ao coração, de Beatles e Rolling Stones a José Afonso, Bob Dylan ou Doors, Caríssimas Canções serviu em 2014 de ponto de partida para uma conversa em roda livre.

No texto que escreveu sobre este disco, fala das canções que adormecem e acordam consigo. É assim que sabe que está apaixonado por certa música? Isso é um bocadinho ambíguo, porque há canções que nós não queremos e também se colam a nós! (risos) A essência de certas canções é colar; na verdade, são fórmulas que já lá estão, por isso é que entram tão facilmente [na nossa cabeça]. É uma forma de reconhecimento quase perversa. Para este disco escolhi algumas canções que sempre venerei, como "Volver a 17", da Violeta Parra, que ouvi pela primeira vez num disco do Milton Nascimento, onde ela a canta com a Mercedes Sosa. É tão extraordinária a canção a vulnerabilidade que há ali, na procura de uma inocência perdida do amor... [Conta] a história do amor da Violeta Parra por um homem muito mais novo. E é de um lirismo tão transcendente, tão inspirado e tão disponível que a ouço repetidas vezes. Há outras paixões: sempre achei que o "Vendaval" é uma grande música e que uma grande música resiste a várias interpretações. Dantes, era desvalorizada por ser nacional-cançonetismo, mas mesmo quando eu era adolescente e ouvia Tony de Matos pensava: se ele estivesse na Argentina, era um tanguista. A frase levada ao extremo, de uma expressividade de estarrecer! Eu quis cantá-la "ao contrário" e mostrar que a canção existe para lá do [intérprete] Tony de Matos.

Neste disco, faz várias versões, mas ao longo dos anos muitos têm sido os artistas a cantar temas seus. Que lhe pareceu a versão de "Às Vezes o Amor", de Márcia, na compilação Voz e Guitarra 2? A Márcia pediu-me várias sugestões e eu dei-lhe umas seis canções que achei que podiam ir com a voz dela. Inicialmente, [os mentores da compilação] tinham pensado em "A Noite Passada", de que eu gosto imenso, só que já foi cantada por várias pessoas, ao passo que há outras coisas que não se conhecem embora o "Às Vezes o Amor" também tenha sido single do Ligação Directa... A Márcia, que tem intuição e também é compositora, escolheu essa música. Eu gosto imenso dela e acho que fez uma versão engraçada, porque [a letra da canção] é um diálogo entre uma rapariga e um homem mais velho, que começa por dizer: "Que hei de eu fazer, tão nova e desamparada / Quando o amor me entra de repente pela porta da frente / E fica a porta escancarada". [Na interpretação dela], essa letra adquiriu um sentido muito natural.

Concorda que atravessamos um bom momento no que toca a novos talentos na música portuguesa? Sim, há gente a aparecer: o Samuel Úria, o B Fachada, há mais tempo surgiu o JP Simões... Há [talentos] muitos interessantes. Quando me vêm dizer "vocês é que eram bons!"... Para já, não sei o que é o "nós" (risos). Mas reconheço que há nomes [a que Sérgio Godinho é associado], não é por acaso que fiz o Três Cantos com o José Mário Branco e o Fausto. Hoje, há coisas interessantes a acontecer. Por exemplo, os Clã já vêm de outra geração, e no seu próximo disco há três letras minhas. O álbum [Corrente] está muito bom, eu gostei.

Tendo em conta o momento que Portugal vive, não sentiu a tentação de incluir mais canções de conotação política? O meu universo sempre teve esse aspeto: o que é o "Espalhem a Notícia"? Já o "Brilhozinho nos Olhos" é uma canção lúdica, de amor, no sentido positivo, de brincar com as coisas, e "O Primeiro Dia" é uma canção filosófica de interrogação e de percurso. Sempre tive uma data de vertentes e gosto de cruzá-las. No Caríssimas Canções, há [canções políticas], como "Os Vampiros" [do José Afonso], mas também "Les Vieux", do Jacques Brel, que fala da solidão e da velhice quando pensamos na situação da terceira idade em Portugal, [a letra] acaba por ter ligação com a realidade, com a vida.

O BRASIL AQUI TÃO PERTO

Chico Buarque, com "Geni e o Zepelim", e Caetano Veloso, em "Sampa", são as canções com que, neste disco ao vivo, Godinho honra as suas afinidades com a música brasileira. "Identifico- me com as linguagens que o Caetano explora. O Chico percebo-o, na maneira como compõe, talvez porque, tal como eu, ele gosta de trabalhar sobre uma música. Por exemplo, o "Sopro do Coração" [dos Clã] começou por ser uma música do Hélder [Gonçalves]. Depois coloquei-lhe uma letra e adquiriu outros sentidos", revela. "Gosto de trabalhar assim, é um desafio que me vai bem". 

Foto de: Rita Carmo/Espanta Espíritos