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"Scott Weiland será sempre uma figura incontornável do rock alternativo dos anos 90": jornalistas e editores nacionais recordam

José Miguel Rodrigues, diretor da revista Loud e colaborador da BLITZ, e Pedro Ramos, da Radar, deixam o seu testemunho sobre o vocalista dos Stone Temple Pilots e Velvet Revolver, que morreu ontem.

"Com a sua figura esguia e timbre muito próprio, o Scott Weiland foi - e será para sempre - uma das figuras incontornáveis do rock alternativo dos anos 90", defende José Miguel Rodrigues, diretor da revista Loud e colaborador da BLITZ, "é um músico que acaba por marcar toda uma geração e que entrou bem cedo na minha vida quando, apanhado pela explosão grunge, vi pela primeira vez o videoclip da 'Vasoline' na MTV". 

O jornalista diz que acabou por só ver o músico em palco quase uma década depois de começar a ouvir a banda, "só comprovei o seu imenso talento ao vivo no Paredes de Coura em 2001 e, volvidos três anos, com os Velvet Revolver no Coliseu dos Recreios. Apesar do intenso abuso de drogas e álcool, a sua voz e o seu carisma mantinham-se ainda intocados e, em ambas as ocasiões, o Scott provou ser um autêntico animal de palco, gingando ao som da música como se a sua vida dependesse disso". 

"Pouco tempo depois, confesso, acabei por perder-lhe o rasto", acrescenta o diretor da Loud, "e, até há cerca de um mês, o meu último 'contacto' com o músico tinha sido uma exasperante entrevista ao radialista Howard Stern. Visivelmente debilitado, tanto a nível físico como mental, queixava-se de como a vida tinha sido madrasta, de como as ex-mulheres e as clínicas de reabilitação lhe tinham levado a fortuna, de como tinha de passar meses a fio num tour bus para pagar as contas e soava, literalmente, à beira do abismo... Hoje, chega-nos a triste notícia que se foi de vez. Mais um dos grandes, um enorme talento, levado demasiado cedo". 

Pedro Ramos, da rádio Radar, diz que soube da notícia via Facebook, "estava acordado à hora a que as notícias começaram a sair. Estive sempre a torcer por ele. Curiosamente, ainda no outro dia falei sobre ele com o Zé Pedro, no programa da Radar, porque ele tinha dado uma entrevista a dizer que o outro [Chester Bennington] tinha sido despedido [dos Stone Temple Pilots] e que se calhar ia voltar à banda... Ficámos a torcer por ele mas ao mesmo tempo a não acreditar muito naquilo. E agora aconteceu isto".

"Teve ali um auge entre 1994 e 1998, ano em que saiu aquele álbum dele a solo super interessante, um bocado um disco perdido com ele à procura de um rumo qualquer no meio daqueles químicos todos", defende o radialista, "a partir daí nunca mais fez nada de jeito. Ainda há um disco engraçado dos Stone Temple Pilots depois disso, mas os Velvet Revolver, no meu campeonato, já nem contam...".

"Os Stone Temple Pilots sofreram imenso com o facto de o primeiro álbum ter sido apontado como imitação dos Pearl Jam. Se calhar não são assim tão respeitados e, na história da música, talvez não fiquem muito bem vistos por causa desse primeiro disco", diz Ramos, "mas reagiram muito bem com o segundo álbum e principalmente com o terceiro. Lembro-me, na altura, de acordar cedo para ir comprar esse disco e de ler umas críticas péssimas, provavelmente de pessoas de outra geração que falavam de uma coisa que não era para elas".

"Entre a minha geração, que viveu muito essas bandas, o Tiny Music... era muito respeitado", acrescenta, "eles tentavam outras coisas. Enquanto os outros eram herdeiros do Neil Young e do Springsteen, como os Pearl Jam com aquela coisa dos homens do proletariado, o Scott Weiland arriscava mais... Mesmo em palco, dançava, arriscava na maneira de se vestir, trazia também a sexualidade que não era muito explorada por aquelas bandas todas da flanela. Maquilhava-se... Trouxe para a mesa um bocadinho de T. Rex, de David Bowie. O Cobain brincava um bocado com isso também, na roupa até, às vezes, mas o Weiland levou isso para a sua performance em palco. De facto, têm ali uma fase em que arriscam esteticamente e podiam ser quase uma espécie de Led Zeppelin, mas isso coincide com a altura em que ele é preso e não podem ir em digressão... Depois, é a história que se sabe". 

O radialista assistiu a um concerto dos Stone Temple Pilots em Austin, no Estados Unidos, no âmbito do festival South By Southwest, há cinco anos, e recorda: "foi um concerto incrível, eles estavam em grande forma. No encore até apareceu o Robby Krieger, dos Doors, e eles tocaram, se não me engano, o "Roadhouse Blues" com ele".  

Os álbuns dos Stone Temple Pilots foram distribuídos em Portugal pela Warner e Anabela Cruz, que à época trabalhava na editora, recorda: "numa altura, anos 90, em que havia tanta música medonha, aquela banda apareceu-me assim caída dos céus. Não cheguei a conhecê-lo. Não chegou a dar entrevistas [para Portugal]. Na altura, já tinha problemas. Editei dois álbuns deles e, no segundo, ele nem nos Estados Unidos fez nada [em termos promocionais] porque aquilo estava muito confuso, já estava muito metido nas drogas".

Os discos dos Velvet Revolver chegaram a Portugal via Sony, com a chancela da BMG. "Os álbuns deles passaram por mim", recorda Miguel Oliveira, da Sony Music, "ele não deu entrevistas e não fizemos nada com eles. Estiveram cá mas não fizeram entrevistas nenhumas. Lembro-me perfeitamente disso".

Foto: Getty Images