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Scott Weiland (1967 - 2015): A morte de uns certos anos 90

O frontman de Stone Temple Pilots e Velvet Revolver levou uma vida conturbada, encarnando uma certa ideia de rock que vingou nos anos 90. Recorde aqui o seu percurso.

Há quatro anos, Scott Weiland lançou uma biografia. Not Dead and Not For Sale (algo como "Não Estou Morto Nem à Venda", deixa retirada de " Trippin' on a Hole in a Paper Bag", de 1996) não terá tido, tanto quanto sabemos, edição em Portugal, mas algumas das suas revelações mais sumarentas foram, à época, destacadas pela imprensa internacional. Neste livro, o músico de que nos lembraremos sempre como a voz de "Interstate Love Song", "Plush" ou "Sex Type Thing", êxitos da sua primeira grande banda, os Stone Temple Pilots, lançava alguma luz sobre a infância e juventude, passadas entre a Califórnia e o Ohio. Nascido em San Jose, cidade californiana, a 27 de outubro de 1967, Scott Richard Kline mudaria de último nome quando, aos cinco anos, foi adotado pelo segundo marido da sua mãe. David Weiland, um advogado, deu a Scott o seu apelido e levou a família para um lugarejo no Ohio, que pai, mãe e dois filhos só abandonariam quando o futuro músico já entrara na adolescência. De volta à Califórnia, Scott terá ficado mais exposto aos vícios de que também se escreve a sua história, como reconheceu em entrevista ao USA Today, em 2011: "Às vezes pergunto-me como poderiam ter corrido as coisas, se nunca nos tivéssemos mudado. Mas a vida é como um rio. E nós não somos mais do que folhas, aguardando para saber que afluente é que nos levará". Ainda no Ohio, Scott Weiland viveu uma experiência traumática, relatada na sua biografia. Aos 12 anos, foi violado por um colega mais velho. "Era um tipo musculado, um dos mais velhos do liceu, que todos os dias ia comigo no autocarro para a escola. Convidou-me para ir a sua casa e violou-me", escreve em Not Dead and Not For Sale. "Tive medo e não contei a ninguém. Ele avisou-me que, se eu contasse, nunca mais teria amigos naquela escola e a minha reputação ficaria arruinada. Eu suprimi esta memória até há poucos anos; quando estava na rehab, a recordação voltou. A terapia tem desses efeitos".

Scott Weiland começou a consumir heroína nos primeiros anos dos Stone Temple Pilots, e na sua biografia descreve a experiência de forma cândida e sem censura. "Estávamos a promover o Core [primeiro disco da banda, de 1992], nos Estados Unidos, em digressão com os Butthole Surfers, os Flaming Lips [e outros]". Nessa noite, a banda vestiu-se de Kiss e Scott Weiland snifou a sua primeira linha: "O opiáceo levou-me para onde eu sempre sonhara ir. Não sei dizer que sítio era, mas estando lá sentia-me sem medo e sem inquietações, um homem livre a flutuar no espaço, sem demónios nem dúvidas".

O consumo de drogas pesadas e álcool marcou a trajetória musical de Scott Weiland com os Stone Temple Pilots, cujo primeiro fôlego se estendeu até 2002, e com os Velvet Revolver, banda formada nesse mesmo ano, com os ex-Guns N' Roses Slash, Duff McKagan e Matt Sorum. Na sua biografia, o vocalista admitiu que a motivação por detrás deste super-grupo foi financeira: "O dinheiro atraiu-me. Mas não posso dizer que fosse a música da minha alma. Os Velvet Revolver eram um produto manufaturado, que se juntaram por necessidade, não com uma finalidade artística".

Depois de dois álbuns, Scott Weiland abandonaria os Velvet Revolver, num contexto também motivado pelo consumo de estupefacientes. "No início da digressão estava bem, mas depois snifei uma linha em Inglaterra e rapidamente os demónios voltaram", recorda no seu livro   . "Fazia isto tudo em segredo; a malta dos Velvet Revolver não sabia. Quando lhes disse que ia faltar a uns quantos concertos porque precisava de me ir tratar, fiquei chocado com a sua reação. Disseram-me que tinha de lhes pagar pelos cancelamentos - por inteiro. Lembrei-lhes que, quando eles tinham precisado de ir para a rehab, eu os tinha apoiado. Não quiseram saber".

Entre Stone Temple Pilots, vencedores de dois Grammys por Melhor Performance Hard Rock ("Plush", em 1994, e "Down", em 2001), e Velvet Revolver, Scott Weiland ajudou a vender mais de 44 milhões de discos em todo o mundo. Considerado um dos vocalistas mais paradigmáticos dos anos 90, lançou também quatro discos a solo, um de versões e atuou com os sobreviventes dos Doors num especial da VH1. Nos últimos anos, criara uma nova banda, os Wildabouts, com quem estava em digressão quando morreu. Chamara-lhes um "renascimento musical" e desejava que os fãs dos seus primeiros grupos, bem como outros amantes de rock, dessem uma oportunidade ao disco que haviam lançado este ano (na véspera da edição de Blaster, Jeremy Brown, o guitarrista dos Wildabouts, morreu de overdose). "As pessoas fazem uma imagem errada de mim", confessou ao USA Today em 2011. "É verdade que fui viciado em heroína e cocaína e fui uma grande estrela rock. Mas não é a música que me define. Sou irmão, pai, filho e uma pessoa que já amou algumas mulheres", disse, referindo-se a Mary Forsberg como o "grande amor" da sua vida.

Scott Weiland foi casado três vezes, com Janina Castaneda, de 1994 a 2000; com a modelo Mary Forsberg, de quem teve dois filhos, Noah, de 15 anos, e Lucy, de 13; e com Jamie Wachtel, com quem estava desde 2013. Foi ela que, ontem, depois de um post prematuro e rapidamente apagado de Dave Navarro, confirmou a morte do marido.

Com o desaparecimento de Scott Weiland evapora-se também uma certa ideia de rock que vingou nos anos 90 e parece ausente do panorama atual, assético e seguro - autodestrutivo e sem controlo, o homem de "Vasoline" encarnou até ao fim o modo de vida que, até há não muito tempo, fazia coincidir rock e perigo. Fará falta. Lia Pereira Getty Images