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Savages: 'Vejo muitos homens reprimidos'

Recorde a entrevista de Jehnny Beth à BLITZ, em fevereiro do ano passado, no dia em que as Savages partilharam um vídeo filmado em Lisboa.

2013 foi o ano em que o mundo vos conheceu, em que deram dezenas de concertos... O que mudou no vosso espetáculo? Muita coisa mudou. Andamos em digressão há dois anos e a nossa prestação mudou, tal como as nossas expectativas. Tocar em festivais, por exemplo, exige mais de nós; a primeira vez que me apercebi disso até foi no Porto. Tínhamos umas três mil pessoas, talvez, e a tenda, que estava cheia, estava tão apaixonada, a apoiar-nos tão alto, a dar-nos tanto, que eu pensei: tenho de fazer alguma coisa com este amor todo! Não posso deixar de retribuir este amor. Dar algo mais, mais do que música. Falar com as pessoas. A partir, começámos a tentar coisas diferentes: tornámos a "Husbands" mais longa, passei a fazer algum spoken word nos concertos e acabámos por escrever canções dessa maneira, porque eu punha-me a brincar com as letras e as miúdas acompanhavam-me. E depois há a canção "Fuckers", que escrevemos na estrada. Tocamo-la todas as noites e foi-se moldando com o público, é quase uma canção comunal, que necessita que o público esteja vivo.

É curioso que tenha falado em amor, quando a maioria dos artigos sobre as Savages fala em agressividade. Devemos antes falar em energia? No começo, a nossa preocupação era fazer música física. Queríamos representar, através dos nossos corpos e das performances ao vivo, o nosso som. Deve haver uma interação entre o que acontece nas ruas, no palco e no público é quase como um triângulo e temos de nos influenciar uns aos outros, de várias formas. A agressividade que tínhamos desde o começo devia-se a estarmos num ambiente em que precisávamos dessa atitude: as pessoas precisavam de ser agitadas, despertadas. A sua passividade era, para nós, uma agressão. Então, respondemos a isso com agressão, porque é isso que somos: espelhos. Começámos em Londres, o que é ótimo, mas lá as pessoas são um pouco blasé em relação à música. A atmosfera da cidade é diferente da do Porto, por exemplo. Mas a raiva existe em todo o lado, o que é bom eu gosto de raiva! Toda a gente se deve sentir zangada, de vez em quando.

Acredita que a mensagem de Silence Yourself, contra o que é fútil e supérfluo, deve aplicar-se às nossas vidas quotidianas? Eu não tenho autoridade para dizer às pessoas como hão de viver as suas vidas. Devemos aprender com os nossos erros, para mudarmos a nossa forma de ser e ganharmos consciência do nosso comportamento. Estamos constantemente a ser "alimentados", o que não é necessariamente bom, e eu acredito que a arte, no geral, e a música são capazes de mudar a forma como pensamos e nos comportarmos, como cidadãos. Seria um sonho para mim que as pessoas se sentissem inspiradas por esta ideia, mas primeiro tento educar-me a mim mesma. Não é, contudo, um mistério para ninguém que há demasiadas coisas que nos distraem de nós mesmos, e que a música é positiva pois é muito primitiva, muito simples de entender. Por isso, deve ser usada com sensatez, de forma a levar-nos de volta às nossas raízes e a nós mesmos.

Há homens que vos vão ver e ficam muito espantados por vocês tocarem tão bem. Ainda há muito sexismo no rock? (Risos) Quando começámos a banda, só queríamos tocar juntas. Juntámo-nos porque fazíamos música. Não tinha nada a ver com sermos mulheres, mas sim com a música. No entanto, devo dizer que o facto de sermos quatro mulheres, para mim, em termos líricos, foi um grande começo: era um campo aberto, onde podia brincar com algumas preconceções sobre carisma feminino, sexualidade feminina, músicos femininos. Há muita coisa a que podes dar a volta e com isso surpreender as pessoas, porque sim, julgo que ainda há muitos preconceitos sobre as mulheres e também sobre os homens. Acredito que os homens também estão sujeitos ao sexismo, de forma muito diferente e não tão óbvia... Mas vejo muitos homens reprimidos. Não vejo tantos homens bissexuais como mulheres bissexuais, por exemplo. Há muita sexualidade reprimida nos homens, o que é uma pena.

Afirmou ter um fascínio pela ideia da "faísca" original, da pureza da ideia original... Segue essa ideia ao criar música? Referia-me a Henri Michaux, um escritor muito interessante, que fez muitas experiências com mescalina, abuso de drogas, escrita e desenho era um homem muito louco. E que tentou escrever poemas sem quaisquer distrações. Quando começas a escrever alguma coisa, tens uma ideia. Pegas na caneta e começas a tentar escrever, mas pelo meio surgem-te ideias novas, o que altera a tua ideia original. Os teus pensamentos divergem. O propósito dele era curar uma amiga que estava doente, usando palavras! Queria escrever-lhe cartas que estivessem tão cheias de otimismo e de esperança na sua cura que ela se ficasse a sentir melhor. E eu tentei fazer esse exercício, o de escrever sem distrações, na canção "I Am Here". É muito difícil, ficas parada logo à segunda linha. É assim que percebes que é muito complicado mantermo-nos concentrados.

Como é que se sentem quando leem que o futuro do rock pode, também, passar por vós? Trabalhámos muito e acho que encontrámos o nosso lugar. Acho que há muitas bandas novas que têm um som muito diferente do nosso e têm tanto valor como nós, mas acredito que temos algo singular e é disso que as pessoas gostam. Isso é uma grande sorte para nós. O que faz a diferença, numa banda, é o tempo e o lugar em que ela acontece. És parte de uma época e formas um grupo, crias um som, que geralmente não consegues encontrar noutro sítio. Quando formámos as Savages, não havia bandas em Londres que fizessem aquilo que queríamos ouvir. Não eram suficientemente pesadas, era tudo muito suave e twee, não tinha a ver com a nossa personalidade e o que queríamos fazer. Criámos algo do vazio.

Lia Pereira Entrevista publicada originalmente na revista BLITZ, em fevereiro de 2014