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Rua da Beneficência, nº 175, Lisboa: Ao vivo no Rock Rendez Vous 1980-1990

Entre dezembro de 1980 e julho de 1990, serviu de rampa de lançamento para a modernidade rock portuguesa. Quando passam 25 anos sobre o encerramento da fulcral sala de Lisboa, recuperamos um longo artigo sobre a sua história.

Nas paredes do velho cinema da Rua da Beneficência, ao Rego, em Lisboa, devem ter ficado agarradas muitas histórias depois de uma década de concertos, de suor, de rock and roll e até de sangue. Estranhamente, porém, não é uma história fácil de contar: ou porque alguns dos seus protagonistas não são fáceis de localizar ou então porque há quem, justificadamente, prefira concentrar o seu olhar sobre o presente a estendê-lo até ao passado. Inegável, no entanto, é o papel decisivo que o Rock Rendez Vous (RRV) teve no cimentar das certezas do rock português produzido numa década em que tudo teve que ser inventado. Há um ano, Rui Veloso, fazia a comparação entre um Fiat 600 e um Mercedes para procurar ilustrar o caminho que o rock em Portugal percorreu desde o "boom" de 80 até ao presente e para justificar a ausência de saudades. Compreensível. Mas a memória do RRV, num momento em que gente da geração de 80 como os Xutos, GNR ou até o próprio Rui Veloso enche o Pavilhão Atlântico sem problemas é apenas importante por significar o arranque, por ser uma espécie de primeiro capítulo de uma história que continua a ser escrita. De acordo com Pita, técnico de som do RRV que hoje desempenha funções de relevo no Pavilhão Atlântico, a sala que serviu de inspiração para o clube da Rua da Beneficência foi "o Marquee", o mítico clube de Londres onde os Rolling Stones se estrearam em 1962. Várias semelhanças podiam de facto ser apontadas, entre as quais o calor extremo produzido pelas enchentes, mas a mais notória prende-se com a ideia de clube de rock, que o RRV foi provavelmente pioneiro a reclamar. Até aí, o circuito rock nacional passava por espaços de sociedades recreativas a estreia dos Xutos e Pontapés tinha acontecido nos Alunos de Apolo de Campo de Ourique, por exemplo e por palcos improvisados num país que nos alvores de 80 ainda celebrava a chegada de electricidade a algumas localidades mais remotas. O RRV era a sério: tinha um sistema de som JBL a 4 vias e uma política de divisão de bilheteira com as bandas que era justa numa época em que rock e cachets ainda eram duas palavras que raramente surgiam na mesma frase.

25 DE NOVEMBRO DE 1981. Da esq. para a dta.: Luís Filipe Barros (apresentador de Rock em Stock), Pedro Ayres Magalhães, Rui Pregal da Cunha (baixista e vocalista dos Heróis do Mar, respectivamente) e a então radialista Ana Bola. COMUNIDADE RRV "O ambiente era caloroso e não obstante o convite à transgressão que está sempre implícito ou, pelo menos, associado a este tipo de lugares inspirava conforto", garante Ricardo Saló, hoje crítico do Expresso. "E sou totalmente insuspeito porque, já nessa altura, preferia música negra a rock, e era quase só este último que lá se ouvia. Talvez fosse apenas uma consequência directa da concepção arquitectónica e cénica (com uma interessante dimensão multimédia) do espaço. Ou talvez os tempos fossem outros e as pessoas fossem mesmo especiais como nos sugeria a "propaganda" pós-moderna... Ou, simplesmente, talvez seja a natureza selectiva da memória a fazer das suas e quase a impedir-me de lembrar, por exemplo, que, à sexta-feira, todo o cuidado era pouco face à elevadíssima possibilidade de, em cada quarto de hora, termos um tipo diferente a vomitar-nos em cima". Sérgio Noronha, actualmente a desempenhar funções de direcção na SIC Música, era também jornalista na época áurea do RRV e recorda igualmente o ambiente afável desse clube: "O ambiente era muito de clã: toda a gente se conhecia. Mas recebiam de braços abertos os "newcomers", parecendo até que tinham convertido mais uns apóstolos". Sérgio recorda-se do último comboio no Cais de Sodré para a Linha e como era possível identificar as "tribos": "a malta vestida de preto, cabelo espetado, eyeliner e gabardines vinha do RRV e do Bairro Alto da Jukebox e do Rock House; os friques vinham do Jamaica; em Alcântara entravam os betinhos que vinham do Bananas". Como é claro, nem toda a gente pinta de cor de rosa (ou negro.) as memórias do RRV. António Manuel Ribeiro, que com os seus UHF tocou 13 vezes naquele clube, não tem problemas em pedir escusas a um sentimento mais "politicamente correcto" e afirma não guardar grande imagem daquele clube: "Com o decorrer do tempo somos levados a maquilhar as situações porque, amiúde, o saudosismo pesa". Ainda assim, confessa guardar dois momentos especiais em relação àquela sala: "Um concerto dos Xutos que nós fomos apoiar e a meio o amplificador do Tim deu o berro. Como não havia um substituto no RRV, eu e o Peres fomos buscar o nosso à sala de ensaios na Costa da Caparica. Houve um intervalo com música ambiente e depois o concerto prosseguiu. E, em Janeiro de 1989, demos aquele que seria o último grande espectáculo com a sala esgotada. Estávamos a promover o LP Em Lugares Incertos e a RFM estava a gravar para transmitir em directo". À beira dos anos 90, os ânimos ainda não tinham esmorecido: "a dada altura tiraramme do palco, andei por cima das cabeças, ficaram-me com a camisa e devolveram-me de novo ao palco mosh e grunge antes de Seattle. Mas também lá demos espectáculos com 20 pessoas, quando nos pediam dois dias antes para taparmos o buraco de uma desistência e a promoção falhava. Mas o Pita, que dirigia o espaço, era e é um amigo e aos amigos diz-se presente". A ideia da existência de uma comunidade em torno do RRV que se adivinha nas palavras de António Manuel Ribeiro era verdadeira e é corroborada por vários dos músicos que frequentaram a sala na década de 80. No livro Conta-me Histórias de Ana Cristina Ferrão (publicado pela Assírio e Alvim em 1991), Kalú recorda como ir tocar ao RRV era algo especial: "O apoio de toda a gente que passou por lá deu-nos muita força. Para o RRV preparámos um show muito giro. Comprámos lençóis e com um spray preto fizemos um X e um P e umas cruzes. era uma ideia que tínhamos para umas t-shirts. O palco era todo preto e nós todos vestidos de preto. Fizemos uma montagem em vídeo com cenas de helicópteros e com música de Wagner para abrir o concerto. Nós entrámos em palco e serrámos mesmo". "Entre o público", escreve depois Ana Cristina, "estava de novo o João Cabeleira". O futuro dos Xutos e Pontapés foi, talvez como o de nenhuma outra banda, construído no RRV, não apenas por ali terem recrutado argumentos para a própria banda, como foi o caso de João Cabeleira, que depois de sair dos Vodka Laranja foi convidado a ingressar nos Xutos ali mesmo na sala, após um concerto, mas também porque foram a banda que mais concertos e maiores enchentes ali registou. O álbum 1º de Agosto ao Vivo no Rock Rendez Vous é o mais sólido documento dessa ligação umbilical. A memória de alguns protagonistas dessa época também ajuda: "O concerto do RRV que mais me marcou", revela Luís Varatojo, então nos Peste & Sida, "foi o dos Xutos & Pontapés a 31 de Julho de 1986. Os Xutos eram a melhor banda portuguesa nessa altura, davam grandes concertos. O som dos Xutos era o som do RRV, tinha a ver com aquela sala e com aquele ambiente, era um casamento perfeito".

1989, João Peste no RRV A MÚSICA MODERNA Factor crucial na elevação do RRV na nossa memória colectiva foi o papel de agitação que a sala assumiu na cena musical portuguesa através da criação dos Concursos de Música Moderna (CMM), o primeiro dos quais teve lugar em 1984, quando Mário Guia injectou novo fôlego no RRV após um curto período de encerramento no ano anterior a que um abaixo-assinado pôs fim. "Criei o concurso porque, em Portugal, não havia muitas bandas activas e os grupos de baile estavam a ganhar preponderância. Com a iniciativa, apelou-se à criação de temas originais e à formação de novos projectos. Surgiu a motivação". Em 2004, Mário Guia explicava assim a Emanuel Carneiro, do JN, a criação do CMM. Após o repto lançado, o RRV recebeu mais de 100 cassetes com outras tantas propostas para irem a concurso, "inclusivamente", explicou Guia igualmente em 2004, "de algumas bandas que se formaram de propósito". Nuno Rebelo reforça essa ideia: "No que me toca, os Mler Ife Dada constituíram-se precisamente para concorrer e ganhar o concurso. Provavelmente, sem o concurso, os Mler Ife Dada nunca teriam sequer chegado a existir. E penso, pelo que vou lendo, que este grupo foi importante para a cena musical da altura". Nas páginas do Blitz, em 1990, António Pires resumia assim a importância desta mostra de bandas do RRV: "Nas primeiras cinco edições do CMM aquele palco assistiu ao nascimento de inúmeros grupos que depois viriam a ser fundamentais para a compreensão da nossa música moderna dos últimos anos: os Mler Ife Dada, vencedores da primeira edição, ainda com Kim na guitarra e Pedro d'Orey nas vocalizações; os Croix Sainte, autores das canções mais sofridas da década e de um óptimo disco, agora objecto de culto para muita gente; os Essa Entente, então na versão "eixo Liverpool-Manchester", mais dura e menos céltica do que agora; os Linha Geral, aquela gloriosa célula militantemente bolchevique que gravou, depois, um álbum inesperadamente desastroso; os Pop Dell'Arte, na altura com Ondina Pires na bateria e Paulo Salgado no baixo; os Radar Kadafi, donos do nosso projecto mais latino, quente e canalha de sempre; os Urb, de onde saíram Nini e Zezé Garcia para outras, e grandes aventuras; os Mão Morta, que espantaram as hostes do 3º CMM com aquelas orgias generalizadas que os caracterizavam no início; os Seres, que foram dos primeiros a utilizar inteligentes e imaginativas "performances" durante os seus espectáculos; os Peste & Sida, olhem quem!; e os então Easy Gents, agora Ritual Tejo, vencedores da penúltima edição do concurso". Manuel Falcão, primeiro director do então semanário BLITZ, explica que a aproximação entre a publicação e o clube foi natural: "Fui júri dos concursos, o BLITZ nasceu naturalmente ligado ao RRV uns anos mais tarde, e a festa de lançamento foi obviamente lá. Um ano depois, no primeiro aniversário, a festa foi dos Mler Ife Dada, com um concerto excepcional. BLITZ e RRV andaram de mãos dadas toda a vida. Não havia nenhum acordo especial, mas o BLITZ privilegiava a actividade do RRV". Nuno Rebelo: "Lembro-me que demos um belíssimo concerto e que foi realmente uma festa". RRV INTERNACIONAL Num momento em que a música pop nacional começava, realmente, a olhar para fora, o RRV ajudou, como talvez apenas o Pavilhão do Dramático em Cascais, a meter Portugal nas rotas internacionais: os Teardrop Explodes, de Julian Cope, os Woodentops, Killing Joke, Raincoats, Danse Society, Lords of The New Church, The Sound ou The Chameleons foram alguns dos nomes importantes que marcaram presença no palco da Rua da Beneficência. Curiosamente, ou talvez não, a banda de Julian Cope parece ter ficado especialmente marcada na memória das pessoas que contactámos. Manuel Falcão, hoje director-geral da agência de estratégia de meios Nova Expressão, conta um episódio curioso passado com o vocalista dos GNR: "Penso que foi no concerto dos Teardrop Explodes e o Rui Reininho estava ao meu lado, os dois de pé na plateia, bem animados pela música e a certa altura dou com o Reininho a olhar muito fixamente para o palco, quase quieto e pergunto-lhe: "Ó Rui, estás bem, passa-se alguma coisa?". E nunca mais me esqueci da resposta dele: "Está tudo bem, estou só a estudar a maneira como o Julian Cope está em palco, como se move, temos que aproveitar para aprender, este concerto ainda me vai ajudar muito"". Zé Pedro, dos Xutos, também refere os Teardrop Explodes, que estiveram três noites no RRV, como um dos melhores que viu na sala da Beneficência e sublinha a simpatia dos músicos dessa banda: "Grandes concertos que eles deram. Vi os três, tive oportunidade de conhecer os músicos e lembro-me de ir sair com eles para o Bairro Alto, para o Rock House. O Julian Cope não foi, era mais reservado e preferiu ficar no hotel". António Sérgio explica que guarda boas memórias do RRV, mas, tal como António Manuel Ribeiro, prefere não endeusar o local, até porque estava habituado a este tipo de locais no circuito internacional, "onde qualquer pub de medianas dimensões podia ter bandas ao vivo enquanto se bebia um ou mais copos. era assim que se conheciam bandas como os 101ers (primórdios dos Clash) ou Dr.Feelgood, Stranglers, Brinsley Schwarz ou John Mayall com o "people" de rabo voltado para as bandas e encostado aos balcões. só o "tuga" arregalava os olhos perante tal oferta", desabafa o radialista que ainda assim destaca vários concertos que tiveram lugar no RRV, "como os Killing Joke, o Cope com os The Teardrop Explodes. Mas inultrapassável mesmo foi o dos Woodentops: os tipos estavam tão felizes com o acolhimento que faziam encores repetindo os mesmos temas, pois o reportório era ainda curto". A FACA E O SANGUE Em termos de "produto nacional", os nossos interlocutores destacaram naturalmente os Xutos e Pontapés, mas também concertos que entraram para a memória colectiva de bandas como Pop Dell'Arte, GNR, Heróis do Mar que ali deram o primeiro de muitos polémicos concertos após o lançamento do seu álbum de estreia, Mler Ife Dada e, pois claro, Mão Morta, protagonistas do mais "sanguinário" dos espectáculos no RRV, feito notável se tivermos em conta que por lá passaram também bandas como Killing Joke ou The Lords of the New Church.

ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL (versão travesti!) e Zé do Eclipses (em segundo plano) em plena actuação no III Concurso de Música Moderna. Os Mão Morta ganhariam o Prémio de Originalidade. Miguel Pedro, baterista dos Mão Morta, refere que houve duas noites que o marcaram: "a primeira foi uma espécie de vitória da cidade de Braga no III concurso de música moderna do RRV: Braga ganhou o 1º prémio, com os Rongwrong, e o prémio de originalidade, com os Mão Morta. Foi em 1986 e que grande festa que foi. A segunda foi, claro, a da facada do Adolfo, em 1989: só quem aí esteve é que pode perceber o ambiente que aí se viveu. A auto-mutilação do Canibal é que ficou para a história, mas o ambiente e o concerto foram, para mim, a epifania do Deus Rock". Para Adolfo, há um certo enfado no relato de um episódio que extravasou a noite de 2 de Junho de 1989 para se transformar, como escreve Vítor Junqueira em Narradores da Decadência (Quasi, 2004), "irremediavelmente no maior lugar comum da história dos Mão Morta". A palavra a Adolfo: "Aconteceu com uma faca, uma ponta-e-mola novinha em folha e de gume demasiado agudo na época, eu usava facas e canivetes (o que conseguia arranjar, pois dinheiro para adereços não havia...) na interpretação dos temas (foi com uma faca escondida que me libertei da camisade-forças na final do III CMM nesse mesmo RRV 3 anos antes!...), mas aquela navalha era a primeira vez que lhe tocava, tinhamma trazido durante a tarde. Quando, como era hábito, passava o gume pela pele nada acontecia, salvo uns pequenos vergões que, na pior das hipóteses, se transformavam em arranhões já o havia feito, inclusive, na própria cara, nesse mesmo RRV, sem qualquer consequência negativa mas dessa vez, embora também nada sentisse (devido ao afiado da lâmina?), a faca ia deixando sulcos na carne, que só detectei quando levantei uma mão a espirrar sangue após ter tocado na coxa... Depois, foi aguentar até final!". Adolfo tem o cuidado de explicar que tal episódio nada teve de épico, mas a verdade é que esse gesto simbolizou um certo extremar de posições estéticas no rock português da segunda metade dos anos 80 que ajuda a explicar o estatuto que a época adquiriu na memória de muita gente. Henrique Amaro esteve nesse concerto: "A sala estava a abarrotar, o fumo era muito e os acontecimentos em palco obrigaram-me a visitar o wc para lavar a cara e ganhar forças para o final". Quase duas décadas volvidas sobre o final do RRV, quase todos os nossos interlocutores são unânimes em reconhecer que o lugar ocupado pela sala criada por Mário Guia é singular e que o estatuto mítico de que parece hoje gozar é merecido. Ricardo Saló avisa que "é difícil sustentar qualquer tipo de argumentação à volta de um mito". E conclui: "mas que correspondia a uma ideia de clube regido por uma visão criteriosa do rock, isso é um mérito que jamais deixarei de reconhecer-lhe". Texto: Rui Miguel Abreu Originalmente publicado na BLITZ de junho de 2008