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Royal Blood no Coliseu de Lisboa: o rock não estava morto, só engasgado (texto e fotos)

Banda britânica esgotou o Coliseu de Lisboa, na estreia em Portugal. Concerto irrepreensível naquela que foi a última etapa da digressão.

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A discussão não é nova e é constantemente alimentada de ano para ano, com maior ou menor razão. Conta-se que o rock n' roll, esse género que possibilitou revoluções políticas e sexuais, que alterou as filosofias e os modos de estar de inúmeras gerações, e que mudou para sempre a face da pop, está morto. Os culpados, apontam os puritanos, são extensos: da electrónica à pop pré-fabricada, do desinteresse das massas à parca informação existente nos media. O cenário apocalíptico é constantemente alimentado por quem viu e continua a ver a salvação do mundo numa guitarra. Mas, e parafraseamos Galileu, no entanto ele move-se; basta observar, durante a hora e pouco que o concerto durou, o imenso público que encheu o Coliseu dos Recreios numa noite convidativa com o propósito de ver ao vivo os Royal Blood, duo britânico que de um momento para o outro se transformou na grande coqueluche do género. Desde o lançamento do seu álbum de estreia que se tem tentado perceber como é que os Royal Blood conseguiram este culto, o que não se revela tarefa fácil. Mike Kerr, baixista cheio de pinta e verdadeiro quebra-corações para as fãs mais jovens, afirmou em entrevista à BLITZ que o público sempre esteve sedento por este tipo de sonoridades. Tem alguma razão, mas isso não explica como é que, segundo relatos, houve quem tivesse ido para a porta do Coliseu às dez horas da manhã com o objectivo de entrar de graça, infrutíferas que foram as tentativas de obter um bilhete por outros meios. Chega por vezes a assustar, quando nos lembramos de que, enquanto banda, os Royal Blood existem há cerca de dois anos. O que é certo é que, se o rock estava morto, os Royal Blood, quais enfermeiros do riff, aplicaram-lhe uma massagem cardíaca e ressuscitaram o género do seu leito, destaparam a mortalha que o cobria com a força bruta de um baixo e bateria monstruosos. E nem precisariam de chegar a tanto - ainda antes do concerto, pais e filhos de todas as idades, dos mais velhos aos mesmo muito novos, iam-se deliciando com as escolhas que se ouviam no PA. Não deve haver imagem mais bonita do que aquela de uma criança com dois, três anos a erguer bem alto o braço, mão com indicador e mínimo espetados, e cabeça bamboleando ao som de "Guerrilla Radio", dos Rage Against The Machine. Concluamos, pois, que não está morto, ou sequer adormecido. Que haja gente a pensar o contrário só revela desatenção. E que os Royal Blood sejam vistos como a salvação do género só atesta à sua qualidade. Em "Hole", logo a abrir, as filas da frente aderem ao caos e aplaudem fervorosamente no refrão. É tudo tão simples: um baixo, uns pedais de efeitos, e uma bateria que cospe um ritmo eficaz. O rock não precisa de mais do que isto. Nem a vida. Esta última, por vezes, precisa de um ou outro momento mais terapêutico, que no caso de Kerr, que também assina as letras das canções do grupo, será o facto de andar pelo mundo a contar o final trágico de uma relação amorosa (saibam os leitores mais desatentos que todas as canções dos Royal Blood são sobre amor). E então voltamos atrás e reconcluímos: o rock é uma medicina essencial à vida. Será escusado dizer que os Royal Blood foram ganhando o apego do público, porque isso era algo assegurado à partida. Ainda assim, "Come On Over" traz consigo os primeiros segundos de mosh, que se foram esporadicamente desenrolando ao longo do restante concerto, com mais ou menos roupa no corpo. Em "You Can Be So Cruel" Kerr ameaça descer até às grades, abraçar os seus e as suas, mas de imediato volta para trás, porque o espectáculo assim o determina. A realeza assim o determina. Desengane-se quem pensava ir assistir a algo diferente daquilo que se encontra em Royal Blood, o álbum. Considerando que o mesmo foi construído de forma a captar a energia do duo ao vivo, outra coisa não seria de esperar. E, de facto, Kerr e Thatcher são tão precisos que o riff demoníaco e circular com que se encerra "Figure It Out" quase não nos faz eriçar os pêlos do braço. Sempre empenhados em cima do palco, poucas foram as vezes em que se desviaram do plano traçado em Royal Blood e, quando o fazem, o público ora estranha, ora entranha, mas raramente se aquieta. Os momentos mais mortiços são quebrados pela muralha noise do final de "Careless" e pelos primeiros acordes de "Ten Tonne Skeleton", com o público rendido ao poderio sónico dos britânicos e acompanhando-os como podem: entoando as letras, aplaudindo sem pedido ou erguendo os braços, com ou sem um smartphone na mão que registe o momento. O rock não estava morto. Só engasgado. E os Royal Blood vieram a Lisboa fazer-lhe a manobra de Heimlich (depois de terem cancelado, em novembro passado, o concerto no Armazém F - e ressalve-se que a mudança para o Coliseu foi uma aposta ganha por parte da organização), tirá-lo de qualquer torpor em que se encontrasse. "Loose Change", com Kerr a introduzir o seu comparsa - half man, half bull, half crazy, disse - deu o mote para o final apoteótico que se seguiria, com "Out Of The Black" a revelar-se categoricamente e a pausar a meio, para que Thatcher pudesse subir a uma das galerias e resgatar um cachecol da selecção portuguesa, de pronto colocado aos ombros. A torrente eléctrica com que a canção termina varre uma sala que não ficaria contente com menos. Dizem eles que o fazem porque se divertem; os sorrisos que dirigiram um a outro, no final, são a prova máxima de que a brincadeira é para continuar. Para bem do rock, parece-nos. Texto de: PAC Fotos de: Rita Carmo/Espanta Espíritos