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Roger Waters pediu a Gilberto Gil e Caetano Veloso para que estes cancelassem concerto em Israel: leia aqui a carta

Músicos brasileiros informaram, contudo, que o concerto continuará de pé.

Roger Waters, ex-baixista e fundador do Pink Floyd, enviou uma carta a Gilberto Gil e Caetano Veloso pedindo que os músicos brasileiros cancelassem um espetáculo agendado para Tel Aviv, em Israel, a 28 de julho. Segundo a página web da edição brasileira da Rolling Stone, a carta foi redigida a 22 de maio e "encaminhada através do BDS, sigla global que tem como objetivo pressionar a saída de Israel de territórios palestinianos através de 'boicotes, desinvestimentos e sanções'". "Os prisioneiros e os mortos estendem as mãos. Por favor, unam-se a nós ao cancelar o vosso concerto em Israel", escreveu Waters. Representantes de Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram informar que o concerto não será cancelado e que nenhum dos artistas falará sobre a saída de Israel de territórios da Palestina. A dupla de históricos da música brasileira tem também concerto marcado para Portugal, a 31 de julho, no Parque dos Poetas/Estádio Municipal de Oeiras, integrado na programação da edição deste ano do EDP Cool Jazz. Leia aqui a carta de Roger Waters enviada aos músicos brasileiros: Caros Caetano e Gilberto, Quando olho para as vossas fotos, ouço as vossas músicas, leio a história das vossas lutas pessoais e profissionais, lembro-me das lutas de todos os povos que resistiram a um domínio imperial, militar e colonial, que lutaram pelos prisioneiros e pelos mortos. Nunca foi fácil, mas foi sempre certo. Uma das suas músicas, Gil, menciona o arcebispo Desmond Tutu. Não falo português, mas assumo que vocês aplaudam a resistência do arcebispo Tutu ao racismo e ao apartheid que acabaram por ser derrubados na África do Sul. Eram dias impetuosos, quando a comunidade mundial de artistas estava lado a lado com os seus irmãos e irmãs oprimidos na África. Nós, os músicos, liderámos o levante naquele momento, em apoio a Nelson Mandela, ao ANC, ao povo africano oprimido e a todos os prisioneiros e mortos. Neste momento, estamos perante uma oportunidade igualmente significativa. Estamos num ponto culminante. Aqueles de nós que estão convencidos de que o direito a uma vida humana decente e à autodeterminação política devem ser universais estão, em consonância com 139 nações da Assembleia Geral da ONU, concentrados na Palestina. Após o ataque brutal de Israel à população palestiniana de Gaza, no último verão, a opinião pública, acertadamente, pendeu a favor das vítimas, a favor dos oprimidos e dos desprovidos de privilégios, a favor dos prisioneiros e dos mortos. O primeiro-ministro de Israel, Netanyahu, com seu governo de extrema-direita, lembra-me o conto "O Rei vai nu". Eles condenam-se mais a cada fôlego, a cada discurso racista. "Olha, mãe, o Rei vai nu!". Tive a oportunidade, recentemente, de escrever uma carta a um jovem artista inglês, Robbie Williams; partilhei com ele o destino de quatro jovens palestinianos que jogavam futebol numa praia de Gaza, mortos por artilharia israelita. Por que trago eu à baila uma praia e futebol? Porquê? Porque eu amo o Brasil, tenho a praia de Ipanema na minha memória; lembro-me de concertos que fiz em São Paulo, Porto Alegre, Manaus e Rio. Como poderia esquecê-los? Tenho uma camisola de futebol assinada: "para o Roger, do teu fã, Pelé". Quando estive aí pela última vez, uma criança inocente tinha acabado de ser morta, arrastada por um carro conduzido por criminosos que escapavam de uma cena de crime. O luto nacional era palpável, era abrangente. Vocês, todos vocês, importavam-se com aquela pobre criança. De várias maneiras, vocês são um foco de luz para o resto do mundo. Como vocês sabem, artistas internacionais preocupados com direitos humanos na África do Sul do apartheid recusaram-se a atravessar a linha de piquete para tocar em Sun City. Naqueles dias, Little Steven, Bruce Springsteen e mais de cinquenta músicos protestaram contra a opressão cruel e racista sobre os nativos da África do Sul. Aqueles artistas ajudaram a ganhar aquela batalha, e nós, do movimento não-violento de Boicote, Desinvestimentos e Sanções (BDS) pela liberdade, justiça e igualdade dos palestinianos, vamos ganhar esta batalha contra as políticas igualmente racistas e colonialistas do governo de ocupação de Israel. Vamos continuar a pressionar em prol de direitos iguais para todos os povos da Terra Santa. Do mesmo modo que músicos não iam tocar a Sun City, uma boa quantidade de nós não vai a Tel Aviv. Não há lugar hoje, no mundo, para outro regime racista de apartheid. Quando tudo isso acabar, iremos à Terra Santa, cantaremos as nossas músicas de amor e solidariedade, olharemos as estrelas através das folhas das oliveiras, sentiremos o cheiro da madeira das fogueiras dos nossos anfitriões, estimaremos essa lendária hospitalidade. Mas até que isso termine, até que todos os povos sejam livres, vamos fincar o pé e há uma linha que não cruzaremos: não vamos entreter as cortes do rei tirano. Caros Gilberto e Caetano, os prisioneiros e os mortos estendem as mãos. Por favor, unam-se a nós cancelando o vosso espectáculo em Israel.