Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Rodrigo Leão: 'A ideia inicial sempre foi a de fazer um disco instrumental'

Leia aqui, na íntegra, a entrevista de Rodrigo Leão a propósito de A Vida Secreta das Máquinas, disco com edição exclusiva BLITZ que recebeu ontem o galardão de Álbum do Ano da Sociedade Portuguesa de Autores.

A origem de a A Vida Secreta das Máquinas, novo disco de Rodrigo Leão, foi captada com o telemóvel do músico em Goa, no início deste ano [2014]. O ruído das máquinas perseguiu-o, desde então, e levou-o a embrenhar-se num projeto que o aproxima mais que nunca da música eletrónica e que viveu outro momento importante quando o músico subiu ao palco da primeira edição do festival Lisb/On #Jardim Sonoro, que se realizou em Lisboa em setembro, para o apresentar ao mundo. A experiência não o deixou tão satisfeito quanto esperava e resolveu continuar a trabalhar com afinco nas canções que tinha. O resultado está, neste momento, nas mãos dos leitores da BLITZ [o álbum, inédito e gratuito, acompanhou a revista de janeiro de 2015, que saiu para as bancas em dezembro de 2014] Que momento serviu de rastilho à música que se ouve em A Vida Secreta das Máquinas? Lá em Goa, fomos visitar uma casa velha e eu achei piada ao ruído da instalação elétrica, muito antiga, muito velha, e gravei com o iPhone. Na altura, pensei que, eventualmente, poderia utilizar aquilo como já tinha feito antes, por exemplo, gravando pássaros na rua, no A Mãe. Depois, quando cheguei de Goa, comecei a gravar outras coisas. Em frente a minha casa, estão a construir os dois prédios novos da EDP e neste momento têm umas cinco ou seis gruas, portanto gravei alguns ruídos da própria obra. Fui também à internet buscar alguns sons de ruídos de fábricas. Isso coincidiu com uma altura em que estava a compor muito e comecei, em duas ou três peças, a fazer uma aproximação à música eletrónica. Não sou especialista em eletrónica nem das pessoas mais atentas [a ela], portanto são coisas feitas de forma muito intuitiva e à minha maneira. Tenho as minhas referências... Uma delas é Björk, mas também Portishead e Massive Attack, coisas dos anos 90. Depois, recebi o convite de um grande amigo, o Nuno Faria, um dos organizadores do festival Lisb/On, e foi aí que apresentei pela primeira vez este projeto. Não fiquei 100 por cento satisfeito - aliás, muito longe disso - mas [sobrou] a sensação de que para fazer este disco para a BLITZ teria que tirar mais eletrónica do que a que tinha utilizado no concerto e compor mais alguns temas para que isto tivesse unidade e fizesse sentido para mim. O disco chama-se A Vida Secreta das Máquinas e apesar de ser em meu nome é um disco à parte da minha carreira. Esta ideia de as máquinas terem vida recorda um pouco o trabalho que Björk fez no filme Dancer in the Dark, de Lars Von Trier... Exatamente, lembro-me perfeitamente de ficar impressionado com aqueles ritmos todos feitos por ela. A decisão de ser um disco totalmente instrumental prende-se com o facto de as máquinas estarem na sua génese e não haver lugar para a voz humana? De há um ou dois meses para cá, ainda pensei se valeria a pena tentar pôr voz num ou dois temas, mas a verdade é que a ideia inicial sempre foi a de fazer um disco instrumental e, portanto, mais ambiental. Não se justificava ter um cantor, até porque não é um disco muito comercial e se tentasse ter uma ou duas canções cantadas podia mudar um pouco o espírito do disco todo. Quando anunciou o concerto no Lisb/On disse que ia trabalhar algumas das suas canções para caberem naquele alinhamento. Isso chegou a acontecer? Não, não chegou a acontecer porque, de facto, tinha material suficiente para não ter que o fazer. Mas há um tema que toquei, e está no disco, que já tinha gravado este ano num álbum com o Scott Matthew que só vai sair em finais do ano que vem ou até em inícios de 2016. Chama-se "A Máquina Triste" e já existia antes de ele fazer uma letra. Aqui é instrumental, ele só canta no disco dele. Portanto, a experiência ao vivo deu-lhe ideias para injetar nova vida a estes dez temas? Um bocadinho. Senti a necessidade de ter temas mais ambientais, mais calmos e portanto há dois ou três que nem sequer têm batida. Depois, cruzei-me com o Rui Maia, dos X-Wife e que tem também o projeto Mirror People, e pedi-lhe ajuda para colaborar. O Rui é uma pessoa muito mais ligada à eletrónica do que eu, obviamente, e gostei muito das ideias que nos deu, acabando por gravar coisas de sintetizadores. O Adriano Filipe, que trabalha no Teatro da Trindade e faz bandas sonoras, também colabora neste disco. Já tínhamos trabalhado juntos há muitos anos num projeto para o Frágil e que era um quarteto de sintetizadores... O Pedro Oliveira, meu companheiro de sempre, toca guitarra. Eu toquei também sintetizadores, guitarra, baixo e produzi com o João Eleutério, que também trabalha connosco há muitos anos e que aqui tocou também baixo, teclas e guitarras. Há quem continue a defender que à música eletrónica falta sentimento e que os sintetizadores não têm a alma que se solta dos instrumentos convencionais. O que responde a uma pessoa que pense assim? Não concordo com isso até porque há projetos, muito antigos e até mais recentes, de que gosto muito, como os Kraftwerk ou os Tangerine Dream... E há também alguns compositores que tenho ouvido de há um ano para cá, como o Ólafur Arnalds, que tocou comigo no CCB, ou o Nils Frahm. São pianistas que fazem uma aproximação muito suave a alguma música eletrónica. E depois há mais uns compositores que embora não tenham contribuído ou influenciado musicalmente este disco, de forma mais abstrata, indiretamente, também me fizeram querer fazer este disco. É dos artistas portugueses mais trabalhadores do momento... Há sempre um projeto em curso, seja um disco ao vivo, um como este que agora apresenta, um álbum de originais, uma banda sonora. É disciplinado, no que toca ao trabalho, ou na sua cabeça há sempre um caos que depois tenta organizar? Por vezes, há uma preguiça muito grande na minha maneira de organizar o trabalho, mas há momentos em que me dá um clique e tento definir períodos de trabalho e compor mais. É evidente que há alturas em que não sai nada e outras em que saem mais coisas. Neste último ano, tenho vindo a trabalhar duas a três vezes por semana pela noite fora, das 8 da noite às 4 ou 5 da manhã, e é aí que tento compor com o computador e os sintetizadores. Vou guardando muita coisa que fica de fora e desenvolvendo outras coisas, tentando escrever arranjos de cordas. Não sou uma pessoa muito disciplinada mas tenho momentos em que tento, de facto, encontrar essa disciplina porque senão era difícil concretizar estes projetos todos. Que impacto teve para si a participação na banda sonora do filme de Hollywood O Mordomo? De facto, muitas pessoas diziam-me: "agora vais receber uma série de pedidos". Não aconteceu nada. Foi muito bom trabalhar na música para O Mordomo, porque foi uma experiência que nunca tinha tido, com uma orquestra extraordinária e um arranjador muito bom num estúdio em Londres, mas tenho a sensação de que agora durante uns anos se calhar vou ter muito poucos pedidos. Depois talvez venha um ano em que, por coincidência, receba três ou quatro. Agora, de forma alguma gostaria de estar preso só a fazer música para filmes. Apesar de os discos venderem cada vez menos, gosto desta coisa de ir para estúdio e estar uns meses à volta de temas para gravar um álbum. O Rodrigo é também um dos músicos que mais vende em Portugal. O que significa isso para si, em termos práticos, num momento em que não se faz dinheiro com discos? Mesmo os discos que estão algum tempo nos topes de vendas, os meus em particular, muitas vezes só cobrem as despesas que tivemos ao fazê-los. Não são discos que dêem muito lucro. Eu nunca estive no patamar de artistas que, em Portugal, chegaram a vender 100 ou 200 mil discos, como os Delfins ou o Pedro Abrunhosa. O Cinema se calhar vendeu 50 mil ou 60 mil e terá sido o máximo que vendi, A Mãe vendeu 40 mil ... Hoje em dia falamos de outros números. Vendemos 20 mil ou 10 mil discos, no máximo... Nos últimos cinco anos ainda se acentuou mais a queda. Passou por várias fases, boas e más, da indústria discográfica em Portugal. Pensa que neste momento é exigido mais aos artistas - ou eles exigem mais de si próprios - do que era, por exemplo, nos anos 90, quando se vendiam muito mais discos? Neste momento, até pelo facto de não se venderem muitos discos, se calhar os artistas têm mais liberdade de fazer o que querem. Não digo que não tenha feito sempre o que quis mesmo nos Madredeus ou Sétima Legião nunca nos impuseram nada mas acho que vivemos, junto com esta crise tão grande, um momento de criatividade. Há muita gente a compor e trabalhar com entusiasmo, sabendo que é muito difícil sobreviver da música neste momento. A Vida Secreta das Máquinas vai ser para levar ao palco no próximo ano? Para já, o objetivo era deixar registados estes temas. Ainda não pensei nisso, não sei bem como virá a ser. E que outros projetos tem em mente? A seguir a isto vou compor para o meu próximo disco, que espero gravar durante o ano de 2015. Já tenho algumas ideias, mas ainda está muito no princípio. O disco com o Scott Matthew, que sairá, como disse, no final de 2015 ou início de 2016, resulta de uma amizade grande, uma empatia e cumplicidade musical que criámos. Entrevista de Mário Rui Vieira Publicada na BLITZ de janeiro, que inclui grátis o CD de Rodrigo Leão, A Vida Secreta das Máquinas