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Quem não gosta de Bob Marley? [editorial de Miguel Cadete]

"[O] mito, e tudo o que levou à sua construção, está carregadinho de ideias feitas, mal-entendidos e (...) meias verdades", escreve Miguel Cadete no editorial da BLITZ deste mês. Leia-o, na íntegra.

Não há, em toda a história da música popular, um fenómeno como Bob Marley. Não digo isto por ele ter sido, provavelmente, a primeira estrela global da world music. Sucede assim porque, ao contrário de todos os astros que povoam a galáxia da música pop, Bob Marley não tem quem o odeie. Concedo, há quem lhe seja indiferente; quem nunca tenha cantarolado um dos seus êxitos; ou mesmo quem não lhe tenha dado ouvidos por uma vez na vida. Mas apontem-me quem genuinamente nutra uma antipatia autêntica por Bob Marley e eu dir-vos-ei que está pura e simplesmente a fazer género. Claro que esse mito, e tudo o que levou à sua construção, está carregadinho de ideias feitas, mal-entendidos e, como é costume dizer-se por estes dias, meias verdades. Poucos se dedicam a divulgar os falhanços de Bob Marley antes de se tornar uma estrela, quando passou temporadas na Suécia sem que ninguém lhe ligasse pevide. Rewind, selector: ainda antes disso, não é costume ler-se que o grande defensor da negritude da mãe África era, afinal de contas, filho de um branco colonialista. Ou que a sua discografia oficial está muito longe daquela que realmente gravou e que aí estamos na presença do mais puro caos, com o respectivo roubo de direitos autorais e outros. Ou ainda que o primeiro álbum editado pela Island de Chris Blackwell foi alterado nas misturas finais com o intuito de agradar "ao público do rock". Foi precisamente essa falta de respeito pela obra do mestre que o conduziu ao estrelato. Quando Catch a Fire chegou aos escaparates, em 1973, o que ali se ouvia pouco tinha a ver com o roots reggae de Bob Marley, Peter Tosh e Bunny Wailer. Porém, ironia das ironias, seria precisamente o retratamento dado ao disco que abriria caminho ao êxito de uma editora que alegrava o seu catálogo com Spencer Davis Group, King Crimson, Roxy Music ou Fairport Convention. Havia, porém, uma diferença na abordagem de Chris Blackwell aos seus artistas, além do olho clínico capaz de tornar o autor de "Stir It Up" uma vedeta à escala planetária. O dono da Island, que curiosamente tinha um percurso não muito diverso daquele seguido pelo pai de Marley, distinguia-se de outros svengalis da indústria por apostar em carreiras de longo prazo. E foi essa opção estratégica que permitiu segurar Marley até ele se tornar realmente bem sucedido, já rompiam os alvores do punk, nos distantes anos de 76 ou 77. "One good thing about music, when it hits you, you feel no pain" é um dos aforismos mais conhecidos de Marley. Talvez esteja aí o segredo para ninguém realmente detestar as suas canções. Nem mesmo os punks mauzões que no final da década de 70 lhe deram o braço, apesar da atitude "paz, amor e harmonia" de Marley. Mas essa é só mais uma ironia numa carreira pejada delas. Miguel Cadete