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Quando Londres chamou pelos Parkinsons [ARQUIVO]

Numa altura em que a banda punk portuguesa volta a mostrar-se nos palcos ingleses, onde no início do milénio chegou a ser comparada com os Sex Pistols, recuperamos uma entrevista de 2012 ao guitarrista Victor Torpedo. Leia-a na íntegra.

Quando os conimbricenses Tédio Boys acharam por bem terminar uma carreira explosiva ao serviço da música, todos os seus elementos seguiram por caminhos diversos. O guitarrista Victor Torpedo era provavelmente o que mais alto sonhava, tendo em mente um salto para os Estados Unidos, onde a sua então ex-banda tinha realizado bem-sucedidas digressões. "Dediquei-me 120% aos Tédio Boys. Era a minha vida, a minha família, tudo", recorda o músico, "quando acabámos, sabia que não estava aqui a fazer nada. Nunca quis ficar em Portugal. Nos dois últimos anos dos Tédio Boys tornei-me um bocado chato com a minha ânsia de ir para longe". E foi precisamente com essa intenção, a de tentar uma carreira do outro lado do Atlântico, que fez com que, em 2000, pegasse no vocalista Afonso Pinto (também conhecido como Al Zheimer) e o baixista Pedro Xau e partisse para Inglaterra com o projeto Parkinsons já em andamento. "A ideia não era ficar em Londres, era ir para os Estados Unidos. Mas seis meses depois de lá estarmos não tivemos escapatória. A coisa aconteceu muito rápido e sentimos que era o momento errado para ir para a América". Torpedo lembra-se bem do momento em que percebeu que os seus Parkinsons cuja formação ficou completa com a entrada do baterista escocês Chris Low estavam a tornar-se um fenómeno em terras de Sua Majestade. Deveu-se em muito às atuações suadas, que não raras vezes arrastavam um hábito que o músico trazia dos Tédios Boys: a nudez. "O nosso segundo concerto em Londres, no Verge, foi o ponto de viragem. Foi a primeira vez na vida que topei que algo estava a acontecer", explica o guitarrista. "A imprensa britânica começou a falar de nós logo a partir desse concerto". O NME incluiu-os entre as doze bandas para ter debaixo de olho em 2002 e a febre dos Parkinsons acabaria mesmo por se estender a Portugal: "os Tédio Boys, em 10 anos, nunca foram capa do BLITZ e nós em seis meses conseguimos ser". Ainda antes das edições do single "Streets of London", que chegou a figurar no top 100 britânico, e do álbum de estreia, A Long Way to Nowhere, ambos com a chancela da britânica Fierce Panda, precisamente em 2002, os Parkinsons tomaram de assalto o festival de Reading. "Foi tremendo. No primeiro ano em que lá fomos, tocámos muito cedo e já estava a tenda, que era enorme, cheia de gente. Mas tivemos uma receção ótima. No ano seguinte fomos cabeças de cartaz, o que foi uma mudança radical. Talvez tenha sido o melhor palco de festival em que tocámos, apesar de termos ido ao T in the Park e Glastonbury... Reading foi o meu favorito". Por esta altura, as comparações eram já muitas e bastante elogiosas: "um concerto dos Parkinsons é provavelmente o mais perto que grande parte de nós vai conseguir chegar da experiência que foi assistir a um concerto do início dos Sex Pistols", lia-se no Guardian; Mark Perry, dos Alternative TV e cérebro por trás da fanzine Sniffin' Glue arriscavase a dizer que Torpedo era "o melhor guitarrista desde o Mick Jones, dos Clash". Foi tudo demasiado rápido para sentir qualquer pressão, "o que é interessante é que conhecemos alguns dos nossos grandes ídolos, da altura e de agora. Foi estranhíssimo. Essas palavras do Mark Perry, que se tornou nosso amigo, foram especiais porque sabíamos que a pessoa que estava a ver isso em nós esteve lá, viveu o passado, percebia mesmo do assunto e fez declarações honestas". De volta à vida Em 2003, Afonso Pinto abandonou a banda e Torpedo acabaria por assumir a tarefa de vocalista, tendo a banda gravado dois EPs e um segundo álbum, Reason to Resist, em 2004, antes de resolver separar-se de vez no ano seguinte. Este regresso, sete anos depois, com um novo álbum, intitulado Back to Life, foi precipitado por um convite para atuar na edição deste ano do festival Optimus Alive. "Foi uma longa viagem desde o último concerto que demos enquanto Parkinsons, em 2004, já sem o Afonso... Não gravávamos com ele desde 2002, portanto já lá vão quase 10 anos", começa por explicar o guitarrista. "Nunca pensei que voltasse a acontecer. Disse inclusive em entrevistas passadas que era praticamente impossível voltarmos a gravar. Naquela fase do Afonso, deixámos uma marca demasiado forte. Foi tudo tão espontâneo e especial que não valia a pena estragar o que tínhamos feito". No período em que os Parkinsons estiveram inativos, quer Torpedo quer Pinto dedicaram-se a outros projetos musicais: o primeiro com os Tiguana Bibles e o segundo com os Johnny Throttle ("isso desapareceu entretanto"). Em 2006, a banda reuniu-se com Pinto a assegurar as vocalizações para celebrar o décimo aniversário do londrino Dirty Water Club, a que Torpedo chama "a nossa casa". "No último ano, surgiu um concerto em Londres e convidaram-nos para o Optimus Alive. Aí as coisas mudaram um bocado de figura. Não pensámos que houvesse interesse extra apesar de termos os nossos fãs e sermos um grupo de culto", explica o guitarrista. Aos três elementos originais dos Parkinsons, junta-se, em 2012, um baterista especial: "o Kaló é como um vírus. Estou com o rapaz quase 24 horas por dia". Torpedo refere-se ao ex-baterista dos Tédio Boys e cabecilha dos Bunnyranch. "Era o baterista que sempre quisemos nos Parkinsons. Na altura, quando fomos para Londres, ele foi a primeira pessoa que convidei para ir connosco, mas infelizmente não coube na mochila na altura, já estava envolvido noutras coisas. Mas claro que foi a primeira pessoa a quem perguntamos se queria ser baterista dos Parkinsons. Era o dream team. E se ele tivesse ido quem sabe o que teria acontecido". Mas as diferenças dos Parkinsons versão 2012 não ficam por aqui. "Acho que estamos mais concentrados. Não gosto muito de usar a palavra maturidade, mas acho que já tivemos as nossas aventuras, o nosso auge e os nossos fracassos. Continuamos a ser amigos e isso é que é importante. Enquanto houver esse elo de amizade forte, mesmo que não haja banda em concreto há de haver sempre Parkinsons". E o punk faz, à luz de toda a contestação ao sistema político em Portugal, mais sentido que nunca? "Estive sempre desse lado. Acredito sempre nas mudanças e tem sido difícil para mim engolir estes tempos. Claro que o punk rock faz mais sentido que nunca". Texto: Mário Rui Vieira Foto: Arquivo BLITZ Originalmente publicado na BLITZ de novembro de 2012