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Quando a BLITZ foi a Londres entrevistar Jimmy Page, dos Led Zeppelin, com Zé Pedro [ENTREVISTA]

No passado verão, a BLITZ foi com Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, entrevistar Jimmy Page, dos Led Zeppelin, sobre as últimas reedições da banda britânica. Recorde aqui a entrevista publicada na BLITZ de agosto.

Um ano depois do primeiro encontro, voltámos a Londres para falar com Jimmy Page, que ao longo dos últimos meses orquestrou a épica campanha de reedições dos Led Zeppelin. Zé Pedro, guitarrista dos Xutos & Pontapés e fã de longa data da banda britânica, viajou com Lia Pereira até aos Olympic Studios e participou numa entrevista para mais tarde recordar. E com esta última resposta, e alguma tristeza, nos despedimos...". Ao início de uma tarde quente de julho, a frase sentida do habitualmente circunspecto Robin Hurley, da Warner Music, soou genuinamente nostálgica. Ao longo dos últimos 14 meses, deslocámo-nos a Londres por quatro vezes, para acompanhar de perto a reedição de todo o catálogo dos Led Zeppelin, remisturado, reembrulhado e apresentado com todo o orgulho e carinho por Jimmy Page. Se na primeira visita, em abril de 2014, nos sentámos com o mítico guitarrista no Gore Hotel, para uma entrevista exclusiva para a imprensa escrita portuguesa (apenas a SIC chegou, também, à fala com o veterano músico), meses mais tarde regressaríamos para assistir a duas sessões de escuta, acompanhadas por breves mas elucidativas conferências de imprensa. A primeira viagem serviu para saciarmos a nossa curiosidade pela reedição dos primeiros três tomos dos Led Zeppelin, num memorável frente a frente com aquele que é não só o guitarrista mas o fundador e um dos grandes estrategas de uma das maiores instituições da história do rock. Em setembro, voltámos a Londres, mais precisamente aos Olympic Studios, na pacata zona de Barnes, para conhecermos os pormenores das reedições dos "senhores" que se seguiam: o colossal Led Zeppelin IV (1971) e Houses of the Holy (1974). O encontro, ao qual acorreram jornalistas de todo o mundo, estava marcado para os estúdios que entre 1966 e 2009 acolheram sessões não só dos próprios Led Zeppelin, que ali gravaram numerosas vezes, como de artistas tão incontornáveis e distintos como Rolling Stones, The Who, Jimi Hendrix, Nick Cave, Arctic Monkeys, Adele ou Madonna. Foi numa sala acolhedora, com capacidade para poucas centenas de pessoas e guarnecida com um sistema de som imponente, que ouvimos, em setembro de 2014, os extras de IV e Houses of the Holy e colocámos a Jimmy Page (mais) perguntas sobre a banda que, nestes meses, pareceu estar mais viva do que nunca. Cada "peregrinação" a Londres para este efeito era, por esta altura, vista como uma oportunidade única de privarmos com um dos grandes protagonistas da música popular do século XX, mas até à derradeira despedida ainda se passariam alguns meses: em janeiro, a BLITZ foi novamente convidada a deslocar-se até aos Olympic Studios para assistir à listening session e participar na conferência de imprensa da reedição de Physical Graffiti, o duplo álbum de 1975, por muitos vistos como o último grande testamento da banda de "Kashmir".

Retrato de Jimmy Page enquanto (muito) jovem artista E na primavera deste ano, soubemos que voltaríamos à fala com Jimmy Page, a propósito da reedição dos três últimos discos dos ingleses: Presence (1976), In Through the Out Door (1979) e o póstumo Coda (1982). Desta feita, teríamos não só direito a assistir à sessão de escuta comentada por Jimmy Page como a colocar-lhe questões numa entrevista muito especial: Zé Pedro, guitarrista dos Xutos & Pontapés e uma das mais veneradas figuras do rock em Portugal, iria acompanhar-nos a Londres e falar com um dos seus heróis de sempre. Tinha tudo para correr bem, e correu mesmo. Talvez por isso, aquela frase de Robin Hurley, a figura sóbria que ao longo de mais de um ano secundou Jimmy Page nestas apresentações nos Olympic Studios, nos tenha parecido carregada da mais sentida saudade. Inicialmente, contou o executivo da Warner Music, os planos passavam por realizar cada sessão de escuta num local diferente. Mas depois do sucesso da primeira sessão, Jimmy Page foi claro: "não, vamos fazer todas aqui". Além da mística do local, a qualidade acústica terá sido determinante na decisão. No nosso último encontro, um jornalista espanhol insistia em conhecer a opinião do nosso anfitrião sobre os formatos digitais de música e serviços como o Pono, criado por Neil Young. Explicando não ter nada contra o MP3 ("são bons para ficarmos com uma ideia rápida da música que queremos ouvir"), Jimmy Page lembrou que foi precisamente a preocupação pela qualidade sonora a lançá-lo na remasterização dos nove álbuns dos Led Zeppelin. "Eu em casa não tenho um sítio para ouvir estes discos assim", retrucou o jornalista do país vizinho. "Nem eu!", brincou Jimmy Page. Sim, Robin Hurley tinha razão: vamos ter saudades.

UM TRABALHO DE HÉRCULES A 16 de julho, chegamos à Church Road, uma pequena rua no sul de Londres, ao mesmo tempo que Jimmy Page. Reformulando: acabáramos de sair de um voo da TAP, poucos dias depois de anunciada a venda da transportadora aérea nacional, e do autocarro 72, que nos deixou nos Olympic Studios à mesma hora que o homem dos Led Zeppelin saía de um automóvel negro e de vidros fumados. À porta dos estúdios, que agora funcionam como complexo de salas de cinema, servido por um belo bar-restaurante, esperava-nos já Zé Pedro. Justamente considerado uma das mais amáveis figuras públicas portuguesas, o guitarrista chegara há poucas horas de Toronto, onde tocara com os Xutos & Pontapés, para uma plateia de 20 mil fãs. "Este ano estamos com uma digressão muito forte", confessaria mais tarde, referindo-se não só às datas no estrangeiro, onde os Xutos se apresentam amiúde para as comunidades emigrantes, como às atuações em solo português. "Ninguém está a fazer rock", comenta, referindo-se à popularidade crescente de géneros como o kizomba. "Então pensámos: vamos fazer um espetáculo rock!". Naquele dia, porém, os Xutos ficaram em Toronto e, horas mais tarde, num voo que demorou quase um dia a chegar a Lisboa e Zé Pedro, entusiasmo a sobrepor-se a toda a força a qualquer vestígio de jet lag, estava de corpo e alma em Londres, não escondendo a excitação por vir a conhecer Jimmy Page. Nos nossos já familiares Olympic Studios, o habitual almoço buffet antecedeu a entrada na sala onde Jimmy Page e Robin Hurley nos esperavam para dar início a mais uma sessão de escuta. "Penso que...", diz o septuagenário artista, "aliás, penso não, sei que temos uma ótima seleção de música para ouvirem hoje". A confiança de Page tinha razão de ser: ainda que tenhamos assistido a três das quatro sessões promovidas no âmbito desta campanha, a derradeira terá sido, provavelmente, a mais impressionante em que estivemos. Basta dizer que em "Bonzo's Montreux", peça instrumental de longos minutos, sentimos a força primitiva e indomável da bateria de John Bonham por todo o corpo, como se o som que saía das suas baquetas (e mãos: terá havido alturas em que dispensou as baquetas, diz-se por aqui) emanasse do chão dos Olympic Studios e percorresse cada centímetro da pele dos muitos presentes na sessão. Se esta nova versão de "Bonzo's Montreux", celebração do talento de John Bonham, desaparecido em 1980, está incluído nos dois excelentes companion discs de Coda, outros temas despertaram a curiosidade dos jornalistas. Amanda Bruckshaw, editora da BBC que já víramos em sessões anteriores, deixou-se impressionar pelo tema "Pod", incluído nos extras de Presence, comentando: "Parece tão diferente, no seu ambiente e intensidade, do outro material desse disco... Foi propositado deixá-la de fora do alinhamento?". O seu parecer é validado por Jimmy Page: "Realmente, parecem alhos e bugalhos, não é? Era muito diferente do que fazíamos na altura. O Presence tinha uma grande intensidade e tudo se estava a encaminhar para que fosse um álbum de guitarras", diz, comparando-o ao seu sucessor, In Through the Out Door, marcado pelos sintetizadores. A "Pod" teria ficado muito bem no In Through the Out Door, é uma peça reflexiva e é bom podermos partilhá-la hoje. Confesso que estava um pouco nervoso a pensar no que íamos pôr no disco extra do Presence, e esta foi a única surpresa que nos apareceu. Foi uma grande emoção poder mostrá-la agora".

Os Led Zeppelin na altura de Presence, disco de 1976 Outros dos inéditos a intrigar os jornalistas foram as versões de "Four Sticks", aqui intitulada de "Four Hands", e "Friends" com a Bombay Orchestra. Tal como os Beatles antes deles, também os Led Zeppelin, ou mais precisamente Jimmy Page e Robert Plant, rumaram à Índia para gravar com músicos locais, no início da década de 70. A falta de infraestruturas, contudo, comprometeu a construção de um projeto mais elaborado. "Eu quis trabalhar com aqueles músicos em Bombaim", conta Jimmy Page. "Eram os músicos que faziam a música pop indiana, a música dos filmes de Bollywood. No fundo, eram o equivalente daquilo que eu fui nos anos 60: músico de sessão! Achei que seria fascinante ir até lá, sem diretor musical. Levei um intérprete e requisitei instrumentos: sarangi, tablas e violinos. Fui para lá com o Robert e levámos as nossas guitarras acústicas. No decurso de uma noite, fizemos duas canções: "Friends" e o equivalente ao "Fours Sticks", com percussão, que era tão excitante". Questionado sobre a razão pela qual estas interpretações só agora conhecem a luz do dia, explica: "Não era apropriado lançá-las naquela altura, porque ainda estávamos em 1972 e o IV tinha acabado de sair", recorda. "Naquele tempo, quando ias à Austrália, por exemplo, paravas em imensas cidades pelo caminho. Não havia voos diretos. Por isso, pensávamos assim: se vamos ao Cairo, por exemplo, podemos aproveitar para tocar com as orquestras do Egipto, e também as da Índia, e continuar caminho até à Austrália. A ideia era ótima, mas não havia infraestruturas", recorda. "Penso que, dentro dos grupos populares, o primeiro que tocou na Índia foram os Police, e só uns bons 12 anos depois disso. Mas tínhamos ideias e gostávamos de experimentar coisas". De regresso aos estúdios onde, não se esquece de referir, os Led Zeppelin gravaram o seu primeiro disco em 1968, Jimmy Page aproveitou a ocasião para agradecer ainda à equipa liderada por Jason Morais, também da Warner Music que se encarregou da recolha e organização das imagens que foram sendo projetadas no ecrã gigante, durante a sessão de escuta.  Essas e outras fotos, mostrando Page, Plant, Bonham e John Paul Jones como nada menos que deuses gregos, estão incluídas nas versões de luxo das reedições que agora chegam às lojas, e que implicaram da parte de Page "centenas de horas de audições. Queria transmitir a ideia correta", insiste. "Que isto não era só mais uma banda a lançar todo o seu material em vinil, com uns extras ou uns vinis. Não: era algo que incluía todos os formatos de escuta, em caixas substanciais. O que importa é que os fãs de Led Zeppelin e as pessoas que gostam da sua música agora têm o dobro da informação que existia, e com muito boa qualidade. Pela parte que me toca, diria que o meu trabalho aqui está feito", garante, sublinhando o caráter "completista" que sempre desejou para este projeto. "E as gravações ao vivo?", ouviu-se então nos Olympic Studios. Para uma banda conhecida, também, pelo seu poderio em palco, os concertos acabam por surgir pouco representados nos companion discs destas reedições. Jimmy Page justifica a aposta no material de estúdio com a profusão de discos ao vivo desde sempre disponíveis no mercado dos bootlegs. "Assumi como missão ver tudo o que já tinha saído no mercado dos discos piratas, para me certificar que aquilo que ia lançar era, em 80 por cento dos casos, inédito. Lidar com os extras de estúdio pareceu-me uma tarefa não necessariamente mais profunda, mas mais cheia, mais satisfatória, porque conhecia a cronologia de tudo e, em boa parte, a qualidade de tudo o que ia aparecer. Conseguia visualizar tudo muito melhor do que [se pegasse] nas bootlegs todas que andam por aí e fizesse uma compilação. O mundo dos Led Zeppelin em estúdio é que precisava de ser abordado de forma decente e séria".

Agora que conhecemos "todos os ambientes e cores" dos nove álbuns que os Led Zeppelin lançaram, entre 1968 e 1982, Jimmy Page não tem dúvidas do peso da herança que a sua banda deixou. À pergunta de uma jornalista espanhola, que quis saber o que o britânico pensa quando ouve a sua música e a música das bandas contemporâneas, riposta: "Sei muito bem o que penso da música que saiu nestes nove álbuns, e mesmo nos companion discs. E sobre o que significa para quem toca instrumentos. É muito claro que há muitas décadas que os jovens músicos recorrem aos Led Zeppelin porque são um grande, e rico, manual de música. Eu aprendi a tocar ouvindo discos, e fazendo jam sessions com outras pessoas quando ainda era adolescente. Desde o início que sei muito bem o que é que a paixão pela música representa para os jovens. A obra dos Led Zeppelin é um grande manual [textbook, no original] e um corpo de trabalho cheio de paixão. Muito fixe".

ZÉ PEDRO ENTREVISTA JIMMY PAGE

No dia seguinte à listening session, chegámos aos Olympic Studios bem antes da hora. Na livraria frente aos estúdios, Zé Pedro levantou o livro que encomendara na véspera: Jimmy Page by Jimmy Page, uma fotobiografia que documenta em imagens, naturalmente o percurso do nosso interlocutor desde os verdes anos nos subúrbios de Londres ao Olimpo do rock. Minutos antes das 14h00, hora acordada para a entrevista, subimos as escadas para o terceiro andar do edifício, onde encontrámos Jimmy Page e omnipresente Robin Hurley. Apresentações feitas e ficava claro que o ambiente entre músicos Page e Zé Pedro seria amistoso; mesmo antes de a entrevista ter, oficialmente, começo, o inglês confidenciou ao português algo de que já nos falara no ano passado: que chegou a comprar uma guitarra portuguesa, mas perdeu o manual que explicava a afinação. Perante a confissão de Zé Pedro, de não saber tocar essa guitarra, Page relativiza: "Para mim não era muito complicado! Se pensares em coisas como as que eu fiz no terceiro álbum... a "That's The Way", por exemplo, onde uso um dulcimer", exemplifica. "Eu descobri a guitarra portuguesa bem tarde! Se a tivesse conhecido na altura dos Led Zeppelin, sem dúvida que a teria tocado nos discos. E a música que se faz com ela não é heavy metal estridente, mas são cordas na mesma!", brincou, entre risos. Já na véspera, de resto, dissera a um jornalista e fã italiano que, muito jovem, começou por tocar "skiffle na guitarra acústica", deixando-se depois "seduzir completamente pelo rock and roll".

De volta aos Olympic Studios: na meia hora que se seguiu, a conversa alternou simpaticamente entre vários pontos da carreira dos Led Zeppelin, com Jimmy Page a responder com entusiasmo a várias dúvidas, quer de fã, quer de músico, de Zé Pedro. Claramente satisfeito com o sucesso da campanha da campanha de reedições "a receção pelo público foi excitante, soberba!", o "guardião" da banda de "Immigrant Song" começou por garantir sentir-se "muito bem, muito positivo. Há dois mundos dos Led Zeppelin: o mundo dos concertos e o mundo do estúdio. E este é tão representativo, devido à qualidade do material, que tem mantido o perfil da banda em alta junto dos músicos e das pessoas que gostam de música, ao longo de todos estes anos. Poder abordar e visitar os álbuns de estúdio e lançá-los com a melhor qualidade possível, neste século, ficando preparado para o que possa vir, com downloads, mas também vinil e CDs, booklets e artwork, [foi excelente]. No fim de contas, o que tudo isto quer dizer é: dantes havia nove álbuns, agora temos o dobro do material para ouvir. E era isso que eu queria". No entanto, a primeira reedição de Led Zeppelin I, de 1968 teve por companion disc a gravação de um concerto no Olympia de Paris, em 1969, recorda Zé Pedro. "Sim, porque não havia material de estúdio suficiente para fazer um disco extra substancial", responde Jimmy Page, recorrendo a um dos seus adjetivos prediletos e explicando que, ao longo de todo o processo, sempre teve como preocupação "poder mostrar todos os aspetos daquilo que fazíamos. Aquilo de que éramos capazes". "Orgulho" poderá ser uma palavra fraca para traduzir o que Jimmy Page mostra sentir pelo trabalho feito com os Led Zeppelin: nos discos originais, com os seus antigos companheiros de banda, e nas reedições que agora chegam ao fim. Questionado por Zé Pedro sobre que álbum lhe traz melhores, e piores, recordações, prefere no entanto nivelar por cima: "todos me trazem grandes recordações! É como quando ontem me perguntaram qual era o momento mais avant-garde dos Led Zeppelin. É o Led Zeppelin I! Claro que é!", exclama, risonho. "Se olhares bem para esse disco e para aquilo que representa, é realmente avant-garde. Os vários tipos de música lá incluídos, as abordagens, a sua aplicação. Se o comparares com tudo o que já se fizera antes, e tiveres em conta as nossas facetas elétrica, acústica, blues... boom!", conclui, gesticulando. "Tocar guitarra com o arco de violino, por exemplo, quebrou todas as tradições! E há outra coisa: foi o sucesso desse primeiro álbum, e do grupo, com os seus concertos e gravações, que nos permitiu fazer o segundo álbum. E depois o terceiro, o quarto... Quando me fazem essa pergunta, respondo: tem de ser o primeiro, sem esse não havia mais nada!". O caráter pioneiro da banda e a singularidade do seu trajeto são também destacados pelo seu timoneiro: "É difícil pensar noutra banda que tenha mudado tanto. Das cinzas dos New Yardbirds [grupo que antecedeu os Led Zeppelin], conquistámos a América em pouco tempo. Entre lançar o primeiro disco e conquistar a América, passaram-se poucos meses", realça. "Ninguém mais fez isso. E o facto de a banda se ter aguentado tantos anos, com as jams, com os character albums, em que cada personagem era diferente e o denominador comum era a pura mestria musical dos Led Zeppelin... é muito especial".

TRAGÉDIA GREGA

Ainda que todos os discos lhe despertem recordações fortes, Presence, um dos álbuns agora reeditados, reveste-se de uma importância diferente, uma vez que foi gravado na sequência de uma grave lesão sofrida por Robert Plant. De férias na ilha grega de Rhodes, o vocalista foi vítima de um acidente automóvel que o obrigou a ter de locomover-se, durante longos meses, numa cadeira de rodas. Foi, de resto, de perna engessada que Plant gravou Presence, num processo turbulento mas veloz: em apenas 18 dias, o sétimo disco dos Led Zeppelin estava pronto. Sobre a importância deste capítulo, que se desenrolou nos estúdios Musicland, em Munique, diz Jimmy Page a Zé Pedro: "pelas circunstâncias em que foi escrito, o Presence é um disco intenso. É profundo, é negro, e tem uma certa energia que poderá ter a ver com as circunstâncias em que foi escrito se o Robert não tivesse tido aquele acidente, que o obrigou a gravar as vozes com a perna engessada, [talvez o resultado tivesse sido outro]. Ele mesmo não sabia se ia conseguir voltar a andar, ou quando, ou se ia ficar manco, ou se ia conseguir aguentar-se de pé nos concertos, sem se sentir envergonhado. Não sabíamos nada disso. O que sabíamos é que a música que estávamos a fazer refletia o momento que atravessávamos naquela precisa altura. Como todos os álbuns que o antecederam, de resto. Mas muito concentrado, focado!". Nesta altura, Zé Pedro quis saber se é verdade que Jimmy Page tratou de todas as guitarras do tema de abertura daquele álbum, "Achilles Last Stand", num só dia. "É verdade. Até para mim é intimidante pensar nisso!", responde o britânico que há dez anos foi condecorado pela Rainha Isabel. "Mas estava mesmo empenhado nessa canção. Era uma peça épica e já tinha pensado em tanta coisa para fazer na guitarra... Mas a coisa mais importante que esta música me recorda é que isto foi tudo gravado de forma analógica. Não podia gravar uma dúzia de solos e dizer: agora uso um bocadinho deste, depois um bocadinho daquele... Não, tinha de saber exatamente o que era para fazer. E as misturas eram feitas manualmente. Por vezes era só eu, o engenheiro de som e mais nada. E foi assim até ao álbum que se seguiu", resume, recordando Presence como "um álbum de guitarras, muito revelador na sua intensidade". 

O TECLADO MÁGICO DE JOHN PAUL JONES

Por seu turno, In Through the Out Door, o último álbum dos Led Zeppelin, foi marcado pelo som dos teclados, mais precisamente de um sintetizador Yamaha que John Paul Jones tinha comprado - "o Stevie Wonder tinha um igual", lembra Page - e pela menor participação do guitarrista na escrita das canções. Na ressaca da morte do filho de Robert Plant, vítima, aos cinco anos, de um vírus estomacal, os Led Zeppelin eram uma banda ferida, também, pela impossibilidade de tocarem no Reino Unido durante dois anos, devido à fuga fiscal do seu país natal. Igual a si mesmo, Jimmy Page escolhe ver o lado positivo da negra fase final do quarteto. "O John Paul Jones arranjou aquele teclado e começou a escrever as canções, o que foi ótimo, porque eu tinha escrito as canções do Presence, que era um disco de guitarras e tinha de o ser, mas ter um disco de teclados também seria fixe. Já os tínhamos usado antes". O que viria a marcar as gravações, porém, foi o facto de os estúdios Polar, na Suécia, onde se reuniram a trabalhar, serem "muito avançados. Antes disso tinha sido tudo manual, a partir daqui já há alguma automação", compara. "Mas ainda gravávamos tudo em fita". Entusiasmado por poder falar com Jimmy Page sobre as técnicas de estúdio inovadoras usadas pelos Led Zeppelin, Zé Pedro teve o privilégio de ouvir, a esse respeito, uma explicação detalhada: "falavas da forma como as coisas eram gravadas, de como usávamos a distância para criar profundidade, de toda essa versão precoce da ciência de gravar.", introduz o veterano. "Quando nos convidaram para irmos para os Polar Studios, prometeram-nos ser generosos com o tempo de estúdio, mas o que queriam realmente era que um grupo internacional fosse lá gravar, porque as pessoas só o conheciam pelos ABBA. E eu disse: OK, aceito. Deram-nos tempo, ensaiámos antes, e quando chegámos lá percebemos que o estúdio era avançadíssimo. Mas não havia painéis acústicos para a bateria. Por isso pusemos a bateria num certo sítio do estúdio e tínhamos de ouvi-la num ambiente falso. Isto era resultado de coisas que os Led Zeppelin tinham feito no passado. Este foi o primeiro álbum onde o John não usou a pele do bombo na bateria. Tivemos de nos adaptar ao estúdio, que não tinha painéis acústicos, mas há várias maneiras de dar a volta ao texto". O AMOR POR JOHN BONHAM Os Led Zeppelin estavam a ensaiar para uma digressão pelos Estados Unidos quando John Bonham, o seu baterista, morreu. Vítima, aos 32 anos, de asfixia no próprio vómito durante o sono, após consumo alcoólico desregrado, o músico deixou a banda sem alternativa senão a de pôr fim à sua carreira. Bonham morreu no final de setembro de 1980 e, no início de dezembro, os Led Zeppelin confirmavam o fim do grupo. Quando perguntamos a Jimmy Page se chegou a pensar substituir o amigo, a resposta é claríssima: "eu não, mas toda a gente no meio pensou nisso. Qualquer pessoa que pudesse fazer dinheiro connosco pensou logo nisso. Mas seria desrespeitoso. Tomámos a decisão certa, naquela altura. Era a única forma de mantermos a nossa honra. Se qualquer um de nós tivesse o infortúnio de desaparecer, naquela altura, não quereríamos substituí-lo. Por que razão o faríamos? Estaríamos a manchar a memória de algo que era tão precioso e tão bom". Dois anos depois da morte de John Bonham, cujo filho, Jason, tocou com os Led Zeppelin na O2 Arena, de Londres, em 2007, saiu Coda, um disco de canções nunca lançadas até então, que marca o adeus definitivo da banda às edições de estúdio.

"Bonzo's Montreux", gravado num estúdio da Suíça em 1976, é um dos temas desse disco póstumo, e surge agora numa versão um pouco mais longa no companion disc de Coda. Ouvi-lo com a alta-fidelidade dos Olympic Studios causou arrepios em todos os presentes. "Fazer o Coda depois de termos perdido o John foi difícil", reconhece Jimmy Page. "Contudo, houve uma coisa que me fez continuar a trabalhar, concentrado, pelo menos na maioria dos dias: o "Bonzo's Montreux". Tínhamos uma misturazinha roufenha, feita nos estúdios de Montreux, no gravador de 24 pistas. Mas tinha tanta [informação] que o engenheiro de som já estava pelos cabelos. O tema precisava de ser misturado como deve ser, e foi isso que eu fiz", conta. "Queria muito fazer o melhor que conseguisse, em memória do John e do amor que tinha por ele. Foi complicado. Mas, quer fosse a seguir à perda do John ou décadas mais tarde, o que temos ali é sempre uma celebração da forma como ele tocava. Põe-te um sorriso na cara. É uma completa maravilha" Já na véspera, Jimmy Page levantara um pouco o véu sobre este singular tema. "Foi gravado só comigo e com o John. A ideia que tínhamos era gravar uma orquestra completa de baterias. E claro que ele conseguia fazer isso. Uma coisa ao jeito de uma escola de samba sabem o que é samba?", perguntou a uma plateia sobretudo anglófona. "Tínhamos ali uma data de texturas de bateria. A diferença é eu ter posto um efeito num dos canais de bateria que lhe dava aquele som de steel drum".

John Bonham, baterista dos Led Zeppelin (1948 - 1980) E DEPOIS DO FIM? Para Jimmy Page, reapresentar toda a história dos Led Zeppelin, disponibilizando os materiais de estúdio com nova informação e uma qualidade áudio reforçada, era essencial. Agora que a missão está concluída, que fará o músico com a sua vida, como espirituosamente perguntou um jornalista britânico na listening session? "É claro o que quero fazer: algo que implique ser visto a tocar guitarra", afirmou, reforçando algo que já dera a entender em entrevistas anteriores. "Mas ainda tenho de fazer a promoção destas reedições finais. Falando com toda a honestidade, nos últimos dois anos nunca poderia fazer um projeto de guitarra, com tudo isto a acontecer, porque coloco sempre toda a minha energia naquilo que estou a fazer. Mas é escusado dizer que quero fazer um projeto de guitarra: antes isso do que de violino!", brincou. No dia da nossa entrevista, já em altura de despedidas, Zé Pedro perguntou se era verdade que Jimmy Page andara a trabalhar com Chris Cornell, o vocalista dos Soundgarden que recentemente anunciou um novo trabalho a solo. "Com o Chris Cornell?", espantouse o guitarrista. "Não, de todo, só tenho trabalhado mesmo comigo!", garantiu. O que nos leva à inevitável pergunta, colocada pelo homem dos Xutos: porque é que, além dos Led Zeppelin, Jimmy Page nunca quis produzir outros artistas? "Porque sempre quis manter tudo muito insular. Não quis começar a espalhar a minha semente por outro lado, quis que se mantivesse sempre muito especial", dispara. "E esta parte também é muito importante: no nosso primeiro disco percebes que tem imensas guitarradas. Eu quis certificar-me que, quando partíamos para cada gravação, tinha sempre muitas canções e riffs no bolso, para podermos trabalhar rapidamente. Até tive oportunidades, mas não quis produzir outras pessoas e usar a minha energia com elas, porque para mim. tudo era um veículo para os Led Zeppelin. Com toda a honestidade". "Era o seu bebé?", sugerimos então. "Era a minha criação!", concorda. "Sabia o que queria fazer, como evoluir ao longo dos tempos. E com a habilidade musical que aqueles tipos tinham, sabia exatamente como levar a coisa para um lado ou para o outro. A "Achilles Last Stand" é um longo épico, mas eu sabia que, mesmo com o Robert de perna engessada, podia fazer algo intenso, que pega em ti e te leva numa viagem". Por falar em viagens, quisemos saber como é que, aos 71 anos e depois de uma vida atravessada em velocidade máxima, Jimmy Page se mantém enxuto e aparentemente saudável. A resposta surge, divertida, depois de uma pausa sorridente: "Tive uma vida interessante nos anos 60 e 70. Tive uma vida muito interessante nos anos 80. E nos 90. E há 15 anos tomei a decisão de deixar de beber. O que foi importante para mim, porque estava cansado de acordar de ressaca. Foi tão simples como isso: se calhar poderia continuar a forçar o meu corpo, mas chegou a altura de parar", explica. "Por isso, se te pareço relativamente saudável ou em forma, é o resultado de ter deixado de beber. Keep drinking while you can, folks!", despedese, sorridente. A confissão causou natural identificação em Zé Pedro que, depois de uma experiência de quase morte, deixou o álcool precisamente na mesma altura. Enquanto arrumámos cadernos e gravadores, os dois sobreviventes trocam histórias e desabafos, com Jimmy Page a mostrar genuína simpatia para com o seu fã nacional. E ao sairmos dos Olympic Studios, onde um jornalista italiano tira fotos à fachada do edifício para eternizar "uma das experiências mais emotivas" da sua vida, lembramo-nos das palavras do "patrão" dos Led Zeppelin: "passei horas nisto [das reedições], mas agora, ouvindo os discos, percebe-se que quis acabar em grande. Para deixar as pessoas a pensar: "oh meu Deus, eles eram mesmo bons!"". Missão cumprida.

Lia Pereira Publicado originalmente na BLITZ de agosto de 2015