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Public Image Ltd ao vivo na Casa da Música, no Porto: leia a reportagem e veja as fotos

Em quase duas horas de concerto, a banda para sempre liderada por John Lydon, ex-vocalista dos Sex Pistols, mostrou que só mesmo os trapos é que são velhos.

A história é simples: depois de quase 20 anos de hiato, os Public Image Ltd, um dos motores fundamentais do pós-punk, reuniram-se para dar alguns concertos, gravaram um belo disco e continuaram o que tinham começado. Quase como se nunca tivessem parado, como se o tempo não existisse, como se nada tivesse mudado desde o momento em que os PiL lançaram Public Image: First Issue, em 1978. A ver pelo concerto que deram na Sala Suggia, o tempo não passou mesmo por eles. Na Casa da Música, os Pil quiseram - e conseguiram - equilibrar o passado e o presente, com toda a dificuldade que isso possa normalmente representar. Com um alinhamento muito bem desenhado (a longa discografia dos Pil permite isso), a banda de John Lydon, acompanhado agora por Lu Edmonds, Bruce Smith e Scott Firth, foi como um relógio suíço: raramente ou nunca falhou. Nos PiL o ritmo é tudo: é motor, é propulsão, são as linhas onde John Lydon escreve a sua poesia cantada da catástrofe - a crítica dos costumes. Canções como "Memories" (de Metalbox), ou "Flowers of Romance" (do disco com o mesmo nome editado em 1981), foram o testemunho de alguns dos melhores momentos de criatividade da primeira vida dos PiL, enquanto que "Deeper Water" ou "One Drop" (ambas de This is PiL, editado em 2012) dão provas de recomendável vitalidade. Se dúvidas houvesse acerca da presença na sala de fãs acérrimos dos Public Image Ltd, essas dúvidas desfizeram-se aos primeiros acordes de "This Is Not a Love Song" ou "Rise" (foi bom ouvir, já no encore, "Anger is an energy" ser repetido vezes e vezes sem conta), dois dos momentos de mais forte comunhão entre a banda e a plateia. A certa altura, não conseguimos precisar quando, as cadeiras que foram sempre barreira para responder a tanto ritmo deixaram de ser problema: perto do final do concerto dos PiL já não havia muita gente de pé. E cumpriu-se a celebração. Sem promessas de devoção eterna, sem frases bonitas para a fotografia, sem glamour. Só música. John Lydon não falou muito. Quando o fez, foi para mostrar-se agradecido com a oportunidade de continuar a subir a um palco. Foi para dizer que cumpriu a sua promessa. Foi para dizer que vivemos num mundo em convulsão mas que ele faz exactamente aquilo que gosta de fazer. Foi para dizer que resiste: apesar de todas as polémicas, apesar da recepção à música dos PiL (que nem sempre foi a melhor; e no início não foi certamente unânime), depois dos problemas com as editoras, depois da falta de dinheiro. E ainda bem: na Casa da Música os Public Image Ltd nunca soaram a uma banda veterana, nunca soaram a uma banda de tributo a si mesma; soaram sempre vitais, presentes, actuais. Soaram como um dos motores - que foram - de um dos períodos mais criativos da história da música. Texto: André Gomes Fotos: Hugo Sousa