Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Primeiro disco ao vivo dos GNR em 25 anos é grátis com a BLITZ deste mês: leia aqui a entrevista, na íntegra

A 22 de maio, o Grupo Novo Rock partilhou afetos - e sucessos - num esgotado Theatro Circo, em Braga. O resultado está no CD Afectivamente Ao Vivo, editado em exclusivo com a BLITZ. Pedimos 'contas' à banda que a 23 de outubro e 31 de outubro sobe ao palco dos Coliseus do Porto e Lisboa, respetivamente.

Verão em Matosinhos. No estúdio e sala de ensaios do trio GNR, a banda acaba de preparar o concerto do dia seguinte, no Casino Estoril. A digressão já percorreu vários quilómetros de estrada pelos caminhos de Portugal e ainda há muitos mais a galgar. Mais adiante, nestas páginas, Rui Reininho (RR) e Tóli César Machado (TCM) dissecarão, faixa-a-faixa, o alinhamento de Afectivamente Ao Vivo, o segundo álbum ao vivo dos GNR, sucessor de um icónico In Vivo, de 1990. São roupagens diferentes mais acústicas aquelas que canções como "Vídeo Maria" ou "Morte ao Sol" conheceram no palco de uma das mais emblemáticas salas portuguesas e que agora se imortalizam no CD exclusivo BLITZ que acompanha esta edição da revista. Regressemos ao Theatro Circo, em Braga. Que memórias guardam desse concerto? TCM: Recordo-me que já ia a mais de meio e pensei: "porreiro, ainda não me enganei". E depois enganei-me no "MacAbro". É aquele peso da responsabilidade, aquela coisa psicológica de saber que está a gravar e não me posso enganar. E uma pessoa enganase mesmo. Mas correu muito bem. Tanto que ouvimos a gravação e a prova está ali. Nós não fizemos dubbing nenhum, o que está com erro vai com erro. Acho que isso também faz parte. O que é que gostaram mais de tocar nesse noite? TCM: As novas, especialmente a "MacAbro", foi a que teve mais ambiente, foi a que mais gostei de tocar. RR: Essa foi surpreendente porque quase que não a tínhamos ensaiado. Depois passámos para o registo mais elétrico e não voltámos a tocá-la. São espetáculos um bocado diferentes, com muito mais gente e barulho. A digressão dos GNR tem passado mais por cidades do interior do país. Estão a migrar? TCM: É fantástico. Já fomos cinco vezes a Trás-os-Montes e ainda vamos mais duas. RR: E não é um público fácil, à partida. É uma gente desconfiada. Às vezes nem sequer sabemos se eles estão a gostar muito porque não são muito expansivos. É muito difícil captar a atenção da verdadeira população. Mas a graça é ser-se todo-oterreno. Enquanto os outros andam a fazer o urbano. TCM: ...nós estamos a fazer a tempestade do deserto. Os discos são cada vez mais pretextos para tocar ao vivo? RR: Cá é uma coisa muito hipócrita. Porque às vezes dizem que não vamos a um festival porque não temos disco novo e às vezes temos o disco novo e não vamos na mesma ao festival. Como este ano. Por que é que os GNR não estão em nenhum festival? RR: Eu não sei, mas desconfio. A nossa relação ali com a nave-mãe Enterprise também não é muito boa. Aqui anda tudo cheio de medo, de facto. As pessoas estão muito assustadas. É uma circunstância nacional, não se pode dizer mal dos bancos, nem das corporations, nem das iniciativas. Porque depois as pessoas pagam por isso e não são convidadas. TCM: Como nós. RR: É. Mesmo aqueles cantores mais contestatários estão muito calados. E os jornalistas também. Eu noto que há muito medo, as pessoas não podem ser corajosas. Porque depois. lixam-se. Esses tipos estão ligados a sponsors, a bancos, a partidos, e a pessoa lixa-se mesmo. Eu vejo muita raiva, as pessoas dizem-me muito: "Pá, tu devias fazer músicas ali a falar que este sistema nos está a esmagar". E depois vou dizer isso onde? Passados estes meses de concertos, como é que veem o Caixa Negra, o vosso álbum de originais mais recente? TCM: Vou ser franco, nunca mais ouvi o disco. Nem consigo ouvir. Mas não há dúvida que foi conseguido e as canções funcionam muito bem ao vivo. E o Rui também tem cantado bem, os tons agora estão certos. Esse trabalho foi feito desta vez com algum cuidado com o produtor. Este gajo às vezes parecia uma cabra de Miranda do Douro a cantar com aquilo muito agudo. E com a idade convém ter esse cuidado. Agora é que ele está com voz de homem. (risos) RR: Cresci. O Tóli e o Jorge [Romão] nunca tiveram discos a solo nem com projetos paralelos. Aquilo que fazem nos GNR satisfaz-vos como músicos? TCM: Fiz algumas coisas de produção. É muito difícil. Não há tanto tempo quanto isso. As vezes parece que há todo o tempo do mundo, mas não há. Isto é um bocado como os bombeiros, nunca se pode estar em duas corporações ao mesmo tempo, à espera de um incêndio. É complicado. Às vezes tem de se estar de braços cruzados porque tem que se esperar. E depois as coisas coincidem sempre quando é preciso fazer alguma coisa. É do mais chato que há, um gajo tira uma semana de férias e arranjam logo alguma coisa. A vida de um músico não é só glamour? RR: Não, não... Só na prática é que percebemos que não é glamour. É por isso que nós não viajamos muito com a família ou namoradas. "Ah, vão a Paris, fantástico!" Vamos a Paris, mas é para ver a périphérie do aeroporto, l'ensaio du son, um jantar de coiso e de repente "zau". É um falso glamour. Houve algum momento na vossa carreira em que acharam que estava na hora de terminar? RR: Só por motivos de saúde. Há alturas em que uma pessoa pensa que não vai aguentar. É cíclico. Noto que quando estou parado uns três meses penso que se calhar já não vou conseguir montar aquilo tudo outra vez, a minha estrutura toda. Essas paragens é que fazem mal. Mas se calhar tinha-nos feito bem ter parado assim um ano. TCM: Eu acho que as bandas, quando param, às vezes não retomam por causa disso. Se fico três meses parado, não me sinto bem. Fico com medo, inseguro de ir para cima de um palco. Um tipo parece que desaprende. Uma pessoa quando está em digressão desliga, não tem noção. Estamos num ambiente normal, estamos no nosso habitat. Quando se para, parece que começa tudo do princípio. Será que vou ligar bem, será que ouvir bem, será que vou conseguir tocar? A maior parte das bandas, quando para, já não retoma. Aparecem passados dez anos para fazer o concerto dos 25 anos. RR: Eu tenho sempre aquela insegurança, que é o que acontece aos maluquinhos. Vivo em pânico de não me dizerem que estou maluquinho. Estar naquela coisa ilusória: vamos fingir, vamos dar um espetáculo e as pessoas vão bater muitas palmas. "Ei, foste fantástico, parabéns!". Estou sempre desconfiado. Sabendo o que sabem hoje, teriam mudado alguma coisa? TCM: Claro, tanta coisa que fizemos mal e não devíamos ter feito. Por exemplo, não fazer televisão em 1992 a ingenuidade chegou a esse ponto. Chegamos a recusar concertos, foi um disparate. Não soubemos preparar a crise, como se costuma dizer. E depois andar a tocar lá fora nós andámos pelo Brasil e pela Espanha e não se puxou por isso. RR: Não tivemos gente ambiciosa. As pessoas que vinham connosco iam fumar charutos, beber uns copos, hablar con las chicas. Íamos com entourage de gente para se divertir, até com os jornalistas da moda da altura. TCM: Também nunca houve ninguém em quem pudéssemos ter confiado, nunca tivemos um manager, andámos sempre com agenciamentos. Têm uma percentagem muito grande, os managers. São uns chupistas! (risos) E depois pontualmente havia coisas que podíamos ter mudado em alguns discos. RR: A qualidade das bebidas. TCM: O alinhamento de alguns músicos. Tivemos alguns erros crassos em convidados. Agora passamos a vida a fazer audições. Às vezes ter um músico muito bom pode não ser o indicado para tocar connosco, têm que ser pessoas que estejam sintonizadas connosco. Mas houve sempre a preocupação de melhorar. Da minha parte, comecei na bateria e passei para a guitarra, tive essa preocupação. Tem saudades de tocar bateria? TCM: Em disco fui eu que gravei as baterias todas, mas tenho imensas saudades de tocar ao vivo. Mas sei que depois havia coisas que não iam ficar bem. Para mim também é um pouco esquisito porque eu sou ali aquele gajo que não toca nada mas que toca tudo. Mas esse papel é importante, fazer aqueles bocadinhos. Às vezes as canções vivem desses bocadinhos. RR: E às vezes os melhores elogios são de gente inesperada. O Alexandre Soares deunos os parabéns pelo disco. Ele disse: "Pá, vocês fizeram muito bem fazer o disco só os três, resulta mais do que andar a meter gajos de fora". Achei graça, porque é uma pessoa que já não tem nada a ver connosco e portanto dá-me a ideia que é uma opinião sincera. Não está a dar graxa. Rui, vai voltar ao The Voice? RR: Não, não, não. Começaram com uma conversa de reduzir muito os ordenados e eu "eiiiii. nem pensar". TCM: Eu acho que as pessoas estão um bocadinho cansadas disso, já ninguém liga. RR: Não é uma coisa realista. Por outro lado, é dos poucos programas de música na televisão. RR: A vantagem que eu vejo é que tem banda, é ao vivo e tal. Mas depois aquilo não tem consequências. Isto está na mão de pessoas que só estão interessadas no negócio. Os próprios programas temáticos chegaram à conclusão que a música não é muito boa para os anunciantes. As pessoas desprezam muito esta. arte, digamos assim. E não é coisa que atraia os calicidas, fungicidas e champôs. Não é uma coisa que seja muito apetecível. A participação do Rui Reininho no The Voice teve algum impacto na banda ou na perceção que as pessoas têm dos GNR? RR: Tem mais naquela miudagem. Fiquei assim um bocado um cromo conhecido. As pessoas pedem mais autógrafos.

O disco ao vivo dos GNR, grátis com a BLITZ de setembro 1. Caixa NegraRui Reininho: É o abrir da Caixa de Pandora. Até achava [a versão original] mais conseguida, só agora depois de a tocar é que concordo com o que o Jorge [Romão, baixista] diz: é um bocado noisy. 2. Video Maria Tóli César Machado: É das principais do espetáculo Afectivamente, tem aquele arranjo com o violino, tem um cheirinho a tango. E é das que resultam melhor. A harmonia é diferente, as notas são diferentes. 3. Bellevue TCM: Foi quase a música que deu origem a este espetáculo. Foi a primeira coisa com que comecei, tinha uma ideia para um arranjo instrumental para violino. É uma música que não tocamos no formato elétrico, só aqui. Resulta melhor neste formato de auditório. E é uma música mítica. 4. + Vale Nunca RR: No espetáculo elétrico é uma música de encore, para fechar. Ela aqui começa a dar um bocado mais de energia, uma energia muito contida. É uma música festiva. 5. Asas (Eléctricas) RR: Demorei alguns anos a adaptar-me à "Asas", agora canto de uma maneira diferente da do disco. Favorece-me mais o tom neste pseudo-acústico do que no espetáculo elétrico. Ate porque tem outro tempo.6. Valsa dos Detectives TCM: Não a tocamos no espetáculo elétrico. Foi recuperada só para este espetáculo, já a tínhamos abandonado. 7. Vocês TCM: Foi feita de propósito para uma novela [Nunca Digas Adeus]. Depois recuperámo-la para os GNR. É a música de que o Camané gosta mais, foi a que cantou quando esteve connosco no Coliseu. RR: Ele tem um lado de cantor romântico que é muito engraçado. Vem da linha do Tony de Matos. 8. Las Vagas TCM: É das mais fortes que aqui estão, a gravação ao vivo é das mais conseguidas. É importante, é quase como se agora fosse um single. Na altura foi-o, mas quase maldito. Ao vivo as pessoas reconhecem e pedem. 9. EfectivamenteRR: O refrão não é nada previsível. Na versão original eu tinha uma forma muito chata de cantar o refrão. Eu achava que ficava bem até que toda a gente me convenceu que aquilo era uma porcaria. Não fazia o silêncio no refrão, cantava tudo de seguida "efectivamente nanana".  10. Dançar SOSRR: "Dançar Sós" ou "Dançar SOS"? Como queira, cada qual dança como entender...TCM: É a música mais linda que aqui está, é a mais bonita.  11. Pronúncia do NorteTCM: Não tem guitarra, só tem bateria e piano. A única coisa nova é o acordeão. É obrigatória e está praticamente igual, não se consegue mexer naquilo. 12. Sangue OcultoTCM: É uma versão completamente diferente, é das músicas mais difíceis de tocar. Tem um tempo complicado. Quando sai bem é a melhor, quando não está no tempo certo é tramada.  13. Cadeira EléctricaTCM: Gostamos mais dela aqui, é menos barulhenta. RR: Precisa de contenção. É tipo a "wall of sound" do Phil Spector. 14. Sete NavesRR: É uma música que depende do espírito da coisa. Tem um equilíbrio, é das mais arriscadas no compromisso entre a eletrónica e a acústica. 15. Voos DomésticosTCM: A versão original não tem nada a ver. O produtor não teve visão. Entrega-se o ouro ao bandido e às vezes a coisa não resulta. Eu também fui conivente, fiz o que o produtor queria, mas não resultou. Está uma porcaria. E aqui está bom. O Valsa dos Detectives [1989] também foi um disco que não correu muito bem e acabámos por recuperar aquelas músicas no In Vivo. É engraçado, o percurso é muito parecido com este disco ao vivo em relação ao Voos Domésticos [2011]. Está aqui o disco que queríamos fazer e algumas canções foram aqui recuperadas como deviam ter sido gravadas. 16. Morte ao SolRR: É engraçado porque nota-se aqui muito a participação do público. Mas é uma coisa muito espontânea, não é pedir palminhas. As pessoas começaram espontaneamente a cantá-la, não são seguidistas. 17. MacAbroTCM: Nas feiras, as pessoas acham piada a esta música. Tem potencial. Fala-se no "Caixa Negra" para segundo single, mas esta é que deveria ser. Só tem piano e voz praticamente, e resulta. 18. DunasTCM: Nunca se pensou que uma música destas pudesse chegar aqui. Foi quase como um acidente, tudo à mesma hora, no mesmo sítio, tudo a funcionar: letra, ritmo, acordes. Há poucas canções como esta no nosso cancioneiro pop/rock.RR: Eu tentei uma vez escrever outra "Dunas". Chamava-se "Rugas" (risos). O que é estranho é a intemporalidade. É surpreendente 20 ou 30 anos depois a adesão de pessoas de outras gerações. Entrevista: Ana Patrícia Silva Foto: Rui Duarte Silva/Impresa Publishing