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Primavera Sound de Barcelona: o ruído gostoso dos Ride

A banda inglesa falou com a BLITZ horas antes de um ótimo concerto no palco Primavera, ontem à noite.

Costuma dizer-se que um artista tem a vida toda para fazer o primeiro disco - para os Ride, essa preparação foi curta, uma vez que, quando assinaram pela Creation Records para a edição dos EPs que antecederam a chegada de Nowhere, de 1991, os britânicos eram uns jovens imberbes. Todavia, o álbum de "Vapour Trail" causou impacto, tanto no público como na crítica da altura, transformando-se num clássico do chamado shoegazing, etiqueta que a banda sempre desvalorizou. Os três discos que se seguiram não alcançaram o mesmo estatuto e os Ride acabariam por se separar, regressando para participar num especial televisivo sobre os Sonic Youth em 2001 e para uma digressão no ano passado.

"Temos de dar os parabéns ao Primavera", disse-nos o vocalista Mark Gardener nos bastidores, ontem à tarde, enquanto a entourage de Julian Casablancas produzia um barulho quase tão desconcertante como o do concerto que começaria dali a poucos minutos. "Já há muito tempo que se falava de uma possível reunião dos Ride, mas o Primavera foi o primeiro festival a chegar-se à frente e a convidar-nos para tocar", revelou o cantor, um entrevistado humilde e afável, à semelhança do baterista, Laurence Colbert.

O facto de todos os elementos da banda se terem envolvido noutros projetos desde o primeiro adeus dos Ride, em 1996, ajudou-os a encarar de forma mais sólida este regresso, garantiram-nos os músicos. "Por vezes os projetos que correm pior são os mais importantes. Tornam-nos mais fortes", refletiu Mark Gardener, enquanto bebericava chá com limão para curar uma garganta machucada. "O que fiz neste tempo até esteve mais próximo do que eu pensava que seria a minha vida quando comecei com os Ride: tocar em bares e salas pequenas, e não em grandes espaços, para muita gente". À noite, porém, foi significativa a multidão que se reuniu frente ao palco Primavera para assistir ao concerto dos Ride, banda muito bem representada nas t-shirts dos festivaleiros. Entusiasmados com esta nova vida e beneficiando de um ótimo som de palco, o quarteto que se completa com Andy Bell (ex-Oasis e Beady Eye) na guitarra e Steve Queralt no baixo aplicou iguais doses de músculo e subtileza a canções como "Leave Them All Behind", "Polar Bear" ou "Seagull". De voz amiúde sonhadora, Mark Gardener aplicou-se também na guitarra elétrica, criando com os seus parceiros ondas de energia e emoção que parecem dar razão às palavras de Laurence Colbert, à tarde: "O meu maior medo era que as nossas canções soassem datadas. Mas, na verdade e por estranho que possa ser, até me parece que soam mais contemporâneas agora!".

Apesar do relativo sossego do público, discreto nas suas manifestações de apreço, os Ride deram nesta segunda noite do Primavera Sound de Barcelona um concerto sólido e pujante, mostrando a coesão que caracteriza este seu novo fôlego.