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Primavera Sound Barcelona: Patti Smith é uma lição

Horses, o álbum de 1975, recordado e revisitado ao vivo no festival de Barcelona.

É arrepiante a ovação que irrompe pela playlist de Bob Marley adentro quando, nos ecrãs gigantes, a multidão vislumbra a silhueta alta e esguia de Patti Smith. De mão no peito e sorriso agradecido, esta lenda viva não só da música como das artes em geral - encontra-se de momento a escrever um novo livro, disse-nos ontem - começou logo por proferir a tirada que, segundos antes, víramos inscrita na t-shirt de uma fã, certamente nascida depois do lançamento de Horses: "Jesus died for somebody's sins but not mine.". Quando a letra de "Gloria", um dos temas mais emblemáticos do disco de 1975 que a nova-iorquina veio a Barcelona recordar, chega ao ato de contração/à declaração de independência - "my sins, my own, they belong to me" - já a faixa de abertura de Horses ganhara honras de manifesto para ser entoado aos sete ventos - o que realmente vem a suceder. Na entrevista que ontem deu à BLITZ e à SIC, Patti Smith recordou a "confeção" de Horses: que não é um disco perfeito, que quando o gravou não era uma grande cantora. Mas que, aos 28 anos, não saiu do estúdio sem dizer tudo o que queria dizer, pessoal e politicamente. Para a autora, o seu álbum de estreia superou o teste do tempo e, efetivamente, a força e a convicção com que encarna estas canções ainda não se apagaram e são mesmo incandescentes. Ainda vamos na primeira música e já a força dos pulsos cerrados no ar emociona, antecedendo o coro gigante de "Gloria" e a dança livre de Patricia Lee Smith, neste impressionante comício apartidário. Patti Smith estava certa quando, ontem à tarde, nos falava da importância da energia dos jovens que acorrem aos seus concertos: quer em "Redondo Beach", que percorre a mesma "praia" imaginária que Ramones ou Blondie também experimentariam, quer em "Birdland", onde declamou parte do texto a partir de uma folha manuscrita, antes de um apogeu sem guião, a grande protagonista deste dia absorveu a excitação dos fãs e retribuiu-a no dobro da intensidade e da intenção. Com um belíssimo pôr do sol a emoldurar uma viagem no tempo - e não necessariamente para trás... - Patti deu ao mar de gente que desaguou no Parq del Fórum para vê-la um sem fim de dádivas: emoção a rodos, tributos aos grandes que já nos deixaram ("Break It Up", sobre Jim Morrisson, "Elegie", inspirada por Jimi Hendrix mas extensível a todos aqueles que os presentes tenham amado e perdido), consciência política e social, um lusco-fusco para mais tarde recordar. Em "Land", por exemplo ("come on, motherfuckers!", exclamaria como repto à participação do público), as suas palavras foram como punhais sobre a carne firme do instrumental (Lenny Kaey, guitarrista e coautor de algumas canções, e o baterista Jay Dee Daugherty ainda a acompanham ao vivo, ao cabo de "40 anos, quarenta décadas!", como a própria sublinha). E 40 anos depois de Horses, continuamos todos a ser "fodidos por governos e corporações", alerta Patti Smith, convicta de que, no entanto, somos todos livres, livres de querermos o mundo e querê-lo agora. "Rock and Roll Nigger", da compilação Outside Society, serviu para Patti Smith reclamar: "You are the future and the future is now!", para paradoxalmente, ela que esculpe palavras com a precisão do mais hábil artesão, descartar o poder das mesmas na revolução individual e coletiva. "Be yourself, be free, be healthy" é a sua receita para conquistarmos o (nosso) mundo e a chave de ouro, verdadeiramente apoteótica, de um concerto que é um naco de história e não deve ser perdido no Porto.