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Primavera Sound Barcelona: A 'medusa' Antony e o lobo Chet Faker

A primeira noite do festival atraiu uma multidão multinacional a Barcelona. Conheça alguns dos destaques da programação do festival que de 4 a 6 de junho assenta arraiais no Porto.

Em primeiro lugar, uma declaração de intenções, ou de limitações: não é possível acompanhar tudo o que se passa no Primavera Sound de Barcelona sem o dom da omnipresença. Bem maior que o recinto português, o Parq Del Fórum alberga numerosos palcos - alguns dos quais "secretos", ou escondidos - e à programação regular juntam-se eventos de acesso limitado, como o concerto dos Battles onde muitos não conseguiram entrar. Selecionar torna-se a palavra de ordem e acelerar, para não perder muitos concertos, é um complemento bem-vindo.

Com o Mediterrâneo lá atrás e uma generosa escadaria à sua frente, o palco Ray-Ban foi um dos nossos espaços favoritos e terá também oferecido boas memórias a Chet Faker, o australiano que, em horário nobre, deixou a plateia pelo beicinho. Muito numeroso e participativo, o mar de fãs reagiu com toda a emoção a esta eletrónica cheia de soul (ou será o contrário?) e, porque não dizê-lo, à boa figura e ao carisma com que Nicholas James Murphy, nascido em Melbourne há 26 anos, apresenta originais e versões (da excelente, ou como se diz muito por aqui, "genial", "No Diggity", recebida com um coro gigante).

Paradigma do homem temporariamente só que também encontramos em James Blake, Chet Faker ora se fez acompanhar de banda, ora assumiu total protagonismo em palco, manuseando sintetizadores e maquinaria. Tal como o aclamado britânico que tocaria ali ao lado, logo depois, o autor de "Built on Glass" faz de uma música algo introspetiva uma experiência de partilha - ainda que a sua atuação convide a uma celebração mais física e quente, menos cerebral do que a de James Blake. De blazer branco, e sob uma lua quase cheia, Chet Faker fez acelerar corações com "1998" (altura em que tinha apenas, imagine-se, 10 anos), "Gold" ou "Talk is Cheap", convidando simultaneamente ao intimismo e ao hedonismo de fim da noite. Independentemente da posição no alinhamento, eis um cabeça de cartaz digno desse nome. Um dos artistas que também irão atuar no Nos Primavera Sound, no Porto, Antony Hegarty deu em Barcelona um concerto caprichado e conceptual. No entanto, a dispersão a que convidam os grandes palcos ao vivo - como aquele em que se apresentou, o Heineken - prejudicou a fruição plena da sua proposta. Foi com uma figura envolta em trajes transparentes, que dançou livremente durante longos minutos, antes da entrada em cena de Antony & orquestra, que o espetáculo arrancou, de forma quase silenciosa. Na nossa cabeça surge um mix de títulos: "I am a Medusa Louca now" (de referir que, apesar do vento, a cabeça em causa já apanhara, por esta altura, muito sol). Acompanhado, então, por uma orquestra e servindo-se da projeção de imagens cinemáticas em grande destaque, Antony provou a sua grande maturidade - e até coragem - como performer. Vestindo uma longa túnica branca, não vacilou na hora de apresentar a sua música perigosamente sensível, revestindo-a de uma progressiva ambição. "Fistful of Love" ou "Ghost" surgiram no Primavera como peças de um proto-musical encenado e protagonizado por Antony. "Snake, shed your skin", canta nesta última, uma letra sintomática das transformações que parece enfrentar com frequência. Entre progressões dramáticas e finais abruptos, Antony arrancou aqui e ali sentidas ovações - foi o caso da rendição de "Starfish and the Crippled" -, mas este espectáculo, lembrando a espaços a dimensão cénica da sua amiga e heroína Björk, teria sobrevivido melhor numa sala fechada. "Este é o primeiro concerto dele desde que se magoou um pouco!", recorda Dan Auerbach, dos Black Keys, no palco Primavera. Não sabemos se foi a pausa forçada de Pat Carney a dar um novo ânimo aos norte-americanos, mas do que espreitámos do seu concerto a dupla pareceu-nos mais vivaça do que no ano passado, no Nos Alive, abrindo até espaço para alguma inovação na sempre bem-vinda "Run Right Back". Ao início da noite, e com pontualidade britânica, o norte-americano Mikal Cronin e a sua banda assomaram no palco Ray-Ban, frente ao qual se concentraram centenas de fãs; o resto do público acabou por sentar-se nos degraus que compõem o auditório ao ar livre, presumindo nós que, num espaço fechado e até acanhado, o garage rock do amigo de Ty Segall atiçasse o fogo de outra maneira. "Made My Mind up", com os seus riffs heróicos, foi um dos temas capazes de incendiar os ânimos dos espectadores. Continue a acompanhar a nossa reportagem no Primavera Sound de Barcelona, para saber como correm os concertos mas também para ler entrevistas exclusivas. Fotos: Primavera Sound