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PJ Harvey de regresso: recorde a entrevista à BLITZ, há quatro anos

Em fevereiro de 2011, PJ Harvey falou com a BLITZ sobre o então novo Let England Shake. Recorde a entrevista, numa altura em que se anuncia o seu regresso, em 2016.

É uma das maiores divindades geradas pelos anos 90 alternativos e uma daquelas que, álbum após álbum, se reinventam como poucas. PJ Harvey regressa com Let England Shake e em conversa telefónica com MÁRIO RUI VIEIRA recorda o recentemente falecido Captain Beefheart, os tempos em que o sexo era importante na sua música e por que razão segue com atenção tudo o que os Radiohead, do seu amigo Thom Yorke, fazem. 

Pode ter completado 41 anos há poucos meses, mas a energia que continua a empregar às suas composições e prestações em palco mantém-se intacta. Depois de uma segunda aventura a meias com o amigo John Parish em 2009, PJ Harvey regressa aos álbuns em nome próprio com Let England Shake, um registo que reflete sobre o período conturbado que o mundo atravessa neste momento (o rótulo de "álbum político" é rejeitado veementemente) e que a deixou a "brincar" com as palavras como quem faz um desenho. Diretamente de Dorset, a sua terra natal, a artista britânica discute a relação amor/ódio que mantém com Inglaterra e deixa bem claro que os seus trabalhos são abertos às interpretações de quem a ouve. Captain Beefheart foi sempre apontado por si como uma grande referência. Qual a primeira coisa em que pensou quando soube que ele tinha falecido? Senti uma grande tristeza pela perda... Tanto a sua música como as suas pinturas e trabalho gráfico me inspiraram sempre a fazer melhor e a tornar-me melhor naquilo que faço. Ele sempre instilou em mim um desejo de continuar a procurar expressar as coisas com clareza.

A música, o desenho e a escultura são atividades com uma forte ligação, para si? Escrever canções é como esculpir com palavras? Sim. É como pintar com cores, criar atmosferas. É mesmo muito semelhante e, como sabe, pratico todas essas atividades. Desenho e pinto todos os dias e sinto que isso me ajuda a escrever canções, porque, por exemplo, quando me dedico à pintura a óleo e a colocar as minhas ideias numa tela encontro respostas quanto a onde colocar uma determinada palavra num verso em que esteja a trabalhar. Todas estas coisas estão muito interligadas.

Tem uma palavra favorita neste momento? Gosto muito da forma como sinto a palavra "nefarious" [nefasto] na minha língua (risos).

Let England Shake... Por que razão está Inglaterra a tremer e o que é que em Inglaterra a faz tremer? Sempre pensei que é melhor deixar as pessoas descobrir aquilo que significam os títulos dos meus álbuns. Não considero que seja meu dever tentar explicar o que quer que seja por palavras, é muito mais interessante mandar as coisas para o mundo e esperar que as pessoas façam o que quiserem delas.

Este álbum começou a ser escrito há três anos... Levei muito tempo a escrevê-lo, sim, mas todo o meu trabalho demora muito tempo... Não é uma coisa fora do normal. Demorei mesmo muito tempo a trabalhar nas palavras porque senti que era importante encontrar palavras muito fortes, que mantivessem o equilíbrio certo entre a linguagem e os assuntos com os quais eu queria lidar. Isso foi o que levou mais tempo, um processo de revisão e mais revisão de palavras... Até sentir, por fim, que eram fortes o suficiente para começar a jogar com algumas ideias musicais.

Olha para Let England Shake como uma reação à intimidade de White Chalk, o álbum anterior? Eu nunca analiso essas coisas... A sério. Mas estou constantemente a aprender e isso faz com que, naturalmente, seja guiada para novas áreas. Estou sempre em busca de novas aprendizagens.

Este álbum é o mais próximo que consegue chegar a um álbum político? Podemos sempre discutir que todos os meus álbuns são, de certa forma, políticos. Essa expressão é bastante difícil de decifrar mas, obviamente, a linguagem que uso, a narrativa e a história deste álbum são muito mais abertas. Digo coisas concretas, formulo afirmações e conto histórias ligadas a assuntos políticos, como a guerra, o legado de uma nação. É abertamente mais político, mas posso sempre dizer que qualquer um dos meus álbuns o é.

Considera-se patriota? Essa é outra palavra complicada. Adoro Inglaterra e detesto Inglaterra. Penso que é um sentimento comum à maioria das pessoas relativamente ao país em que vivem. Tens uma ligação ao país onde nasceste mas ao mesmo tempo há coisas que te repugnam e outras que podem ser terrivelmente desapontantes... Enfurecedoras até. Todos nós estamos a lidar com isso neste momento, um pouco por todo o mundo.

Alguma vez se sentiu dividida entre Inglaterra e os Estados Unidos, um pouco à semelhança daquilo que canta em "The Glorious Land"? Nunca ao ponto de querer viver nos Estados Unidos. Apesar de o ter feito durante uns anos, nunca me senti em casa e não era um país onde gostasse de residir. Mas a relação que existe entre Inglaterra e os Estados Unidos é bastante interessante, particularmente neste momento, porque parece que ambas as potências estão a flutuar em direção à decadência mesmo em frente aos nossos olhos. É um desenvolvimento único, curioso e interessante e penso que todos nós observamos com atenção esta mudança de poderes. Conhecida pela sua rebeldia em palco, atitudes pouco convencionais e por não ter problemas em equilibrar-se em botas de cano alto com saltos enormes, Harvey assegura que já não tem idade para essas coisas. Explica também que a faceta mais sexual do seu trabalho ficou bem encerrada nos álbuns escritos enquanto adolescente. Palavras de uma amiga do jornalista: "A PJ Harvey é a única mulher no mundo que consegue vestir um vestido muito curto e calçar saltos muito altos sem parecer uma prostituta". A verdade é que muda de visual de disco para disco. Presta assim tanta atenção à roupa e ao aspeto visual do seu trabalho? Venho de uma escola de artes e, portanto, a construção de uma imagem é muito importante para mim. Quando estou a escrever canções é normal visualizar as cenas que estou a narrar. É como fazer um filme. Portanto, tudo para mim é muito pictórico, baseado em imagens e cores. Preocupo-me, da mesma forma, com aquilo que visto e adoro fazer experiências com roupa.

Quando apresento as minhas canções tento encontrar as indumentárias certas para usar, para que elas ajudem a espelhar o estado de espírito e a imagem que foi criada pela música... Posto isso, gostava de acrescentar a isto que não vou usar saias curtas ou saltos altos nesta digressão (gargalhada). Era muito mais nova. Foi uma fase que passou.

Sente que tentou, de forma consciente ou não, domar a sua libido em termos criativos? Nunca crio um grande plano, sigo sempre os meus instintos. Era muito nova nessa altura, tinha 19 anos. E como se sabe, é nessa idade que começamos a ter consciência da nossa sexualidade e a vida parece estar a explodir à nossa frente. Foi há muito tempo e, sim, nessa altura estava a tentar pôr a descoberto o que era a minha vida e qual era o meu lugar no mundo, a forma como me relacionava com ele. Estou num local completamente diferente no que diz respeito à minha escrita, neste momento.

Com que idade se sente hoje e como reage ao envelhecimento? Sinto-me com a minha idade. Tenho 41 anos e gosto mesmo muito de me sentir a envelhecer. Os ganhos e a riqueza da vida, o nosso conhecimento e a nossa perspetiva pesam muito mais que aquilo que perdemos em termos de capacidades físicas. Mas posso dizer isso agora, que ainda não tenho problemas com artrites... Talvez me sinta diferente quando estiver nessa posição. Neste momento da minha vida sinto-me feliz.

Já tocou em Portugal várias vezes, em palcos espalhados um pouco por todo o país. Recorda-se de alguma situação que a tenha marcado especialmente? Lembro-me de ter ficado bastante angustiada quando saí do hotel da última vez que aí estive [no Porto, em 2009]. Ali estava eu, confortável, num bom hotel, com uma boa cama, boa comida... E afastámo-nos dois quarteirões, de carro, e vi uma mulher debaixo de uma ponte a arranjar as sobrancelhas a outra, que estava numa cadeira de rodas. Não tinham nada. É uma recordação que não esqueço.

Continuo a sentir-me bastante afetada por esse tipo de coisas, porque elas estão ao virar da esquina. Apesar de todos os concertos que deu em festivais portugueses, nunca chegou a ser cabeça de cartaz. Em algum momento da sua carreira sentiu que podiam fazer de si uma artista mimada? Não. Sou uma pessoa bastante humilde, para dizer a verdade. Não me sinto uma diva. Aquilo que é realmente importante para mim é a qualidade do meu trabalho, o que me interessa mesmo é tornar-me melhor naquilo que faço trabalhando arduamente para isso. É esse o meu trabalho, a minha vida. Criar trabalhos fortes e com significado.

Assume que hoje não lhe é tão fácil escrever canções como antes. O trabalho árduo é todo dela, mas nem por isso se coíbe de abrir as portas para deixar os amigos entrar. Se as opiniões de John Parish são das que mais valoriza, é com toda a certeza que os conselhos de Thom Yorke serão também sempre bem vindos. Afirmou que não cria grandes planos, mas tem um método de trabalho? É um processo que consiga acompanhar conscientemente ou espera pela inspiração? Trabalho arduamente e todos os dias na minha escrita, porque escrever letras consome muito tempo e é difícil. Requer muito estudo, portanto além de escrever todos os dias estudo a arte de escrever. Tento sempre melhorar a minha escrita. É muito difícil, não é algo que me chegue facilmente. Quando consigo juntar um corpo de trabalho, quando tenho as letras escritas numa página começo finalmente a cantá-las e lentamente deixo que elas me deem o ritmo e a melodia de que necessitam. Depois, posso finalmente pegar num instrumento. Foi assim que a minha escrita evoluiu até ao seu estado presente. E continua a mudar... Não costumava escrever desta forma, era uma escritora muito mais espontânea e não preparava palavras, deixava que o ritmo da música encontrasse as palavras. É, portanto, algo que evolui e que muda com cada disco. Mas neste momento da minha vida e do meu trabalho desfruto muito mais da arte de fazer com que as palavras se transformem num trabalho forte, para ser lido numa página.

Recorda-se de como surgiu "This Mess We're In", o dueto com Thom Yorke? Eu sabia que tinha de ser uma voz masculina a cantar esse tema, que quem falava ali não era uma voz feminina. O Thom era alguém com quem queria trabalhar porque sempre achei a voz dele linda. Nunca o tinha ouvido cantar uma canção de amor de forma tão explícita e pensei que seria interessante ouvir uma canção de amor tão apaixonada numa voz tão bonita. Fui ter com ele e perguntei-lhe se o faria. Ele mostrou-se muito recetivo à ideia e quis tentar. Mantém-se em contacto com ele e com o seu trabalho, nos Radiohead e a solo? Olho sempre para ver o que os Radiohead fazem, porque admiro muito o facto de continuarem a tentar andar em frente e descobrir novas formas de usar as suas capacidades enquanto músicos e escritores. Isso é admirável e procuro isso nos outros. Continuo em contacto com o Thom, somos amigos.

De que forma é diferente trabalhar com John Parish num álbum assinado a dois e noutro, como este Let England Shake, em que ele é creditado, principalmente, enquanto produtor? Nós nem precisamos de falar sobre isso, mas há uma definição bastante clara para ambos. Quando escrevemos um projeto a meias, as ideias são providenciadas pelos dois ao longo de todo o processo, consultamo-nos mutuamente. Quando o John trabalha num álbum que eu escrevi sozinha, ele é, de certa forma, uma cor com a qual eu pinto. Se é que isso faz sentido. Ele está lá para ser usado por mim da forma que eu quiser. Mas, obviamente, respeito muito as opiniões dele e preciso dele. Gosto muito de o ter por perto mesmo quando estou a trabalhar no meu material. Apesar de não ser algo que aconteça com muita frequência, quando alguém se arrisca a fazer uma versão de uma das suas canções o que é que sente? Sinto uma grande honra se alguém quer cantar uma das minhas canções. É muito emocionante e, de certa forma, dá-se uma espécie de validação da força da canção quando ela consegue transpor-se para a boca de outra pessoa sem perder a sua identidade.

A atriz Juliette Lewis cantou "Hardly Wait" e "Rid of Me" no filme Strange Days. O que achou dessas versões? Ouvi antes de o filme estrear e achei logo que ela tinha feito um trabalho muito bom.

Tendo em conta que o trabalho de artistas como a PJ Harvey tem a capacidade de aproximar pessoas, de as fazer criar laços, qual é para si o poder real da música? A música tem um poder gigantesco. E claro que o é, para mim, porque é a linguagem que prefiro utilizar, mas gosto de pensar que a música pode ser poderosa para as outras pessoas e para o mundo. Hoje, mais que nunca, precisamos disso. Às vezes, desejo que o tipo de poder que a música tinha no início dos anos 60 regresse. Gosto de pensar que isso pode acontecer.

E quanto à sua própria música, o que quer que ela transmita? Isso muda constantemente, consoante o mundo se altera também. O que eu quero é que as pessoas se levantem para verbalizar e defender aquilo em que acreditam.

Das perguntas que lhe fazem recorrentemente, qual aquela que a incomoda mais? Há algumas que me são colocadas muitas vezes...

Algumas das que respondeu hoje? (gargalhada) Está a colocar-me numa posição difícil. Claro que me fazem as mesmas perguntas muitas vezes, mas eu parto sempre do princípio que as pessoas querem saber as respostas a essas perguntas portanto não sinto qualquer tipo de animosidade. Fico muito feliz por tentar responder às perguntas que me fazem. Mário Rui Vieira