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Pink Floyd batem recordes em Portugal [por Miguel Cadete]

Vendas extraordinárias do último álbum levam a acreditar num "crescimento consolidado do mercado" da música, defende o diretor da BLITZ num texto publicado no Expresso Diário.

The Endless River, o álbum que os Pink Floyd publicaram no dia 10 de novembro, atingiu vendas incríveis na primeira semana em que esteve nos escaparates portugueses. O disco chegou de surpresa, vinte anos depois do seu derradeiro álbum, The Division Bell, mas fez valer o peso do grupo de David Gilmour e Nick Mason no mercado nacional. De acordo com o boletim de vendas da Associação Fonográfica Portuguesa, na semana 46 do ano de 2014, venderam-se 5114 unidades de The Endless River.

O número é extraordinário quando comparado com os valores obtidos pelos discos que nos últimos meses têm frequentado o primeiro lugar da tabela de vendas e que se quedam por algumas centenas de exemplares. Mesmo nesta semana, quando se aproxima a quadra natalícia e o mercado aquece por tradição, o segundo lugar do top é ocupado por Canto, de Carminho, a larga distância, somando entre vendas físicas e digitais, apenas 806 cópias vendidas.

A façanha dos Pink Floyd, para Rui Chen, coordenador de Marketing Estratégico da Warner Music Portugal, explica-se por duas razões: "o artista - e a sua qualidade - que não gravava há vinte anos" e, por outro lado, "o target: o consumidor deste grupo, o fã, pertence a um público mais adulto, que aprecia o objeto CD e que gosta de comprar". No caso de The Endless River, não só as vendas em CD foram espectaculares - 4508 cópias - como as vendas digitais também se revelaram "notáveis". No caso do catálogo da Warner, só os Coldplay superaram, com Ghost Stories, as vendas digitais de The Endless River numa semana. O primeiro ultrapassou os 800 downloads, enquanto o álbum dos Pink Floyd chegou às 606 unidades na semana passada.

Por estes dias, já se sabe, o CD tem morte anunciada. Os jornais estão cheios de notícias sobre o definhamento desse suporte lançado em meados dos anos 80 e sublinham o surgimento de novas formas de consumir música, como as plataformas de streaming (Spotify, Beats da Apple ou Music Key da Google). Porém, essas notícias parecem, de acordo com o que sucedeu na semana passada nas lojas de discos portuguesas, manifestamente exageradas.

Do lado da editora, Rui Chen entende estes resultados "por se dirigirem a um público mais maduro, com poder de compra e com gosto pelo CD", o que é tudo menos a imagem estereotipada do consumidor de música jovem, apostado no download ilegal e em busca de novas tendências. Esse público "maduro e que gosta de comprar", justifica certamente este êxito dos Pink Floyd. Da mesma maneira que, sabe o Expresso, é muito provável que o primeiro lugar do top desta semana, a ser revelado na próxima quarta-feira,  seja ocupado por Four, o mais recente disco dos One Direction. Ou seja, a confirmar-se, trata-se da situação diametralmente oposta, em que os discos são comprados, também por uma clientela madura mas, neste caso, a pedido de um público juvenil.

No meio, ou seja, entre os pais que compram Pink Floyd e os filhos que querem os One Direction, ainda há um imenso vazio. E é exatamente esse vazio que tem justificado a crise que a indústria fonográfica tem sentido nos últimos 15 anos, mercê do advento digital e da chegada do download ilegal como umas das formas preferidas de consumo de música. Esse é o mantra que ouvimos há mais de uma década. Contudo, os últimos dados conhecidos para Portugal contrariam decididamente essa imagem.

Segundo Miguel Carretas, da Associação Fonográfica Portuguesa, "há um crescimento consolidado do mercado nos últimos seis meses".  Talvez ainda mais surpreendentemente, o mercado português, em setembro deste ano, cresceu 30% face ao período homólogo de 2013. Mas há mais valores capaz de deixar perplexo o mais cético dos observadores: as vendas deste ano ("year to date") estão no verde e há fortes indícios de que o mercado português de música gravada irá crescer em 2014. A confirmarem-se estas suspeitas,  seria a primeira vez que nos últimos 12 anos tal aconteceria.

A explicação para este inusitado surto da venda de música podem encontrar-se, muito simplesmente, na reorganização de duas das principais editoras portuguesas, a Sony Music Portugal e, sobretudo, a Warner Music Portugal, que em 2013 passaram por períodos de séria instabilidade. Por outro lado, não deixa de ser crível que a conquista de terreno por parte das plataformas de streaming, que além do modelo de publicidade para o consumo gratuito estão a fazer vingar modelos de assinatura, comece a funcionar como o mais bem sucedido ataque ao download ilegal. Vale a pena recordar que o mercado português valia, em 2002, 105 milhões de euros e que no ano passado encolheu para 16,5 milhões de euros.

A outra explicação para este ressurgimento encontra-se, obviamente, nos artistas e no poder da sua música. É natural que o mercado aqueça quando os grandes nomes, com enorme historial, editam discos. É o caso dos Pink Floyd. Em Portugal, é necessário recuar até 2012 para encontrar um disco que vendeu mais na estreia do que The Endless River. Nas duas últimas semanas desse ano, o álbum Essencial de Tony Carreira, chegou a valores, de acordo com informação prestada pela AFP, ainda superiores aos do último álbum dos Pink Floyd. Mas esse disco de Tony Carreira, o recordista de concertos no Pavilhão Atlântico , hoje MEO Arena, com, nada mais nada menos do que quinze datas, pode, à semelhança do álbum dos Pink Floyd considerar-se uma exceção.

É preciso recuar a 2009 para encontrar um artista estrangeiro que tenha vendido mais unidades numa semana: No Line on the Horizon, dos U2, esclareceu a AFP, faz do disco dos Pink Floyd o campeão de vendas dos últimos cinco anos. Mas The Endless River não conquistou apenas o primeiro lugar em Portugal. Também chegou ao lugar cimeiro no Reino Unido, Alemanha, França, Canadá, Holanda, Bélgica, Hungria, Aústria, Suíça, Dinamarca, Noruega, Nova Zelândia, Croácia e Eslovénia. Os valores de que a AFP dispõe "apontam para o álbum dos Pink Floyd, na mesma semana, ter vendido mais exemplares em Portugal que no muito maior mercado espanhol. Isto em termos de número absoluto de unidades."

A razão prática do bom sucesso do lançamento de The Endless River deve-se, para Rui Chen, ao facto de "tudo ter sido feito muito atempadamente, desde julho. Este foi um projeto assente numa estratégia bem definida e clara para nós", referindo-se então às instruções recebidas da Parlophone, a etiqueta dos Pink Floyd representada em Portugal pela Warner.

Nas semanas que antecederam a chegada às lojas de The Endless River, os Pink Floyd beneficiaram de capas na revista Blitz e no caderno Atual do Expresso. Quanto à rádio, a M80 foi o parceiro privilegiado para esta ação, tendo também decorrido campanhas na TSF. A Warner Music Portugal, divulgou na sua newsletter, capaz de chegar a cerca de 150 mil utilizadores, a edição do disco, que teve como parceiro quase natural a Fnac com a sua rede de lojas e espaço online, possibilitando a sua pré-vendas com vários dias de antecedência. Um dos conteúdos fundamentais disponibilizados pela editora para a promoção deste disco foi a entrevista a David Gilmour e Nick Mason, os dois sobreviventes, que aqui deixamos na íntegra.

Texto: Miguel Cadete 

Artigo publicado originalmente no Expresso Diário da passada quinta-feira.