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Patti Smith seduz o Coliseu de Lisboa com nobreza poética

A decana do punk de Nova Iorque transformou o Coliseu dos Recreios numa extensão do CBGB, 40 anos mais tarde, mas com a mesma magia e força!

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O Coliseu dos Recreios está cheio e o que poderá surpreender quem não tenha apanhado uma das recentes apresentacões de Patti Smith nesta digressão comemorativa de Horses - como aconteceu, por exemplo, no Primavera Sound em Maio passado - é a quantidade de gente demasiado nova para ter algum tipo de memória da data de edição original deste álbum e que marca presença desde a primeira hora nas filas que hão-de dar acesso aos primeiros lugares na plateia. A atmosfera é, justificadamente electrizante. Esta noite celebra-se qualquer coisa que não é imediatamente perceptível. Mas que é palpável. O alinhamento segue a ordem do velho LP editado originalmente quando as luzes de Natal já adornavam as montras de Nova Iorque nos idos de 1975. "Gloria" é naturalmente épica e serve de portal de entrada num estado de espírito muito particular, depois vem "Redondo Beach" e, principalmente, "Birdland", quando Patti veste pela primeira vez a pele da deusa poetisa que incendiou a Grande Maçã na época em que o punk prometeu - e de certa forma cumpriu - ser capaz de mudar o mundo. E é impossível, neste solene momento, não pensar que Patti toma conta do Coliseu dos Recreios no mesmo dia em que Vítor Silva Tavares largou a dimensão dos vivos. No anfiteatro natural do Parque da Cidade do Porto, na anterior passagem por Portugal, Patti registou um dos momentos mais altos do seu concerto quando evocou a memória de gigantes desaparecidos como Lou Reed ou Jim Morrison. Será que esta noite vai homenagear o homem que deu Witt à estampa numa edição punk, quase fotocopiada, já lá vão algumas décadas? "Free Money" ressoa em toda a sua urgência, com Lenny Kaye a secundar a poetisa mais honesta de sempre da história do rock and roll e fecha-se o lado A do álbum, com Patti a pedir desculpa por ter que beber "água portuguesa, com limão e gengibre biológico": "e agora viramos o disco para o lado B, metemos a agulha na espira e tocamos o lado B". Venha ele. "Kimberly" é oportunidade para se pensar na figura que temos à frente: depois da passagem pelo Porto, na primavera passada, não chegou sequer a surpreender que Killer Mike, dos Run The Jewels, tenha colocado no Instagram uma foto ao lado de Patti Smith no aeroporto com uma legenda que dava aos fãs de uma das mais intensas bandas hip-hop dos últimos anos uma ideia da enormidade da ocasião. Algo como: "uma honra encontrar esta lenda viva!" E é isso: à frente temos todos, os que esta noite enchemos o Coliseu, uma lenda, um gigante, uma testemunha viva do poder que a música tem de transformar o mundo. Segue-se uma evocação de Jim Morrison, numa canção nascida de um sonho. E Patti conversa com o público de uma forma que não há-de ser muito diferente das outras conversas que há-de te tido com o público de lugares míticos como o CBGB nos idos de 1976. "Break it Up" é guiada pelo piano, fala de um anjo caído da era hippie. O menos punk possível, certo? Talvez, mas na Nova Iorque dos anos 70 Patti falava do rock and roll como uma força redentora, capaz de transformar o mundo, de dar uma voz a uma geração que pensava ser muda. E isso era o mais punk possível. "Land" é toda, como diz a letra, força da natureza. Urgência - "c'mon motherfuckers" - força, nervo, palmas em uníssono. Mesmo na era do instagram e dos gadgets, a ideia de pertencer a algo maior ainda mexe com as multidões. Só precisamos da sacerdotisa certa. E repare-se: o palco está nu - meia dúzia de luzes, zero cenário para lá dos amplificadores; a banda veste de negro e branco, como sempre, com Patti a carregar ainda o uniforme de poeta beat que há-de ter aprendido nalguma velha foto de Charles Bukowski na Life Magazine. Nada mais é necessário. Mas é a própria Patti que explica que sente que a sala está cheia de energia... E que é essa energia que a alimenta e que lhe dá força. Patti fala de Lisboa, de uma cidade com magia e com poesia, com uma história. O público delira. Sem cenários. Sem drones. Sem ecrãs de vídeo gigante. Como não acreditar no poder redentor e purificador do rock and roll? "Eu sou vocês", diz Patti depois de um intensíssimo "Land". Não há como não acreditar... Segue-se "Elegie", uma homenagem a Jimi Hendrix escrita há 40 anos, que Patti reafirma ser uma homenagem a todos os que partiram, "mesmo animais". A cantora explica que quando a canção foi escrita muitos dos presentes ainda nem sequer tinham nascido. E fala de orgulho. A morte alimenta a vida desta cantora. Foi sempre assim. Os heróis (Jim Morrison, Jimi Hendrix), os amigos (Robert Mapplethorpe), os amantes (Fred Sonic Smith), todos alimentam a nobreza suprema de uma alma plena de beleza. Em "Elegie" Patti evoca muitos dos heróis tombados, incluindo os Ramones, Kurt Cobain, Joe Strummer, Amy Winehouse, Lou Reed... Falta o poeta português... Vénia colectiva, Horses está cumprido. Segue-se "Pissing in a River" e é óbvio que Patti continua capaz de cuspir raiva... Patti sai do palco, talvez para recuperar o fôlego, e Lenny Kaye assume a dianteira com uma enorme surpresa: "Rock and Roll" dos Velvet Underground faz-se ouvir no Coliseu, provavelmente pela primeira vez desde que Lou Reed aí interpretou esse tema há mais de 20 anos, quando veio apresentar New York. Segue-se "I'm Waiting For The Man" com direito a conversão monetária e tudo - "26 euros in my hand" - e depois vem "White Light White Heat". Obrigado senhores! Interlúdio tão inesperado quanto bem-vindo. Nova Iorque vive hoje em Lisboa... Patti regressa ao palco e dedica a próxima canção à "vida", assim mesmo em português. E fala de uma visita à Casa Fernando Pessoa e dos seus livros. Mesmo dos que não tinha, como os de Allen Ginsberg, mas que teria tido caso tivesse vivido mais tempo. "Beneath the Southern Cross" aproxima-nos do final da celebração. Patti diz adeus, mas sabemos que ainda não acabou. E depois Patti fala de amor, de morte e de vida, e dedica "Because the Night" a Fred Sonic Smith. Neste momento esta é a única canção do mundo. A mais bela de todas. O arrepio é unânime. Há muito tempo que não via tão poucos ecrãs iluminados erguidos na direção do palco num concerto de rock. Sem cenários ou luzes estridentes. O fim chega com "People Have the Power". Em véspera de eleições, isto podia ser um hino... E a verdade, perante alguém como Patti Smith, é que, todos juntos, temos mesmo o poder para transformar o mundo. E para tanto basta uma canção. Patti já fez a sua parte. E a nós resta-nos agradecer. E votar, um dia destes. Obrigado Patti. PS: Patti Smith e os seus companheiros abandonam o palco quando passam sensivelmente 15 minutos das onze da noite. Mas o público não arreda pé e força um regresso que se traduz em "My Generation", o histórico hino dos The Who que no Coliseu apaga os telemóveis todos e faz-nos pertencer a um mesmo planeta, por um incrível e eléctrico momento. Obrigado outra vez, Patti. Texto de Rui Miguel Abreu Fotos de Rita Carmo/Espanta Espíritos