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Panda Bear em Lisboa e Braga esta semana: 'Entristecem-me os algoritmos que decidem o que vamos ouvir'

O norte-americano que vive em Lisboa apresenta Meets The Grim Reaper ao vivo com concertos no Maria Matos (dia 11 de março, Lisboa) e no GNRation (dia 12, Braga). Leia a entrevista de Noah Lennox à BLITZ de fevereiro.

Meets the Grim Reaper é o novo álbum de um dos músicos mais gabados do reduto indie, dentro e fora da sua casa-mãe, os Animal Collective. Com generosas vistas de Lisboa em fundo, Noah Lennox discorre sobre a vida, processos criativos e os algoritmos do Spotify. 

"Mais do que qualquer outra cidade que eu conheça, Lisboa é uma enorme coleção de bairros com personalidades muito distintas", começa por explicar Noah Lennox, o baterista de Animal Collective que mantém uma carreira a solo como Panda Bear. "Não há uma atmosfera que eu possa dizer que seja comum a qualquer sítio onde se vá em Lisboa. Há diferentes zonas, cada uma com o seu caráter e às vezes até parece que estamos num sítio completamente diferente". Noah não admite imediatamente, mas há algo de português no novíssimo Panda Bear Meets The Grim Reaper: o tom algo sombrio do título e de algumas temáticas mais "pesadas" que atravessam o álbum talvez deva qualquer coisa às atmosferas mais solenes do fado. Noah, no entanto, prefere falar do zeitgeist que tanta música tem atirado para a sombra e menciona a referência à morte no título do mais recente trabalho de Flying Lotus (You're Dead) como outro sinal: "vários de nós andam à volta desse tema. Presumo que tenha algo que ver com a situação atual do mundo. Parece que há muitos mais desastres naturais, tufões, furacões e vulcões que entram em erupção. E depois há todas as notícias com o Estado Islâmico, a crise financeira". O título do novo álbum e o vídeo de apresentação que a editora Domino disponibilizou na internet com a figura da morte a esventrar um panda de peluche parecem indicar algo sobre o futuro desta identidade artística de Noah Lennox, mas nada de concreto sai da boca do artista, que, como nas canções, prefere uma atitude mais críptica do que um esclarecimento cabal do futuro do nome Panda Bear: "não posso dizer que este seja um álbum sobre a morte ou a mortalidade. É suposto evocar a ideia de que quando algo atravessa uma mudança dramática a identidade dessa coisa de alguma coisa desaparece ou morre. Mas também gosto da forma como o título apresenta uma coisa que é intensa e obscura, talvez algo com que não queremos lidar, mas que veste uma máscara que até tem alguma graça. Algumas das canções funcionam nesse registo: em termos de letras tocam em alguns assuntos pesados, mas os sons são muito luminosos e atraentes e vigorosos". "Senti que seria importante saber que estava a escrever sobre coisas que são maiores do que eu. Há muito tempo que uso a introspeção como uma ferramenta para fazer música que, se tudo correr bem, até pode ser útil para mais alguém. Mas ter crianças força-nos a adotar novas perspetivas e isso levou-me também a alterar a minha perspetiva em termos de escrever letras", conta Panda Bear que prefere ser discreto sobre a sua vida privada, mas abre uma pequena janela para o seu mundo. "Ter filhos ajudou-me a mudar esse ponto de vista. Portanto, embora sinta que as sementes das canções começaram de uma experiência ou pensamento muito pessoal, foi um desafio alterar a perspetiva para algo que fosse globalmente mais útil". De volta à música, que é o que Noah Lennox realmente gosta de discutir, pesando as palavras e entrecortando o discurso com pausas para reflexão, aborda-se a questão da evolução entre trabalhos e do inevitável jogo das diferenças. "A mudança mais óbvia", revela, "foi afastar-me da guitarra e querer fazer sons usando outro processo. A minha abordagem aos breaks de bateria foi o que ditou as regras para o resto do processo. Os primeiros três quartos de vida de cada canção foram apenas ritmo. E montar estas estruturas de ritmos foi como brincar com peças de lego. Às vezes tinha alguns sons, alguns ruídos, mas nada de baixo, o baixo só chegou no final". Panda Bear parece em ... Grim Reaper aproximar-se da pop, com canções que soam mais diretas e transparentes do que na sua discografia anterior. "O ritmo e a voz tornaram-se o foco da música. Acho que a minha intenção era fazer com que a minha música falasse a mesma língua da música que se escuta na rádio. Senti que os ritmos e a voz poderiam funcionar como elementos familiares para pessoas que talvez nunca me tenham ouvido antes. Para quem ouve rádio ou o Spotify, esta característica da minha música seria uma maneira de atrair as pessoas para que estas ouvissem algo que não iriam ouvir de outra forma". A música, uma vez mais, como uma máscara. Os breaks de bateria, verdadeiras fundações, no sentido arquitetónico do termo, do edifício musical erguido pelo hip-hop, têm um papel preponderante nesta nova fase de Panda Bear, mas Noah Lennox não faz qualquer esforço para fingir que é um digger experimentado e que descobriu todos estes sons em expedições pelas lojas de vinil de Lisboa. "Estes samples vieram de um ficheiro que descobri na internet. Alguém fez o upload de um monte de breaks de bateria, breaks muito comuns, coisas que já todos ouvimos um monte de vezes. E eu gostei do facto de haver uma familiaridade associada a esses breaks". É óbvio que Panda Bear quis trabalhar com "acordes" já bastante batidos na música popular, mas que os enfrentou com a ideia clara de fazer com eles algo de diferente. O ponto de partida, no entanto, parece recuar ao hip-hop que ouviu nos anos 90. "J Dilla, 9th Wonder, DJ Premier, Pete Rock, Q-Tip...", responde Noah quando lhe pedimos uma lista de referências na arte de construir batidas. "Há muitos produtores, sobretudo dos anos 90, que me marcaram. E são esses produtores dessa era específica que me inspiram especificamente por causa da forma como usaram breaks de bateria como uma fundação para as suas composições. Era essa a abordagem comum. Algures na viragem do milénio, o som mudou e as coisas começaram a ser sequenciadas de uma forma mais clínica e os ritmos perderam esse swing muito particular. Perdeu-se um certo "bounce" nos ritmos, passou tudo a soar mais exato. E, mesmo sem o planear, acabei por me aproximar desse som mais "imperfeito", mais "soluçante"".

Noah Lennox fotografado em Lisboa por Rita Carmo Outra mudança nesta encarnação mais pop de Panda Bear parece ser no foco da inspiração do songwriting: se as harmonias de trabalhos como Person Pitch lhe valeram no passado comparações aos Beach Boys, certas melodias do novo ... Grim Reaper poderão fazer-nos pensar nos Fab Four... "Adoro os Beatles, embora não possa dizer que foram uma influência direta neste trabalho. Quando me apontavam as influências dos Beach Boys pensei que talvez fosse melhor deixar as harmonias vocais de lado por um bocado, tentei ir noutras direções. Mas tirando isso não me parece que tenha tomado alguma decisão consciente de seguir numa direção específica. Mas tenho que admitir que os Beatles têm canções incríveis". Com um radar obviamente generoso e amplo, Noah Lennox não tem problemas em apontar para a Inglaterra do passado quando se trata de nomear referências ou para aquela que no presente tem desbravado novas perspetivas: "gosto muito do trabalho do Andy Stott. É muito abrasivo o que ele faz em Faith in Strangers. Gosto que esse álbum não tenha pressa de fazer alguma coisa. Joga pelas suas próprias regras". Panda Bear também gosta de pensar pela própria cabeça e admite que, se por enquanto ainda pensa no formato álbum como a moldura ideal para se expressar, nada impede que no futuro possa adotar outras formas de organizar a sua música. Por outro lado, embora a componente física continue a imperar na forma de mediar a relação das pessoas com a sua música ... Grim Reaper terá várias edições físicas, incluindo uma versão em triplo vinil com algum material extra o streaming não é, para si, um bicho papão: "não tenho nenhum problema com o Spotify ou a ideia de ouvir música em streaming. O único problema é que me parece que os artistas recebem pouco e penso que o modelo não é sustentável para já. Mas o que me entristece mais são os algoritmos que decidem o que vamos ouvir a seguir. Sinto que o que é mais excitante na música e na vida é ser capaz de descobrir coisas novas, ser confrontado com coisas inesperadas. A ideia de explorar é fundamental. Por isso, ter um mecanismo que nos impõe música com base no que já conhecemos esvazia aquilo que acaba por dar vida à música". Entretanto, o futuro que se estende para lá de ... Grim Reaper conduz, inevitavelmente, aos Animal Collective: "desde o verão que comecei a trocar ideias com o resto dos rapazes. Estamos basicamente a falar sobre direções a seguir, sobre o que fará sentido fazer ou não. Tenho a certeza que o David [Avey Tare] já escreveu um monte de canções. Eu sou bem mais lento. Estou naquela parte do meu processo em que apenas divago sobre certas coisas, vou sonhando acordado com o que pretendo fazer". No calendário mental de Panda Bear, novo disco de Animal Collective só para finais deste ano ou inícios do próximo, mas as coisas ainda se podem alterar: "o material de Merriweather Post Pavilion apareceu muito rapidamente, mas o Centipede Hz tomou-nos muito tempo...", refere, a título de exemplo. "Há um momento em que temos que estar todos juntos no mesmo espaço para encaixarmos as peças do puzzle. Nunca vamos em digressão ou para estúdio sem primeiro passarmos algum tempo juntos a atirar com ideias uns aos outros. O facto de eu me ter mudado para Lisboa atrapalhou um pouco o processo, mas ao mesmo tempo deu-nos coisas positivas. Sinto que não tomamos nada como certo e o facto de estarmos separados algum tempo leva-nos a encarar cada novo processo de trabalho com alguma excitação, há sempre uma perspetiva fresca". Este Panda Bear pode estar, portanto, em vias de extinção, mas Animal Collective tem para já futuro assegurado. Agora é deixar o tempo correr.

Entrevista: Rui MIguel Abreu Fotos: Rita Carmo/Espanta Espíritos