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Oito cantoras portuguesas contra a violência doméstica - veja a reportagem nas gravações de 'Cansada'

Rodrigo Guedes de Carvalho escreveu e oito cantoras portuguesas dão voz a "Cansada", um hino contra a violência doméstica. Lia Pereira assistiu às gravações e falou com alguns dos protagonistas da iniciativa, com o cunho da APAV.

Gravada nos estúdios Atlântico Blue, em Paço de Arcos, no passado dia 11 de fevereiro, a canção "Cansada" nasceu muito antes, e num contexto bem diferente, explicou à BLITZ Rodrigo Guedes de Carvalho. O jornalista da SIC é, também, o mentor da iniciativa que pretende alertar as consciências para a incidência da violência doméstica em Portugal, tendo sido inicialmente abordado pela APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) com vista a noticiar as iniciativas da entidade. "O presidente [João Lázaro] convidou-me para falar, a propósito dos 25 anos da APAV. Ele sabe que eu sou uma pessoa sensível às causas e eu disse-lhe que a SIC estaria interessada [em fazer a cobertura das ações da APAV]". Numa fase "posterior e mais descontraída", Guedes de Carvalho confidenciou-lhe ter aquilo a que chama "uma banda de sala de estar, com três cinquentões meus amigos: fazemos músicas originais, para descontrair. E até lhe disse: tenho lá uma música que um amigo está sempre a dizer que parece um hino da APAV!". Interessado em escutar a canção e entusiasmado com o que ouviu, João Lázaro pensou então com Guedes de Carvalho na transformação de "Cansada", uma música que o autor recorda como "muito simples", em algo de "grandioso. E como a letra é o lamento de uma mulher na primeira pessoa, eu tive a ideia de que fosse toda cantada por mulheres. Só assim teria a força de uma união nacional". A escolha das oito vozes nacionais que entoam "Cansada" coube a Guedes de Carvalho e Filipe Melo, que o jornalista convidou para criar os arranjos. "Fizemos uma lista de cantoras; algumas achámos que não tinham perfil para isto, outras são tão majestáticas que poderiam ofuscar as outras", confessa. Com atenção ao ecletismo da seleção - "temos três fadistas, mas também pessoas do jazz, e intérpretes de registos muito diferentes, da Ana Bacalhau à Selma Uamusse" - o pivô do Jornal da Noite só ouviu "sins". "Fui eu que as contactei pessoalmente, e todas as que aqui estão me disseram sim desde a primeira hora", congratula-se. "Numa segunda fase, perguntaram-me: mas qual é a letra, qual é a música? Claro que tinham de gostar, mas em relação a dar a cara pelo projeto, disseram logo que sim".

Quando chegámos aos estúdios Atlântico Blue, pouco depois do meio-dia de uma quarta-feira luminosa, Marta Hugon acabava de gravar a sua participação; seguir-se-ia Ana Bacalhau, dos Deolinda, entusiasmada por poder usar a sua visibilidade para apoiar uma causa maior. "Fiquei súper feliz e emocionada com o convite, porque a violência doméstica é uma realidade que me perturba", partilhou com a BLITZ. "Além disso, as vozes e as personalidades [aqui reunidas] são tão diferentes, todas elas tão vincadas, tão marcantes e tão fortes, que o resultado final só pode ser muito bom". Além de Marta Hugon e Ana Bacalhau, passariam pelos estúdios, até ao fim do dia, Aldina Duarte, Cuca Roseta, Gisela João, Rita Redshoes, Selma Uamusse e Manuela Azevedo.

A vocalista dos Clã foi, precisamente, a senhora que se seguiu, trocando algumas palavras com a BLITZ antes de cantar os quatro versos que cabiam a cada convidada. "A violência, seja de que forma for, mas sobretudo a que se passa dentro de casa, no sítio que deve ser o nosso ninho e um local de conforto, de amor, de paz, [é muito grave]. Que ainda aconteça tanto, como acontece no nosso país, é intolerável; poder contribuir para que as consciências se apercebam [desta realidade] é fundamental", garantiu, alertando para alguns equívocos comuns na discussão pública de casos de violência doméstica: "Culpar a própria vítima ou achar que a violência é uma manifestação extrema de amor, de necessidade de ligação àquela pessoa, é um absurdo. Não há amor que mereça esse nome, quando se concretiza de forma tão violenta". Igualmente sensível ao flagelo é Selma Uamusse, que diz ter aceitado o convite mesmo antes de conhecer a estética do projeto ou as participantes no mesmo. "A questão da violência doméstica toca-me pessoalmente, por estar a par de situações que me são próximas. Enquanto músicos, temos a responsabilidade de dar voz às coisas que achamos que são importantes", defende a artista. "Do lado musical, claro que nos interessa fazer parte de um projeto [estimulante], e eu tenho grande admiração pelo trabalho de todas estas cantoras. De alguma maneira, até me surpreendeu pela positiva o convite do Rodrigo, por achar que não me encontro no mesmo patamar de notoriedade que elas". O altruísmo da iniciativa fala, porém, mais alto, no coração da vocalista que integra os Wryagunn: "No final de contas, a vida não é sobre nós, é sobre aquilo que nos envolve e para mim, enquanto mãe, principalmente, importa-me deixar alguma coisa neste mundo que não seja só a minha bela carreira. Não podemos ficar indiferentes a atos tão egoístas e autocentrados - a violência nunca é resposta para nada e essa é uma bandeira que irei sempre defender".

Entusiasmado com a disponibilidade das cantoras que convidou, Guedes de Carvalho espera agora que a canção e o seu vídeo - realizado por Tiago Guedes, seu irmão - se tornem virais, ajudando a espalhar a mensagem. E garante que a sua sensibilidade para a causa é, mais do que a de um jornalista que todos os dias noticia casos de violência doméstica, igual à de um "qualquer espectador. Ciúmes já todos sentimos, mas que o homem tenha direito a exercê-lo até ao limite, que é eliminar o objeto do seu ciúme, não pode acontecer. O que se está a passar é o mais básico atentado à liberdade individual, porque mesmo as mulheres que não são mortas não vivem em liberdade, vivem no terror de serem perseguidas". Ciente da complexidade do problema, remata: "O que fazemos, então? O Filipe Melo sabe fazer arranjos fabulosos, elas têm uma voz fabulosa, eu fiz uma letra de que me orgulho. Não podemos substituir-nos à polícia e aos tribunais; ajudamos da forma como podemos".

Rodrigo Guedes de Carvalho e o seu irmão, o realizador Tiago Guedes

Texto: Lia Pereira Fotos: Rita Carmo/Espanta Espíritos