Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

O dia em que entrevistámos Jesse Hughes, dos Eagles of Death Metal

Recebeu a BLITZ nos bastidores do Optimus Alive!09 e revelou-se um amante de armas, pessoas e animais e recordou um concerto em Paredes de Coura. Leia aqui a entrevista na íntegra.

O que é que recorda da primeira passagem por Portugal? Lembro-me de tudo. Do Morrissey, que foi estranho, dos Yeah Yeah Yeahs, que foram espectaculares. E da comida, que era tão boa que até levei alguma comigo e deixei-a estragar-se, sem me aperceber. Apanhei uma intoxicação alimentar e acabei a vomitar sangue em palco, em Viena de Áustria. Portugal é assim: tão rock que me deixa a vomitar sangue! Há seis anos que faz música. Antes tinha um emprego mais aborrecido: escrevia discursos para o Partido Republicano... O jornalismo não era nada aborrecido, querida. Os políticos são estrelas rock. Andam em digressão, têm um manager, um espectáculo ao vivo, sobem ao palco e depois vão dar beijinhos a bebés e foder groupies. É a mesma merda. Eu tive a sorte de trabalhar para um dos últimos grandes políticos na América, Sonny Bono. Então qual é a diferença entre a política e o rock? A única diferença é que os roqueiros preocupam-se um bocadinho mais em fingir que se preocupam. Os roqueiros são políticos. E sempre que um roqueiro sobe a palco para apoiar um candidato, torna-se um político também. Hoje o Partido Democrático está pejado de roqueiros da era moderna. Já vi coisas assim, mas eram a preto e branco e faladas em alemão. A sua afiliação ao Partido Republicano faz de si um bicho raro, no mundo do rock? A minha afiliação é com os conservadores. Não sou republicano, sou de extrema-direita. Deus fez o Homem e a Mulher, as armas fizeram-nos iguais. É um facto da vida, não é culpa minha. O Governo nunca vai saber melhor do que eu como gastar o meu dinheiro. Isso faz de mim um outsider? Não, querida, porque eu estou dentro! Só quero as minhas armas e o meu dinheiro e que ninguém me diga o que fazer. Mas nunca uso o palco para dizer às pessoas em quem é que elas hão-de votar. Isso é muito feio: encantar as pessoas com música folk bonitinha e depois dar-lhes na cabeça e dizer-lhes em quem votar. As pessoas concordam que os políticos são todos uns sacanas mentirosos, então qual é a diferença entre Obama e George W. Bush? Porque é que hás-de preferir um ao outro? Porque te dá coisas grátis? Os traficantes, os chulos, os ladrões também. Além do mais o Ronald Reagan fez dos Ramones "marines" honorários, e isso para mim é que conta! Sou um republicano-Reagan, baby. As pessoas preferem Barack Obama pelo seu carisma de estrela rock? As pessoas gostam mais do Obama porque lhes dizem para gostarem mais dele. Desafio qualquer pessoa que goste do Obama a dizer-me uma coisa boa que ele tenha feito. Não fez. Gostam dele apenas pelo seu carisma. E todos nós aprendemos, com aquele patife do Bill Clinton, o que acontece quando confiamos num homem com carisma. Essas pessoas vão dar é cabo do mundo. Por causa do Bill Clinton, a China pode arrasar-nos com mísseis nucleares. O carisma para mim não quer dizer nada. Eu gosto de um tipo que se engasga a falar frente às pessoas, significa que está nervoso, que é normal. Obama é o meu presidente, eleito leal e legalmente pela maioria dos meus concidadãos, e por isso não vou falar mal dele. Até porque não acho que ele tenha feito coisas más: se quiseres julgá-lo pelo seu mérito, Obama respeita claramente George W. Bush, porque ainda não mudou nada! Gosta muito de armas mas é contra a caça. Toda a caça moderna, à excepção do Ted Nugent, que realmente mata coisas para comê-las, é injusta. Nós já desenvolvemos formas "humanas" de matar os animais, e é assim que eu arranjo o meu bife. Não quero as armas para matar animais, só para matar os maus. Quer as armas para matar pessoas? É para isso que as armas foram feitas. Foram feitas exclusivamente para matar pessoas. É uma coisa terrível mas a menos que nos mudemos todos para a Disneylândia, nunca vai mudar. E nunca hei-de pensar que as armas são para aqueles burros de uniforme. Aposto que tu conseguias usar uma arma melhor do que a maior parte dos polícias, acredita! Mas já teve pessoas a tentar entrar em sua casa, por exemplo? Quando era casado acordei a meio da noite com um homem vestido de preto, a puxar os cobertores da minha mulher. Aprendi da pior forma que só tu te podes defender. Não confio num Governo que não deixa as pessoas tomarem conta de si mesmas; a polícia não pode ajudar-te a meio da noite quando alguém está a puxar os cobertores à tua mulher. Essa foi a última vez que a minha mulher me pediu para ter as armas fechadas. A partir daí, já queria as armas. Crimes destes são acidentes, um num milhão. Mas acontecem a toda a hora, a pessoas normais, e eu gosto dessas pessoas, eu adoro pessoas! Há músicas dos Eagles of Death Metal em anúncios a sapatos, bebidas... Preservativos, até! O que é que torna a vossa música tão apelativa para os anunciantes? Sou eu que tento, de forma propositada, torná-la apelativa! Gosto de canções que te fazem mexer o rabo e parar de pensar. Acho que os anunciantes gostam da mesma coisa (risos). Então não tem problemas em vender as músicas para anúncios? Não, isso é um sentimento de culpa da treta dos roqueiros dos anos 70 misturado com a raiva punk dos anos 80. Por alguma razão, acham que é mais nobre ser lixado por uma editora do que por uma marca, que isto é tudo uma treta artística. Não é nada artístico: é por isso que se chama "show business", e não "show friends" ou "show give it away". Não estou aqui para salvar baleias, estou aqui para abanar a pila, divertir-me e fazer dinheiro. Diz que gostava de fazer a banda-sonora para um filme. De que tipo? Um porno! Não, a sério, gostava de trabalhar num filme de acção e aventura com o Bruce Willis. E fazer uma rocalhada dos diabos para ele partir aquilo tudo! Eu posso criticar Hollywood mas é só porque adoro aquilo tudo! Para o bem ou para o mal, os actores influenciaram muito a minha vida. Bruce Willis fez-me querer ser um certo tipo de homem, John Wayne deu-me vontade de ir para o exército! Eu olho para eles com reverência e espero muitíssimo deles, porque têm o melhor emprego do mundo. Entrevista: Lia Pereira Originalmente publicado no suplemento Optimus/BLITZ de setembro de 2009