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NOS Primavera Sound: Jungle são os 'modernos' dos anos 80, Ariel Pink não sabemos

Ninguém tocou ao mesmo tempo que Antony the Johnsons. Depois, claro, foi um ver-se-te-avias : Run The Jewels (crónica para depois), Jungle e Ariel Pink em simultâneo.

Há algo de notoriamente anacrónico nos londrinos Jungle, que começaram a sua atuação no palco Super Bock logo a seguir ao último suspiro do concerto de Antony. Coletivo musical numeroso (a lembrar abastança de outros tempos), o grupo formado em 2013 faz o que poderíamos denominar de soul moderna. Mas de uma modernidade retro: é a soul moderna dos anos 80, herdeira do funk dos anos 70, em que os sintetizadores ganham predominância. Fundados pelos amigos de infância Tom McFarland e Josh Lloyd-Watson, os Jungle são uma equipa de sete elementos perfeitamente sintonizada num propósito: excitar. Conseguem-no, já na madrugada deste domingo, numa altura em que a oferta no NOS Primavera Sound é rica e aturada: logo ali acima, no palco ATP, evoluem os rappers Run The Jewels; mais distante, Ariel Pink leva uma turba heterogénea ao palco Pitchfork. Ouvimos acordes pesados, uma bateria sincopada a rebate de uma percussão tropical(iente), um baixo infalível na missão de segurar a parada, falsetos gingões. Nada disto é imitação barata: mesmo que boa parte do repertório e da atitude dos Jungle soe a uma emissão mais funky do "So 80's" da MTV, canções como "The Heat" têm tudo para vingar neste verão de 1987, perdão, 2015. Sem o dom da omnipresença, abandonamos o bem composto palco Super Bock para tirar o pulso a um homem de cabelo pintado de louro e um vestido feminino com um voluptuoso corpo de mulher estampado. Canta uma espécie de balada de crooner schlager, amnésico, nos anos 80, cheio de eco na voz, a que deu o nome de "Picture Me Gone". São 7 em palco, com ênfase nos teclados (três homens para tocar teclas) e, sem que tenhamos tempo para decidir se isto é ironia fina ou apenas um surto de mau gosto, o combo atira-se a um desaustinado exercício prog à Goblin que, valha a verdade, não lhe assenta mal. Já Pink, agora de t-shirt "pink", parece estar num mundo à parte do resto da banda - a medida do seu desajuste é também, cremos, um fator inestimável na aferição do seu eventual encanto.