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Natalie Prass hoje no Vodafone Paredes de Coura: "Quando me perguntam 'porque não escreves uma canção à moda da Adele?' respondo

Artista norte-americana estreia-se em solo nacional hoje, no último dia do festival Vodafone Paredes de Coura. A BLITZ falou com ela e a entrevista pode ser lida aqui, na íntegra.

Ela faz canções aprumadas e maravilhosamente orquestradas, resgatando os melhores tempos da Motown e conferindo-lhes aquele sabor de desgosto que faz abanar os nossos corações. Assim será, também, hoje em Paredes de Coura, onde se estreará por cá. É apenas o seu primeiro disco mas não parece. O que retiramos das nove canções presentes em Natalie Prass é uma maturidade extraordinária, sintoma de que desde os seus EPs de teste, editados em 2009 e 2011, Natalie Prass teve oportunidade de crescer imenso como artista. Tal como quase todos os belos discos que se atiram ao romance, Natalie Prass nasceu de um desgosto, que hoje em dia já faz parte do passado mas cuja história se eternizará nestes temas. Com uma ajuda preciosa do amigo Matthew E. White, Natalie Prass atirou-se de cabeça para a sua carreira a solo, com resultados à vista é já considerada uma das melhores novas vozes da atualidade e o seu registo de estreia tem agregado elogios atrás de elogios. Ao telefone dos Estados Unidos, em vésperas de se apresentar no Pitchfork Music Festival, falou sobre o caminho que percorreu até aqui chegar.

Com que idade começou a fazer música? Aprendeu a tocar algum instrumento na infância? Escrevi a minha primeira canção na primeira classe. Era sobre "a última flor na terra"... Amoroso, eu sei! (risos) Sempre fui uma criança meio emotiva e dramática, à procura dessa última flor. [O que sei] devo-o, definitivamente, ao meu pai, que não é músico [profissional], mas costumava tocar guitarra e compor canções em casa. Sempre que ele tocava, eu ficava fascinada a vê-lo, a fazer perguntas do género "que é isso que estás a tocar?". Mas não foi ele quem me ensinou [o que faço hoje]. Os meus pais nunca me propuseram ter aulas de música, diziam-me para aprender por mim própria. Sendo a filha mais nova da família, eu estava sempre embrenhada no meu próprio mundo, chegava a casa [da escola] e punha-me a fazer de conta que estava a tocar num bar, ou assim...

Esses mundos próprios e a propensão para "fazer de conta", estão consigo desde sempre; na adolescência era apaixonada por jogos de interpretação [LARPs]... Sim! Comecei a participar em LARPs aos doze anos. É uma idade assustadora: o corpo começa a mudar, as emoções estão à flor da pele... E as LARPs eram, para mim, uma forma de libertação, permitiam-me fingir ser outra pessoa. Não que tenha pensado seguir uma carreira de atriz (risos). Achava divertido fazer máscaras, desfrutar da infância dessa forma.

Esse relato de uma infância feliz é interessante ao escutarmos o seu álbum. Lembra uma banda-sonora para um qualquer filme da Disney... Não concordo com isso, mas aprecio o elogio. As bandas sonoras dos filmes da Disney, especialmente os mais antigos, são tão boas! O meu filme [da Disney] preferido de sempre creio que é A Bela e o Monstro, porque me revia na Bela: ela gostava de toda a gente, era incrivelmente simpática, tinha conversas com candelabros falantes... E apaixonou-se por alguém por aquilo que ele era, mesmo que parecesse um monstro.

O disco é incrivelmente pessoal. Ao terminar as gravações, sentiu algum tipo de catarse, como se estas canções lhe tivessem permitido ultrapassar um mau período da sua vida? Completamente. Escrever uma canção sempre foi, para mim, uma maneira de me endireitar. Sinto-me sempre melhor depois de compor. Quando crias [uma canção], tens de olhar para dentro de ti, perceber o que tens a dizer, como vais dizê-lo, que emoção queres mostrar... Aprendes muito sobre ti quando compões.

Que o álbum tenha tido como título o seu próprio nome foi disso símbolo?  Se o álbum tivesse saído em 2012, quando o completei, teria certamente tido um título adequado. Como ficou na prateleira durante três anos, tornou-se numa coisa completamente diferente, algo muito maior, muito mais assustador. É um disco que significa muito mais para mim hoje em dia. Daí que não pudesse, simplesmente, dar-lhe um título qualquer. É o que é, não lhe consigo colocar uma legenda.

É um álbum sobre um desgosto amoroso, mas soa incrivelmente bem-disposto. Não será um paradoxo? Há uma canção que é um bom exemplo [de comparação] para o meu disco: "Band of Gold", da Freda Payne. É uma história triste, mas a canção em si é dançável e alegre! Quando a ouvi pela primeira vez, não percebi realmente o que queria dizer, e só posteriormente é que pensei no quão depressiva era... Os seres humanos são complexos. Sinto que conseguir dar um passo em frente e fiquei melhor pessoa por isso. Costumava [combater o desgosto a] pintar... Os meus quadros eram muito emocionais, muito coloridos. E passei um semestre a ouvir Beach Boys, interessei-me muito pela história deles.

Já teve a oportunidade de ver Love & Mercy [filme biográfico sobre Brian Wilson]? Ainda não, não tenho tido muito tempo. Adoro o Brian Wilson, acho-o um génio. É muito autocrítico, com uma mente tão brilhante, mas é uma pessoa tão sensível... Tal como o meu pai no minuto em que lhe dizem algo que soe a uma crítica, ele desfaz-se. Quando vejo o Brian Wilson, lembra-me muito o homem com quem cresci. [Nesse semestre] interessei-me muito pela dinâmica dos Beach Boys; a música soa alegre, mas eu tenho noção de quão atormentado se deve ter sentido o Brian, sempre à procura de aprovação, com a banda a desmoronar-se.

Quanto tempo levou a gravar e a produzir o seu disco? Comecei por trocar e-mails com o Matt [Matthew E. White, produtor] quando tinha 24 anos. Fiz várias viagens até Nashville, no Tennessee, para que pudéssemos trabalhar no álbum. As gravações começaram em dezembro de 2011 e prolongaram-se até janeiro do ano seguinte. Foi muito intenso; o Matt é fantástico, muito organizado, e quando estás a gravar um disco, precisas que alguém o seja [risos]. Ele planeou tudo, até os horários dos músicos.

Disse numa entrevista que queria que a sua música fosse genuína. Que significa para si "genuíno"? Quando estava em Nashville, vi muita gente a compor e a dar concertos e a fazer escolhas criativas [que estranhei]. Pessoalmente, acho que começas a perder aquilo que eu considero que seja "genuíno" quando pensas demasiado naquilo que as outras pessoas vão gostar de ouvir, ou naquilo que achas que vai dar dinheiro, ou naquilo que um editor ou editora poderão achar interessante o suficiente para te contratarem. Isso para mim é a morte do artista; já não estás a criar arte, não estás a fazer coisas que poderão eventualmente mudar o mundo ou a arte em si. [Quando assim é] porquê sequer tentar? Precisas de criar coisas nas quais acreditas pessoalmente. Eu procuro sempre desafiarme e desafiar as pessoas, os ouvintes. Quando me perguntam algo como "porque é que não escreves uma canção à moda da Adele?", respondo torto. Sou eu, é a minha voz, a minha história. Isso é que é ser genuíno.

Na grande maioria dos artigos escritos sobre si há um enfoque no passado, tanto no que toca à sua sonoridade baseada na soul e na folk dos anos setenta como à relação amorosa que viveu e que deu origem a estas canções. E o seu futuro, como será? Onde se vê daqui a alguns anos? Quero que a minha carreira dure por muito tempo, quero ser vista como alguém que manteve a sua integridade. As mulheres e homens que admiro são pessoas que foram fiéis a si mesmas e ao seu estilo, gente que fez música que hoje em dia pode até nem passar na rádio mas que perdura no tempo, que teve uma carreira que lhes permitiu fazer o que quiseram. Mulheres como a Carole King, Dusty Springfield, Diana Ross... Acima de tudo quero ser forte e continuar a criar.

Entrevista realizada por Paulo André Cecílio e publicada na BLITZ Fest #8.