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Moonspell na América, por Fernando Ribeiro: Viva o México, Umberto Eco e os shots para matar elefantes

O vocalista da banda portuguesa escreve sobre a digressão no outro lado do Atlântico. Leia aqui o diário de bordo.

Regeneração Leva uns dias. Dias que não temos. Primeiro, são as conversas ao lado. Os amigos que cobram, indiferentes ao facto de teres estado fora, de ter havido mortes, nascimentos, festas de anos, quilómetros e minutos, longos como um túnel sem fim. São as mãos e os pés que desincham, o corpo que finalmente se habitua a uma cama que não se mexe. Os ouvidos sensíveis ao silêncio. O pessoal mal-educado nas ruas, as coisas que não interessam para nada, as polémicas que te aguardam na internet. Alguém aborrecido, alguém frustrado, alguém que mora em Portugal e daí não sairá, apesar das viagens em low-cost, das fotografias em Paris com a Torre Eiffel ao fundo, ou das críticas deixadas nos sites dos hotéis, a mim ninguém engana.

Quando finalmente nos reabituamos a tudo isto, ouvimos o fecho correr, temos as malas feitas, telefonamos ao Sr. do Táxi, sempre na esperança e no medo que ele não nos falhe às 5 da matina. E, como num passe de mágica, sem lágrimas desta vez, sem acreditarmos, que estamos 12 horas dentro de um avião (com internet e dezenas de filmes, brave new world), que nos despeja numa fila enorme de imigração. Cá fora do aeroporto da Cidade do México, os melhores fãs do mundo esperam e a sua hospitalidade e simpatia empresta-nos uma casa, quase a 9000 kms de distância. Descansamos entre os seus abraços, fotos, presentes e autógrafos e encontramos amigos. Amigos que trabalham para o promotor mexicano que há exactamente 17 anos atrás nos trouxe pela primeira vez a esta cidade que nunca acaba. O imenso Circo Volador chamava-se então Cinema Pancho Villa, claro está, mas passados estes anos todos, o seu espírito mantém-se intocável. O dia a seguir começa tranquilo, apesar do acordar encharcado em jet-lag e continua tranquilo até à noite onde nos esperam os braços abertos dos fãs mexicanos, a sua voz, alta, poderosa, em coro, afinada e o seu sorriso de contentamento que nos reanima e nos dá força para esquecer as amarguras desta vida de regressos e partidas.

O concerto é uma emoção. Nós, eles. Eu, tu. Nós. Todos. Juntos. O México é um país de Arte e Cultura, onde as pessoas, mesmo as mais pobres, celebram a sua identidade. Não há CCB's para entreter a classe média com um Vivaldizito à tarde; não há supermercados de cultura e, porventura, não se vende gin para beber enquanto se finge ler um livro do Eugenides, só como pretexto para por os óculos de massa. A cultura aqui é nas ruas, teatros, e, porque não, hoje, na variante Metal, Gótica, épica, dentro do Circo Volador que enquanto estas pessoas simples mas de coração gigante quiserem estará sempre cheio e esgotado e único. Amo vir ao México, tenho cá amigos, li o Juan Rulfo, vou ler o Macário, estive nas ruas para as quais o Burroughs fugiu quando matou a mulher, armado em Guilherme Tell.

Estive nas pirâmides Aztecas de Teotihuacan, no museu de Antropologia e História Natural e, acima de tudo, comi onde os mexicanos comem: fora dos hotéis, nas ruas, nas taquarais onde os gringos não põem os pés. Bebi shots de mezcal à tarde, sem exageros, como os homens das aldeias, por prazer e força e não para impressionar um bar aos gritos. Isso deixamos para os Estados Unidos. Queria fazer um grande elogio ao México: já está. Viva México. Don't mess with Texas Entramos nos EUA. Ambiente completamente diferente. O primeiro dia é feito de nada mais que caos. Aproveitamos o sol escaldante de Austin e andamos pelas ruas. Esta cidade é, muito provavelmente, a capital do entretenimento do Lone Star State. As ruas sempre cheias de personagens: as damas de honor, os bêbados, os hipsters, os músicos, as bailarinas exóticas, o coyote bar, mamas por todo o lado, olhos por todo o lado, entre cervejas, shots e um carpe diem que roça o vazio.

Um ou dois anos antes de entrar na Faculdade de Letras em Lisboa (1992) ouvi falar de uma visita do Umberto Eco à universidade. Não me recordo se foi na Aula Magna ou se foi no Anfiteatro 1, mas contaram-me que havia gente pendurada nas janelas, que a sala rebentava pelas costuras e que as pessoas lutavam por um vislumbre da maior estrela rock das Humanidades. Sempre gostei dele. Por muitas razões. Uma das quais é que me ajudou a perceber a América. Penso que nos anos 80 Umberto Eco reuniu num livro as suas crónicas/observações sobre as suas viagens e experiências nos EUA, quando por aqui andou, em tour, mas de ideias. O livro, em português, foi chamado (alguém de certeza tomou um ácido antes) Viagens de uma Irrealidade Quotidiana, ou algo que o valha. Num dos textos Umberto Eco define os Americanos, dos EUA (há outros, o continente é bem grande!) como aqueles que conseguiram criar a Branca de Neve mas também o Tubarão; e, que para além disso, também conseguiram arranjar espaço na sua cultura para prestar culto a ambos. Esta descrição é exacta. Austin, por exemplo. Enquanto tomamos uns shots no bar ao lado, praticamente arrastados por fãs que não aceitam um não, e que parecem que a qualquer altura se vão esquecer de que somos uma banda de quem gostam, e partir-nos uma garrafa na cabeça; observo uns dos empregados que nos atende. Em Portugal seria um parvo, um asshole, mas aqui é só mais um que dá com uma mão e tira com a outra. Texas. Tubarão e Cinderela.

O concerto é num bar, tipo Roadhouse/Patrick Swayze, corre bem, há gente por todo o lado, até onde não devem, fãs das bandas, fãs de si mesmos. Austin tem uma cena musical vasta e intensa, e de todas as portas sai música de ondas completamente diferentes e as pessoas vagueiam pelas notas da noite, sem copos na mão (proibidíssimo!), acostando aos bares com a sua dinâmica welcome-drink up-get the fuck out. Isto não é o México e o Tex-Mex não vale, é uma ofensa para ambos os lados. Mas fazer o quê? Estamos cá, sai mais uma PBR (cerveja) e um desses shots para matar elefantes. Assim não há jet-lag que me tire umas já merecidas horas de sono.

On the Road (again?) Depois de Austin. Dallas. Terra dos Ewing, do assassinato de JFK. Jaws, Pocahontas. O céu torna-se negro ainda de dia, e vemos na net um alerta de tornado. Não passa por aqui, há outro Texas que hoje terá esse problema mas juntem o tempo ao dia de semana e temos uma sala a um optimista meio-gás, que, em todo o caso, é hospitaleira. De resto, o Rail Club é um clássico: green room (assim se chamam os camarins aqui), bom palco, boas luzes, bom som, e isso para uma banda é ouro, e não importa se é aqui ou na Nicarágua. O rock também se faz com o que há mas é melhor haver mais que menos ou nada. Entramos então no espírito e finalmente em El Paso temos um mini-México à nossa espera. Pessoas que viajaram de Juarez, de Chihuahua e que compraram muitos bilhetes, livrando-nos de tocar num clube muy chiquito, no qual nem se conseguiria montar a bateria, para irmos para uma sala melhor com uma equipa fantástica que tudo fez para nos receber. Para já, e para mim o melhor concerto da tour, graças ao toque mexicano.

Não me interpretem mal! Temos fãs americanos, seja a vossa definição de americanos boa, má, precisa ou sonhadora. Mas muitas vezes penso que os Mexicanos (e outros hispânicos) estão para os nosso concertos assim como estão para a economia norte-americana. São a sua principal força de trabalho, força motriz e talvez os nossos concertos estivessem vazios se não fosse esta comunidade. Tão certo como a economia norte-americana, que pararia se um dia todos se fossem embora para o seu belo país. Chegamos ao deserto com uma rapidez americana. Já aqui estivemos. O dia é pacato, o concerto bom, e as histórias parecem que se repetem, sabem? As mesmas irmãs mexicanas, fãs enquanto sóbrias, loucas depois de ultrapassarem a dose; a miúda tatuada da rádio que nos prega um cagaço com a sua introdução de programa feita aos berros. O deserto é sereno embora se chame Sonoran. Em Ramona, chegamos à Califórnia. O concerto é como a cidadezinha: pacata, respeitadora, com os inevitáveis mexicanos e mexicanas aos gritos. Chamam Kabrona à Ramona. Também eles têm uma luta dentro de si. Sim, porque o que é esta vida senão uma luta? E tal como as batalhas importantes, desconhecemos o seu desfecho e a sua recompensa. Hey, nem sabemos se vamos perder ou não. Dou uma volta pela antiga Las Vegas, uau que vida a tua, brutal, o que acontece em Vegas, fica em Vegas. Bem o mais certo é não acontecer nada. Depois vos conto. Ou não. Fernando Ribeiro, Moonspell, Las Vegas Abril de 2015 Fotos: Fernando Ribeiro e Krimh