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Menina já entra: leia depoimentos de Cláudia Guerreiro e Rita Redshoes sobre Kim Gordon e os Sonic Youth

Xana (Rádio Macau) e Francisca Cortesão (Minta) explicam também como é ser mulher na música, em Portugal, a propósito do artigo de capa dos Sonic Youth na BLITZ de abril e do livro de Kim Gordon, Girl In a Band.

Rita Redshoes O livro da Kim Gordon está na minha lista de compras e leituras! Quero perceber de que forma conseguiu gerir os vários processos ao longo da carreira: eventuais discriminações, sucesso, solidão. Enquanto estive nos Atomic Bees não me dei conta de uma data de questões; era uma banda em família ou quase, sentia-me protegida e apoiada. Quando fui tocar com o David [Fonseca] a coisa mudou de figura. Embora tenha sido sempre respeitada, senti que teria de mostrar o porquê de ter sido convidada. Tive que dar provas, o que foi ótimo, fez-me crescer enquanto música e mulher. O meio musical é maioritariamente de homens e, daquilo que percebo, eles têm uma dinâmica interna, mais uniforme, logo, aproximam-se e comunicam mais facilmente entre si. As mulheres ainda são a exceção e as dinâmicas são mais difíceis de normalizar.

Cláudia Guerreiro (Linda Martini) - na foto Tenho curiosidade em saber como é que a Kim Gordon lidou com a gravidez e o crescimento da filha. Eu aprendi a tocar guitarra aos 12 anos, com o meu pai, mas daí a entrar numa banda é diferente. Acabava por ser sempre substituída, porque os rapazes achavam que ter uma rapariga numa banda era só uma questão de estilo e no fundo ela não tinha capacidade. Fui substituída por pessoas que tocavam mil vezes pior que eu, só porque eram gajos! Os meus pais tinham, também, um grande preconceito. A minha mãe detestava que eu fosse ensaiar, perguntava-me: mas vais com essa roupa? Achava suspeito uma mulher estar no meio de homens, com 16 anos, sem os pais poderem controlar. Penso que o preconceito está a desaparecer e cada vez há mais mulheres a tocar. Mas raríssimas vezes usei decotes ou me pintei num concerto, não quero destacar-me por isso.

Xana (Rádio Macau) Já não é tão invulgar o trabalho na música, por parte de mulheres. Todas nós temos de fazer o nosso papel na geração em que existimos. Pensamos muito no rock, mas na música clássica há muitas mulheres a tocar. O rock e a pop exigem uma exposição pública muito mais violenta, o que pode ser constrangedor. Na música e nas outras artes, as pessoas têm de investir mais. São elas que têm de o fazer, porque neste momento já não temos censura ou ditadura - é uma questão de vontade.

Francisca Cortesão (Minta)  Quando a Playboy publicou um tweet sobre o disco da Neko Case, em que a referia como "pioneira" entre as mulheres na indústria musical, ela respondeu-lhes, com linguagem adequadamente colorida, que não era uma "mulher na música" mas sim um "músico na música". Sonho com o dia em que isto deixe de ser assunto. Felizmente, acho que já esteve mais longe.

 

Para ler as 14 páginas sobre Sonic Youth na BLITZ de abril, consulte a revista, já nas bancas.