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Mayra Andrade esta semana no Misty Fest: "Lovely Difficult era a alcunha que o meu ex-namorado me dava"

Artista cabo-verdiana é um dos nomes fortes da edição deste ano do festival e atua nos próximos dias no Porto, Lisboa e Figueira da Foz.

Mudou-se de armas e bagagens para Lisboa há pouco tempo - depois de 14 anos a viver em Paris - e diz que veio à procura de "casa". A cabo-verdiana Mayra Andrade já começa a pensar "que é o momento de começar a pensar" num novo álbum de estúdio (Lovely Difficult saiu para as lojas há dois anos) e falou com a BLITZ antes de se apresentar na edição deste ano do festival Misty Fest.

Os três concertos estão agendados para esta semana, no Coliseu do Porto quarta-feira no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, na quinta-feira e na Casa das Artes e Espetáculos, na Figueira da Foz, no sábado. Em Lisboa e no Porto, Mayra Andrade terá como convidados especiais Sara Tavares e Pedro Moutinho. Os bilhetes estão à venda nos locais habituais, custando entre 15,00 e 28,00 euros para o Porto, entre 15,00 e 40,00 euros para Lisboa e 20,00 euros para a Figueira da Foz.

Está constantemente a compor ou só se concentra mais quando consegue ter tempo para parar? Às vezes gravo algumas ideias no iPhone, mas fica um baú totalmente desorganizado onde depois vou buscar coisas para trabalhar. Geralmente, como faço muitos concertos e viajo muito, dedico-me mais quando paro mesmo. Há quem consiga compor o dia todo e todos os dias... É o que desejo, mas por enquanto não é assim.

Normalmente, o que surge primeiro é a palavra ou o som? É o som. Raramente escrevo letra antes de música. Já aconteceu, mas é muito raro, o que também é um problema... É mais fácil criar uma música em cima de uma letra do que o contrário. Crio melodias às vezes um bocadinho tortas e como quero conservá-las como estão tenho de contar uma história com o número de sílabas exato para caber naquela frase... Enfim.

Também depende disso a língua em que escolhe cantar determinada canção? Já escrevi em francês e português, mas escrevo essencialmente em crioulo porque há muita gente para escrever em francês e muito boa gente para escrever em português. Fazendo algo que seja muito pessoal e contemporâneo, prefiro colocar o crédito no cesto do crioulo, contribuindo para que haja mais músicas cabo-verdianas com essa minha sonoridade.

O facto de Lovely Difficult ter um título inglês tem a ver com o facto de se sentir cada vez mais uma cidadã do mundo e de o inglês ser uma espécie de língua universal ou há outra explicação? Lovely Difficult é um nickname que o meu ex-namorado me dava. O nome do disco foi esse porque este disco é resultado de uma transformação muito íntima que sofri nos últimos anos. Achei que fazia sentido que, sendo a minha cara, tivesse um nome meu também. Por acaso foi gravado em Inglaterra, portanto também é um piscar de olho... E tem músicas em inglês, mas isso é secundário.

Sente que lhe abriu mais portas no mercado anglo-saxónico? Não, nem por isso. Talvez tenha atraído um público um bocadinho mais jovem, que se identifica com a sonoridade mais pop, mas não tanto pelo inglês.

No seu trabalho, quando está a gravar ou na estrada, vem mais ao de cima a faceta lovely ou difficult? Mais lovely, claro. (risos) Sou uma pessoa muito exigente comigo mesma e também com os outros, mas o lado lovely tem vindo a prevalecer ou a domesticar o lado difficult. Quem me conhece realmente, não falo de quem me vê passar ou ouve falar e tem uma determinada ideia minha, geralmente diz que sou muito mais lovely do que difficult.

As barreiras linguísticas afetam-na ou é-lhe natural pensar e cantar em qualquer língua? Não é tão natural para mim cantar em inglês quanto em crioulo. O crioulo vem de um lugar muito profundo, vem das entranhas. Digo que cada língua vibra num lugar diferente do corpo. Não sei se consigo, mas tento passar a mesma intensidade a cantar em qualquer língua. Trabalhei com um coach de teatro inglês a pronúncia das músicas em inglês porque não é a minha língua materna, nem uma língua que domine como domino o português, o francês, o espanhol ou o crioulo... É certamente menos natural, da mesma forma que não se podia dizer que a Nina Simone a cantar o "Ne Me Quitte Pas" em francês era natural. É normal.

Que outras línguas, das que não fala, gosta de ouvir cantadas? O italiano, apesar de a música pop italiana me deixar um bocadinho reticente, mas também não sou uma especialista. Gosto de ouvir cantar em árabe e o ioruba, da Nigéria, é uma língua que soa muito bem. Há também uma língua dos Camarões, o duala, na qual o Richard Bona canta, que soa muito bem.

Conhece as Ibeyi? Elas cantam em ioruba. Conheço-as muito bem, desde pequeninas. O meu ex companheiro, o que me deu o nickname "lovely difficult", foi padrasto delas anos antes de me conhecer. Conheci-as há oito anos. A Lisa começava a ter aulas de piano, a Maya, que é a mãe delas, brigava com a Naomi para ela ir trabalhar o cajón.

Deu um concerto no festival do Sudoeste há uns anos, canta em festivais de jazz, em eventos da dita world music... É fácil sentir-se em casa em eventos com filosofias tão diferentes? Depende do reportório e do projeto que estou a defender no momento. Nem todos os projetos se adequam a todo o tipo de espaço e a todo o tipo de festival, simplesmente porque a escuta não é a mesma. Mas sinto-me bem onde as pessoas me quiserem acolher e ouvir. Quando se vai a um festival de jazz, normalmente as pessoas estão sentadas a ouvir, num festival como o Sudoeste as pessoas estão em festa. É preciso adaptarmos ao máximo o reportório ao sítio e ao público. A música ao vivo é isso mesmo, adaptarmo-nos ao que temos à frente.

Se o belga Stromae lhe propusesse um dueto, aceitava? Com certeza! Quando saiu o "Alors on Dance", logo o primeiro single, muita gente achou aquilo um bocado esquisito mas eu pensei logo que aquele tipo era um visionário. É um artista muito completo. Eu sou um bocado à antiga, porque não sou tão multitasking... Tudo nele é um conceito: a roupa, os vídeos, a dança, a música... É muito talentoso mesmo.

Ele fez uma homenagem a Cesária Évora no último disco... Foi o momento mais bonito do concerto que vi. Já me cruzei com o Stromae umas três vezes, mais ou menos, e essa homenagem que fez à Cesária deixou-me arrepiada durante quatro minutos. Foi no Bercy, não sei quantas mil pessoas a cantar aquilo e ele a pedir palmas para a Cesária Évora. Fiquei completamente emocionada.

Qual a coisa mais inesperada que tem no seu leitor de mp3? Não sei... Talvez kizomba e zouk, muita gente não imagina que ouço isso. Dizem-me "tu ouves kizomba?". Ouço e gosto muito. Tenho r&b, hip-hop... Será que as pessoas se surpreenderiam por eu ouvir um qualquer estilo de música? Talvez heavy metal, mas não tenho heavy metal. Sorry!

Começou a cantar muito cedo. Sente que se as oportunidades certas não tivessem aparecido, hoje poderia ser feliz a fazer outra coisa qualquer? Quis ser psicóloga clínica durante muitos anos, mas sempre tive ideia de fazer isso paralelamente, como se a música nunca pudesse não ser uma opção. Não sei dizer o que seria a minha vida sem a música... Se acontecesse alguma coisa e não tivesse opção faria outra coisa, porque a vida continua, mas sempre tive a certeza de que enquanto a música me der felicidade continuarei a cantar.

É isso que quer da música? Sim. Não preciso da música para viver, não no sentido económico mas no de estar bem. Não tenho de estar sempre a cantar. Até gosto de estar longe da música, faço temporadas em que desligo, porque gosto de ter um prazer sempre renovado quando volto para a música. É a única forma que tenho de ser sincera quando canto, estar um bocadinho longe também... É como nas relações amorosas. Passo muito mais tempo sem ouvir do que a ouvir música. E quando ouço, são coisas que musicalmente podem até ser muito duvidosas, porque me desligam. É como ver um programa de televisão tonto, que te desliga do quotidiano e dos problemas. Gosto de ouvir música que me faz ter vontade de dançar, mas não necessariamente de pensar ou analisar.

Entrevista de Mário Rui Vieira