Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Mark Lanegan ao vivo em Lisboa: O deserto pintado de blues

Norte-americano espalhou a sombra, esta noite, pelo Armazém F. Leia a reportagem e veja as fotos.

Mark Lanegan
1 / 15

Mark Lanegan

Mark Lanegan
2 / 15

Mark Lanegan

Mark Lanegan
3 / 15

Mark Lanegan

Mark Lanegan
4 / 15

Mark Lanegan

Mark Lanegan
5 / 15

Mark Lanegan

Mark Lanegan
6 / 15

Mark Lanegan

Mark Lanegan
7 / 15

Mark Lanegan

Mark Lanegan
8 / 15

Mark Lanegan

Mark Lanegan
9 / 15

Mark Lanegan

Mark Lanegan
10 / 15

Mark Lanegan

Mark Lanegan
11 / 15

Mark Lanegan

Mark Lanegan
12 / 15

Mark Lanegan

Mark Lanegan
13 / 15

Mark Lanegan

Mark Lanegan
14 / 15

Mark Lanegan

Mark Lanegan
15 / 15

Mark Lanegan

Tal como o são os desertos, grande é a alma de Mark Lanegan. O músico norte-americano regressou ao Armazém F três anos após a sua primeira passagem por este espaço (altura em que ainda ia pelo nome TMN Ao Vivo) para apresentar o seu mais recente trabalho, Phantom Radio, editado em 2014. Subindo ao palco a tempo e horas, Lanegan encantou uma sala esgotadíssima que não quis perder um segundo que fosse da voz que, um dia, compararam a Tom Waits. A comparação é justa. Tal como o seu compatriota, Lanegan possui uma garganta talhada pelo blues e pelas dezenas de maços de tabaco e garrafas de whiskey que uma vida amarga obriga a tragar; constata-o a sua vasta discografia, quer a solo, quer com os Screaming Trees, com quem fez carreira nos idos anos noventa. Um par de décadas mais tarde a sensação é, verdadeiramente, a de se estar perante a alma mais solene do grunge. O olhar resvala inevitavelmente para o seu rosto de pedra, poucas vezes expressivo senão para salivar a dor presente em canções como "No Bells On Sunday". Para além dos poemas, de Lanegan ouve-se pouco mais que os agradecimentos da praxe e a apresentação da banda que o acompanha - que não prima por menos do que a excelência, diga-se de passagem. Impecavelmente vestido de negro, qual pregador diante de várias dezenas de convertidos, Lanegan mostra-se, a início, com a crueza e nudez do blues mais solitário, fazendo-se acompanhar apenas pelo seu guitarrista em "When Your Number Isn't Up", "Judgement Time" e "Low", com a plateia ainda a reagir em ritmo baixo - mas, afinal de contas, até Cristo precisou de vários sermões; e pese a beleza do momento intimista, é com toda a banda presente em palco que Lanegan consegue soltar cá para fora a fúria escondida dentro daquelas canções, redigir no sangue dos presentes cada qual das palavras que profere. A mirror holds no gaze / Just a beacon dying / All I know, in a way / I think it's me that's crying, da supracitada "No Bells On Sunday", enternece qualquer pessoa. Apetecer-nos-ia abraçá-lo se não soubéssemos já que esta dor é apenas dele. Claro que a partilha com o mundo, mas a sua assinatura, o seu logos, encontra-se definitivamente lá marcada. Não ousemos pegar nas suas palavras e torná-las nossas, como se faz com tantas canções pop. Lanegan é um duro sensível, mas um duro, antes de mais. A pesadona "Gravedigger's Song", um dos momentos em que o rock ecoa pelas paredes da sala lisboeta, atemoriza. Depois disso, o funk pela mão de "Harvest Home" receberá uma estrondosa ovação: a audiência estava, finalmente, rendida. Não se pode separar Lanegan de uma certa ideia de América. O velho oeste, o deserto imenso, edifícios de madeira seca que escondem bordéis prenhes de fumo e cio. E a saudade de não haver mais território por desbravar: "One Way Street" apodera-se suavemente da sala e transporta-nos para um filme alienado. Com "Hit The City", canção que canta a meias com PJ Harvey, retirada de Bubblegum, álbum de 2004 que marca o início de um hiato a solo que durou oito anos, Lanegan empolgou definitavemente os muitos que se aconchegavam junto ao palco ou no vão de escada do Armazém F. Pelo meio, houve ainda tempo para "Deepest Shade", uma versão de um tema dos Twilight Singers. Naquele que é o seu penúltimo concerto antes de terminar a digressão para Phantom Radio, Lanegan conseguiu envolver o público na aura pesarosa que emana, fez sorrir através do caos. Pouco mais de uma hora e meia foi suficiente para satisfazer todos quantos se deslocaram até ao Cais do Sodré. E como se não bastasse, termina em grande com um encore onde se pôde ouvir a fabulosa "Methamphetamine Blues", "I Am The Wolf" e ainda a psicadélica-ao-ponto-da-dança "The Killing Season". Tal como há três anos, recebeu um público vindo de um Benfica x Braga. E, tal como há três anos, deixou uma audiência orando a seus pés. PAC Fotos: Rita Carmo/Espanta Espíritos