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Mark Kozelek muda de pele no Porto

Com os Sun Kil Moon, o norte-americano deu um concerto especialmente intenso no palco Pitchfork. A libanesa Yasmine Hamdan foi a convidada inesperada de um dueto (quase) sem palavras...

"Mas que banda é esta a fazer barulho durante o meu concerto?", vocifera, já perto do fim do espetáculo, Mark Kozelek. As orelhas arrebitam-se, os smartphones empertigam-se em posição de partilha automática na rede social de eleição. Mas o senhor Sun Kil Moon, ex-senhor Red House Painters, não quer implicar com o som dos Replacements, que a essa hora tocam no palco NOS. "Estou a brincar!", esclarece logo a seguir. Tudo não passara, afinal, de uma alusão jocosa ao episódio que, no ano passado, só não fez correr tinta porque a novela se passou sobretudo online: o dia em que o "velho Koz" se queixou do som dos War on Drugs num festival onde ambos tocavam ao mesmo tempo e as inacreditáveis tiradas que daí nasceram.



Nos últimos meses, o cantor, compositor e guitarrista tem sido notícia sobretudo por pantominices do género - ainda há poucos dias causou polémica em Inglaterra, ao dedicar uma canção, algures entre o trocista e o agressivo, a uma jornalista que o quisera entrevistar presencialmente. Contudo, além das polémicas, (sobre)vive o talento de Mark Kozelek, que ainda há uma semana víramos em Barcelona. E se nessa noite comentámos que o homem do Ohio estava a cantar, nalguns temas, com uma nova contundência, hoje no Porto a metamorfose parece ter-se completado.



Inicialmente, confessamos, é estranho ver o cantor do timbre de mel a cantar de forma quase apunkalhada canções como "Ben is My Friend" ou "Richard Ramirez Died Today of Natural Causes", ambas do aclamado Benji, do ano passado. Contudo, não será esta a tradução vocal mais literal de uma obra (recente) que tem por matéria-prima cancros da próstata, experiências sexuais embaraçosas, serial killers e a omnipresença geral da morte? Foi neste estado de espírito que nos deixámos arrepiar com "Dogs", relato tão constrangedor como minucioso do despertar sexual do jovem Mark, ou "Carissa", que parte da morte de uma prima em segundo grau num "freak accident" rumo a uma reflexão maior sobre a família, o sangue e tudo à volta.



Com Steve Shelley, ex-Sonic Youth, na bateria, Mark Kozelek convidou ainda Vasco Espinheira, dos Blind Zero, com quem já tocara, para acompanhá-lo a certa altura. Mas a maior surpresa chegaria com a insistência para que Yasmine Hamdan subisse ao palco; depois de alguma demora, a cantora libanesa, a quem Kozelek se referiu como amiga, lá apareceu e foi avisando que não sabia falar inglês. Nem por isso o nosso herói desistiu de fazê-la cantar, em dueto consigo, "I Got You Babe", de Sonny and Cher, que Yasmine se limitou a trautear, envergonhadamente, para gáudio da plateia e enquanto o amigo a abraçava.



"Gosto muito de vocês! Quem me dera que estivéssemos mais perto. Estou a divertir-me muito!", ouvimos ainda Mark Kozelek confessar, perante uma tenda cheia, que mostrou entender na perfeição o quão especial e genuíno o momento estava a ser. E como se tudo isto não fosse suficiente, ainda convidou o público a entoar consigo parte da letra, tocante e singela, de "Carissa". 



Muita coisa se pode escrever, no ano da graça de 2015, sobre Mark Kozelek, mas que se trata de um performer previsível não é, com certeza, uma delas. E esta noite podemos apostar o nosso casaco mais quentinho (que as noites estão frias) em como estava a sentir cada uma das suas canções.



Lia Pereira