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Manuel João Vieira explica cada uma das 17 canções que fazem parte do CD grátis com a BLITZ

Ao Vivo com 3 Bandas, grátis com a BLITZ que se encontra nas bancas, inclui temas de três projetos do músico até agora inéditos em CD. Aqui, o 'eterno' candidato trata de descrever temas como 'Ser Milionário' ou 'Felícia, a Mulher Polícia'.

Manuel João Vieira anseia, uma vez mais, chegar à Presidência da República e fá-lo agora ainda com mais estilo, oferecendo a todos os leitores da BLITZ um CD exclusivo com "todos os projetos que nunca gravei". Ao Vivo com 3 Bandas é mais e melhor Vieira. E grátis com a BLITZ que estás nas bancas! Gravado ao vivo no Maxime na década passada, Ao Vivo com 3 Bandas fixa pela primeira vez em CD três facetas da investida musical de Manuel João Vieira: O Lello Perdido (fado), Lello Minsk e o Pianista de Boîte (voz/guitarra e piano) e o Quarteto 4444 (rock progressivo/jazz).

Veja aqui o alinhamento do álbum, comentado pelo próprio Manuel João Vieira: 1. A Casinha da Colina É uma canção de origem brasileira. Normalmente abria os concertos de Lello Minsk e Pianista de Boite com essa canção dos anos 20. É uma espécie de paraíso perdido, fora da nossa realidade, e uma canção de amor. 2. Ser Milionário Música minha e letra do Fernando Brito. É um fado. Basicamente, uma caricatura de um certo tipo de milionário, novo-rico, pato bravo. É uma boa canção, mais ou menos destruída ao vivo pelo álcool, mas mesmo assim ainda se aguenta. 3. Sodoma e Gomorra Descreve os comportamentos das amigas de Sodoma e Gomorra. Também faz uma pintura de um certo tipo social. Sobretudo, é uma caricatura da própria visão masculina do feminino. 4. Belinha É o Quarteto 4444 a fazer uma ponte entre um certo tipo de rock sinfónico/jazz e a popular portuguesa quando apropriada pelos grandes cantores do PREC. 5. Ruben Miguel Tem qualquer coisa de José Afonso, sobretudo quando muda a tonalidade. 6. Marta Canção muito antiga feita por mim e pelo João Lucas, numa banda que tínhamos aos 18 anos. Parte da letra foi reescrita, outra parte improvisada. Uma das características do Quarteto 4444 é que há muita improvisação. 7. A Cona da Sacristão É uma canção absurda, não é? É uma letra surrealista, mas diria que é impossível de ser cantada no estado em que estava; é muito rápida e precisa de um tipo de respiração. Pu-la porque o instrumental estava muito bom. 8. Felícia, a Mulher Polícia É a única exceção [aos inéditos] porque já foi gravada no disco dos Corações de Atum, mas gostei desta versão. 9. Coca Dedicada a um amigo meu, que quando cheirava muita cocaína pensava que havia polícias que subiam às paredes do prédio. Droga, loucura, morte: esse triângulo estúpido que de vez em quando consome os nossos jovens. 10. Lenine Foi feita há uns anos por mim e pelo Fernando Brito, mas ele fez a parte mais engraçada da letra. É sobre a desilusão de uma certa esquerda que vê os seus ídolos a morrer, vê os muros a ruir, vê que o fantasma da utopia se está a congelar. A canção é inspirada nas harmonias de José Mário Branco, que é um músico do qual gosto muito. É uma desilusão de esquerda jocosa. 11. Valsa Entretanto já lhe mudei a letra. Começou por ser uma música terna sobre um travesti, daqueles que andam à noite. No refrão, não sei porquê, aparece o Godzilla. 12. Pandora É sobre uma rapariga chamada Pandora e um homem que não a consegue ter. Então, vinga-se com esta letra e com esta música. 13. Procuro-te e Não Te Encontro Foi cantada pelo Tony de Matos, era daquelas maravilhosas que ele tinha. É uma música de dor de corno, labirinto, loucura e procura. Estava bastante bêbedo a cantá-la, dá-me a impressão que repito algumas frases... 14. Déja-Vu É uma canção completamente infantil. Na pronúncia francesa ou açoriana não rima com cu, mas se for com deturpação na pronúncia portuguesa já rima. "Déja vu" e "cu" era uma rima que tinha de ser posta numa canção. Depois tem a parte surrealista das mamas a avançarem pelos montes. 15. Bom Conselho Era cantada por um tipo chamado Joaquim Cordeiro, que era o rei do fado humorístico, um gajo engraçadíssimo. Aqui, há um bêbedo que fala com as estátuas, e as estátuas falam com ele no meio de uma noite lisboeta. 16. Adeus Amiguinhas É uma improvisação feita naquele momento, naquela noite do Maxime. O Quarteto 4444 é um grupo que tenta inventar canções ao vivo. Não se trata apenas de improvisar dentro da estrutura de um tema, mas inventar uma nova estrutura, de repente, e uma nova letra. Enquanto eu não estava demasiado bêbedo isto corria bem - e nesta não estava tão bêbedo quanto isso. Claro que é uma música sobre os tempos que passaram, as amigas que se foram embora, sobre a ecologia e um determinado paraíso que se perde, mas que é encenado naquele momento - nunca se sabe se verdadeiramente existiu. 17. Experimental no Quintal É uma improvisação completamente programática que acho que correu bem. Não é propriamente uma crítica à música experimental. É uma maneira de pegar nas formas da música experimental e utilizá-las para fazer o que normalmente a música experimental não faz: uma canção com uma letra. Foto: José Caria/Impresa Publishing