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Manuel João Vieira: 'Ao preparar este disco surpreendi-me: como é que conseguia estar tão bêbedo e continuar a cantar?'

Candidato Vieira em discurso direto: leia aqui a entrevista que 'acompanha' o CD Ao Vivo com 3 Bandas, grátis com a BLITZ que se encontra nas bancas.

Manuel João Vieira anseia, uma vez mais, chegar à Presidência da República e fá-lo agora ainda com mais estilo, oferecendo a todos os leitores da BLITZ um CD exclusivo com "todos os projetos que nunca gravei". Ao Vivo com 3 Bandas é mais e melhor Vieira. E grátis com a BLITZ que estás nas bancas! SIM, SENHOR CANDIDATO Salsichas são com couve ou sem couve?". Ligamos a Manuel João Vieira a uma hora em que quase toda a população portuguesa já almoçou e apanhamos o eterno candidato (interessados sigam para vieira2016.com) na estação de serviço de Santarém a acautelar o estômago antes de prosseguir viagem para Vila Real de Trás-os-Montes. "Quanto é que é uma sandes de leitão?", pergunta a quem o atende. Sandes de leitão será, depois de um hambúrguer grelhado ser dado como praticamente certo. Já perto da caixa, o nosso interlocutor contorna um pedido de doação para caridade "é muita massa, eu preferia fazer isto num restaurante mais barato" e remata com um "não pretendo fatura". A mastigar nos entendemos. O que vai fazer a Trás-os-Montes? Tenho que ir lá tocar. Vou tocar como Candidato Vieira, sozinho, a solo. Um gajo tem que ganhar a vida. O Candidato Vieira propõe o alcatifamento de Portugal, avanço civilizacional que não é novo no seu discurso. E o turismo? Vai pedir aos espanhóis para se descalçarem na fronteira? Eu acho que as relações entre Portugal e Espanha se jogam noutro patamar. Seriam melhores se Espanha se dividisse em pequenos países, como o País Basco, a Galiza e a Catalunha... Alcatifar Portugal é uma metáfora e não propriamente uma coisa para ser compreendida no sentido literal. Em que medida o seu discurso mudou desde que se apresentou pela primeira vez à disposição dos portugueses em 2001? Fala hoje para um povo mais pobre? Alguns portugueses estão mais ricos, acho que está a ser muito pessimista. Mas não está a falar para uma minoria, ou está? Eu falo para quem me quiser ouvir. Se começarmos a preocuparmo-nos com quem é o destinatário do nosso discurso, então estamos preocupar-nos com coisas que não dependem de nós. Aquilo que depende de nós, como artistas, é o nosso trabalho, e o nosso problema deve ser estético e não pedagógico ou ético-moral. Com que linhas se cose a sua candidatura à candidatura? Lã e algo fio de pesca. Tanto o pastoreio como a pesca são importantes. Há uma enorme coerência no discurso do Candidato Vieira. Existem mudanças táticas, mas não na substância. Isto é tipo Partido Comunista Português... até há pouco tempo. O objetivo é integrar a arte na vida e a ficção na realidade de uma forma diferente daquela que é utilizada hoje em dia pelos políticos e pelos artistas. Como são os políticos que temos? São todos bons, maravilhosos. Não sei qual deles é melhor do que o outro e só tenho coisas positivas a dizer sobre eles. Embora se fossem substituídos por políticos japoneses ou treinadores de futebol também não seria má ideia. Há alguns anos, dizia-nos que a única biografia que tinha lido era a de Adolf Hitler. Serviu-lhe para alguma coisa? Só li umas partes pequenas. Li sempre parcelas de biografias e autobiografias. Sobretudo se estás numa livraria e estás a fazer tempo, uma biografia é uma coisa gira para se ler. Li a autobiografia de Gengis Khan em aramaico e gostei bastante. Quem é, verdadeiramente, o Candidato Vieira? O Candidato Vieira é uma caricatura que é também uma realidade. Se fosse apenas uma personagem de ficção seria uma espécie de caricatura de um político que promete tudo e mais alguma coisa, que tenta prometer mais do que todos os outros e tenta ter uma visão do mundo que se articula no esquema da linguagem política, mas que é extrapolada para um elemento de absurdo a própria linguagem política baseia-se no absurdo, na ficção, na mentira e na falsidade. O Candidato Vieira mostra isso. Em algum momento o Candidato é recipiente ou veículo das crenças do Cidadão Manuel João Vieira? Poderá haver pontos em comum, mas se eu estivesse a fazer do Candidato Vieira que é o candidato de todos os portugueses a minha própria pessoa, isso seria querer estar a governar de um ponto de vista pessoal. Ora, um presidente tem de ser o presidente de todos os portugueses; todos os portugueses são uma abstração, logo o próprio presidente tem de ser abstrato. Eu sou o único elemento neste momento a poder fazer com que as coisas não se resolvam logo à primeira volta. Mas neste momento estou a receber 10 ou 15 assinaturas por dia, o que me parece insuficiente. Se continuar assim, não terei as assinaturas que serão essenciais para derrotar Marcelo [Rebelo de Sousa]. Se eu tivesse tido 15 anos de conversas em família também conseguia. Vamos ao disco novo que temos em mãos. Quarteto 4444, Lello Perdido, Lello Minsk e o Pianista de Boîte: quem são estes grupos? Aqui estão as bandas que nunca gravaram qualquer disco. O Lello Perdido faz fados, o Lello Minsk e O Pianista de Boîte é um dueto com pianista e o Quarteto 4444 é um grupo de rock progressivo. E de onde vieram estas canções? Esses concertos foram gravados no antigo Maxime têm oito, nove anos e são de uma altura em que eu estava permanentemente alcoolizado. Eu agora não bebo tanto e ao preparar este disco surpreendi-me: como é que conseguia estar tão bêbedo e continuar a cantar? O disco é "descomercial" e impossível de vender, e por isso é que tem piada. Ainda pensámos que fosse resgatar aos arquivos os míticos espetáculos "O Artista Português É Tão Bom Como os Melhores", que deu em 2009 no São Luiz, em Lisboa. Lembrei-me disso, mas esse material está num estúdio relativamente longe de minha casa e o técnico de som não me atendeu o telefone. O trabalho está a meio e é para retomar, mas é complicado porque não tenho dinheiro e não tenho secretária... Se se tornar Presidente de todos os portugueses, quem é que fica a tomar conta do Maxime Sur Mer, a sua nova sala de espetáculos? É o Ministério do Maxime Sur Mer... Mas isso só seria possível se fosse Governo. Não está a compreender. Se eu fosse Presidente da República teria de alterar a Constituição em alguns pormenores insignificantes.

Veja aqui o alinhamento do álbum, comentado pelo próprio Manuel João Vieira: 1. A Casinha da Colina É uma canção de origem brasileira. Normalmente abria os concertos de Lello Minsk e Pianista de Boite com essa canção dos anos 20. É uma espécie de paraíso perdido, fora da nossa realidade, e uma canção de amor. 2. Ser Milionário Música minha e letra do Fernando Brito. É um fado. Basicamente, uma caricatura de um certo tipo de milionário, novo-rico, pato bravo. É uma boa canção, mais ou menos destruída ao vivo pelo álcool, mas mesmo assim ainda se aguenta. 3. Sodoma e Gomorra Descreve os comportamentos das amigas de Sodoma e Gomorra. Também faz uma pintura de um certo tipo social. Sobretudo, é uma caricatura da própria visão masculina do feminino. 4. Belinha É o Quarteto 4444 a fazer uma ponte entre um certo tipo de rock sinfónico/jazz e a popular portuguesa quando apropriada pelos grandes cantores do PREC. 5. Ruben Miguel Tem qualquer coisa de José Afonso, sobretudo quando muda a tonalidade. 6. Marta Canção muito antiga feita por mim e pelo João Lucas, numa banda que tínhamos aos 18 anos. Parte da letra foi reescrita, outra parte improvisada. Uma das características do Quarteto 4444 é que há muita improvisação. 7. A Cona da Sacristão É uma canção absurda, não é? É uma letra surrealista, mas diria que é impossível de ser cantada no estado em que estava; é muito rápida e precisa de um tipo de respiração. Pu-la porque o instrumental estava muito bom. 8. Felícia, a Mulher Polícia É a única exceção [aos inéditos] porque já foi gravada no disco dos Corações de Atum, mas gostei desta versão. 9. Coca Dedicada a um amigo meu, que quando cheirava muita cocaína pensava que havia polícias que subiam às paredes do prédio. Droga, loucura, morte: esse triângulo estúpido que de vez em quando consome os nossos jovens. 10. Lenine Foi feita há uns anos por mim e pelo Fernando Brito, mas ele fez a parte mais engraçada da letra. É sobre a desilusão de uma certa esquerda que vê os seus ídolos a morrer, vê os muros a ruir, vê que o fantasma da utopia se está a congelar. A canção é inspirada nas harmonias de José Mário Branco, que é um músico do qual gosto muito. É uma desilusão de esquerda jocosa. 11. Valsa Entretanto já lhe mudei a letra. Começou por ser uma música terna sobre um travesti, daqueles que andam à noite. No refrão, não sei porquê, aparece o Godzilla. 12. Pandora É sobre uma rapariga chamada Pandora e um homem que não a consegue ter. Então, vinga-se com esta letra e com esta música. 13. Procuro-te e Não Te Encontro Foi cantada pelo Tony de Matos, era daquelas maravilhosas que ele tinha. É uma música de dor de corno, labirinto, loucura e procura. Estava bastante bêbedo a cantá-la, dá-me a impressão que repito algumas frases... 14. Déja-Vu É uma canção completamente infantil. Na pronúncia francesa ou açoriana não rima com cu, mas se for com deturpação na pronúncia portuguesa já rima. "Déja vu" e "cu" era uma rima que tinha de ser posta numa canção. Depois tem a parte surrealista das mamas a avançarem pelos montes. 15. Bom Conselho Era cantada por um tipo chamado Joaquim Cordeiro, que era o rei do fado humorístico, um gajo engraçadíssimo. Aqui, há um bêbedo que fala com as estátuas, e as estátuas falam com ele no meio de uma noite lisboeta. 16. Adeus Amiguinhas É uma improvisação feita naquele momento, naquela noite do Maxime. O Quarteto 4444 é um grupo que tenta inventar canções ao vivo. Não se trata apenas de improvisar dentro da estrutura de um tema, mas inventar uma nova estrutura, de repente, e uma nova letra. Enquanto eu não estava demasiado bêbedo isto corria bem - e nesta não estava tão bêbedo quanto isso. Claro que é uma música sobre os tempos que passaram, as amigas que se foram embora, sobre a ecologia e um determinado paraíso que se perde, mas que é encenado naquele momento - nunca se sabe se verdadeiramente existiu. 17. Experimental no Quintal É uma improvisação completamente programática que acho que correu bem. Não é propriamente uma crítica à música experimental. É uma maneira de pegar nas formas da música experimental e utilizá-las para fazer o que normalmente a música experimental não faz: uma canção com uma letra. Entrevista: Luís Guerra Foto: Nuno Botelho/Impresa Publishing