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Manel Cruz fez milagre com prata da casa

O músico do Porto apresentou no NOS Primavera Sound o espetáculo Estação de Serviço. Canções novas e de Pluto, Supernada e Foge, Foge Bandido foram recebidas com o máximo carinho no palco Super Bock. O autarca Rui Moreira também viu e aplaudiu.

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Não foram raras as pessoas com quem, a meio desta tarde, nos cruzámos e nos disseram estar no recinto mais cedo para apanhar o primeiro concerto do palco Super Bock. Poucos artistas inspirarão tanta lealdade como Manel Cruz, o homem que todos continuamos a associar aos Ornatos Violeta, apesar do mérito dos múltiplos projetos que se lhes seguiram. Acarinhado como muito poucos, Manel Cruz começou por subir ao palco na companhia da sua banda (Nico Trico no banjo, Eduardo Silva no baixo e António Serginho na bateria), dirigindo-se ao público com boa disposição: "Mandámos vir este solinho, espero que gostem - é português!". Dispersos pelo relvado frente ao palco Super Bock, os fãs levantaram-se e brindaram, desde logo, o franzino cantor com uma ovação emocionante. É, de resto, comovente o carinho com que o público continua a acolher as suas sucessivas encarnações e, esta tarde, o reencontro teve ainda o extra de acontecer no Porto e no cenário romântico do Parque da Cidade. Em entrevista à BLITZ de junho, Manel Cruz prometera apresentar canções novas, e não falhou: "Eu sei bem onde queria estar / algures perto do mar / duas plantas e uma mulher / os filhos lá fora a brincar" foram as primeiras palavras que cantou, num ritmo meio lento, meio fantasmagórico, comum a alguns dos outros inéditos que hoje revelou. Se conhecer o tema que Manel Cruz gravou com o projeto Ovo, e que esta tarde foi recordado num encore pedido com grande fervor, saberá ao que "sabem" algumas das novas canções. Com a temática da fé e de Deus a permear as habituais observações e inquietações mais quotidianas ("Quem é Deus quando tudo cai? Tu não és"; "Sabe Deus - Deus não sabe"), o novo material faz-nos pensar em pequenas plantas selvagens que, contra todas as expectativas, brotam das frechas entre muros ou do chão que pisamos todos os dias. É um elogio, claro, à beleza que nasce em sítios e circunstâncias improváveis - e o público pareceu concordar connosco, acompanhando Manel Cruz quer nos temas ainda desconhecidos quer nos regressos a canções já editadas. "Meu Livro", dos Supernada, foi uma das músicas resgatadas ao belo baú deste herói local, surgindo mais despida, mas ainda sensual, e também como veículo da postura que continua a caracterizar a demanda de Manel Cruz: "não importa descobrir as razões / o que eu gosto mesmo é de as procurar". Seguiu-se a também celebrada "Estou Pronto", do livro-disco de Foge Foge Bandido, gigantesca empreitada também representada por "A Cisma" e "Canção da Canção Triste", um dos mais belos pedaços de vida vertidos para música dos últimos dez anos. Já os Pluto, banda que Manel Cruz formou após o fim dos Ornatos Violeta, mostraram as suas duas faces: a hedonista e atrevida, com "Sexo Mono", e a sensível e intimista, com "Algo Teu", canção-bonsai que fecha o álbum Bom Dia e nunca esperaríamos ver aqui, tão perfeita, sob a torreira do sol de junho. Como já deve ter percebido, canções de Ornatos nem vê-las (ou ouvi-las), mas estamos em crer que, perante o manancial de belas novidades, ninguém se terá ficado a sentir lesado. "Meu amor é coisa cara / nunca mostra o corpo inteiro / não há amor como o segundo / depois de acabar o primeiro"; "Na minha aldeia chamam-me maluco por não fazer a barba às ideias"/ "Quais medos? São sonhos sonhos à volta para te encontrar / O tempo está onde tu estás" foram algumas das deixas que anotámos e que alimentam canções ora de um psicadelismo docinho, ora de algum surrealismo provocante. Não sabemos qual será o destino destas músicas, mas foi delicioso cruzarmo-nos com elas na Estação de Serviço mais acolhedora dos últimos quilómetros de festivais. Enquanto, em palco, Manel Cruz e os seus músicos se despediam, pela segunda vez, dos fãs entusiastas, uma moça a nosso lado rematou: "Já ganhou". E nós roubamos-lhe - agradecendo-lhe - o remate certeiro. Lia Pereira