Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Manel Cruz apresenta hoje Estação de Serviço em Lisboa: leia a entrevista à BLITZ

O músico do Porto vem apresentar o novo projeto, que estreou no Nos Primavera Sound, no Festival Silêncio, no Cais do Sodré. A entrada é grátis. Recorde aqui parte da entrevista de Manel Cruz à BLITZ de junho.

Estação de Serviço, o nome do espetáculo que vai apresentar este verão, remete para uma paragem para consulta do mapa, para abastecer a viatura de combustível... Foi daí que veio a ideia? Sim, foi. É um concerto um pouco atípico, também, porque na minha carreira, digamos assim, sempre tive mais oportunidades [de tocar] com projetos cujos discos estavam a sair. E agora, por razões que não interessam - pessoais, da vida! - tive dois anos em que fiz músicas novas, mas não acabei nenhum projeto. As coisas foram mais lentas e dei por mim a querer tocar, sem ter propriamente um disco novo [para mostrar]. Então lembrei-me de fazer este espetáculo, enquanto também trabalho noutras coisas. Pensei pegar nalgumas coisas minhas e de algumas bandas em que toquei - Bandido, Pluto, Supernada, de Ornatos por acaso ainda não pegámos em nenhuma - e nalgumas coisas novas e tocar essas canções com uma formação muito simples. Só vai ter banjo, baixo, guitarra acústica e bateria. Será um pouco uma retrospetiva de passado e de futuro, já que também tenho músicas novas. Daí o nome de Estação de Serviço: [remete] para estar na estrada, a ver para trás e para a frente.

Sendo muito crítico em relação à obra já feita e gravada, que relação tem com as canções que vai apresentar neste concerto? São canções com as quais está em paz? São músicas que sobreviveram, à partida! Sobreviveram a esse filtro, a essa peneira. São músicas com as quais não me chateei, são amigos que ficaram. (risos) E, ao mesmo tempo, vesti-las de outra maneira foi um desafio muito fixe e surpreendeu-me na medida em que há músicas que são dogmas, e dentro das próprias músicas há dogmas de arranjos, e às vezes estás tão habituado a tocar aquilo daquela maneira que nunca pensaste tirar aquela parte. Porque tocaste aquilo assim durante anos, são quase instituições. É quase como tirar uma coluna de um templo e aquela porcaria cair, mas na verdade não cai. Aqui tens a possibilidade de transformar a coisa sem que ela caia, ou até pode eventualmente cair, mas tens um manancial de hipóteses de recriá-la. E isso é muito fixe, porque começas a ouvir as músicas, algumas das quais já nem gostavas muito, tiras-lhes uma parte de que não gostavas e começas a curtir, a ver que a canção não era só aquilo.

Há uns anos disse que "as coisas estão sempre a morrer, tal como as sensações que provocam". A morte de uma canção é saudável, desejável, ou causa muito desnorte? Não me afeta absolutamente nada despedir-me de uma música ou de um desenho. A minha possível angústia acontece quando não sei se hei de digitalizar o desenho ou deitá-lo ao lixo. Quando percebes que é para o lixo, de certa maneira é um alívio - não há qualquer tipo de afeição, à partida, ao facto de o ter feito. Como sei que faço coisas boas e coias más, quando tenho de deitar uma coisa ao lixo, não fico desiludido. A dificuldade é perceber quais são boas e quais são más.

Confia só em si ou pede opiniões, nesse processo de peneirar? Estou atento aos sinais, que não são muito claros, mas eu sou muito vulnerável, sou influenciável. À partida, uma "cabeça de referência" pode influenciar-me mais porque é a maneira de pensar de uma pessoa de cuja abordagem eu gosto, e pode contextualizar melhor o que quero dizer. Mas, às vezes, uma coisa vinda de alguém que nem conheço pode bater certo e fazer-me pensar, e aí não me interessa se a pessoa sabe de música, se não sabe, se tem a quarta classe... Não interessa mesmo. Interessa-me é perceber qual a sensação que despertou aquela opinião, ou seja: qualquer pessoa pode sentir algo e ajudar-me a decidir um problema criativo, e por isso fico muito atento ao que me dizem, e também suscetível. Às vezes custa, mas é muito importante.

E é tão importante ouvir uma crítica negativa como um elogio... Completamente. E é mais difícil dizermos as coisas negativas, principalmente aos amigos. Daí eu ficar muito atento aos sinais. Se pergunto: gostaste da música?, a pessoa pode dizer "é fixe" ou "olha, tens ali uma parte em que..." e falar-te um bocadinho da música. E tu pensas: este gajo ouviu aquela cena. Também pode dizer que está altamente e tu sentes que foi para ser simpático... Às vezes o que queremos, mesmo sem saber, é receber uma palmadinha nas costas. Mas se quisermos mesmo saber a verdade, interpretamos os sinais.

Manel Cruz
1 / 10

Manel Cruz

Manel Cruz
2 / 10

Manel Cruz

Manel Cruz
3 / 10

Manel Cruz

Manel Cruz
4 / 10

Manel Cruz

Manel Cruz
5 / 10

Manel Cruz

Manel Cruz
6 / 10

Manel Cruz

Manel Cruz
7 / 10

Manel Cruz

Manel Cruz
8 / 10

Manel Cruz

Manel Cruz
9 / 10

Manel Cruz

Manel Cruz
10 / 10

Manel Cruz

Tendo vivido no Porto quase toda a vida, sente que nos últimos anos há um novo dinamismo na cidade, a nível cultural, artístico, de entretenimento? Eu não sou um bom barómetro, porque não sou uma pessoa que naturalmente vá procurar as coisas... sou normal. (risos) Vou sabendo as coisas, tendo umas noções e criando uma perspetiva das coisas, que é pessoal e limitada. Mas a sensação que tenho é que as pessoas tomaram mais as rédeas das coisas, têm mais autonomia criativa. Não estou a falar de mercado, que já é um assunto mais complexo e eu tão pouco tenho capacidade para analisar os mercados - que são tantos, há tantas maneiras de divulgar o teu trabalho! Mas sinto que, nestas novas gerações, já se lida com as plataformas de uma maneira mais natural. Pelo menos há mais possibilidades e de alguma maneira vejo o pessoal a tomar mais as rédeas; sinto que mais facilmente mais gente expõe as suas coisas e vê as coisas a acontecer. Mesmo a nível de produção, há mais coisas. Não digo que sejam fenómenos necessariamente de massas, mas há mais projetos para agenciar - isto independentemente das possibilidades económicas e essas coisas todas. Numa perspetiva de potencial, acho que há muito, mesmo. E noutras artes, não só na música.

Na apresentação do espetáculo O Som da Liberdade, no Teatro Rivoli, onde também atuou ao vivo, o Vereador da Cultura da Câmara do Porto, Paulo Cunha e Silva, disse que o centro comercial Stop é "um dos ecossistemas culturais mais interessantes" da cidade. Tendo estado ligado à sua reativação como local de ensaios, por exemplo, como viu estas declarações? As coisas tendem a afirmar-se com o tempo. Na pior das hipóteses, com o tempo ganham o seu crédito e o Stop é um exemplo disso. Ou seja, mesmo que as câmaras não reparem por si só, ou o sistema não os inclua logo à partida, acontecem coisas como começares a ver guias turísticos a entrarem por lá dentro: uma comandita de 20 gajos pelo Stop adentro, como parte do itinerário turístico mais underground. Já faz parte da cidade porque sim, não porque se decidiu incluir. Porque, com o tempo, tornou-se interessante para algumas pessoas que acham graça [ao espaço] e vão lá. Todos somados, esses fenómenos começam a construir uma imagem das coisas e a emprestar-lhe mais credibilidade. É fixe!

No final do ano passado também deu um concerto intimista no Silo-Auto [parque de estacionamento do Porto]. Aceitar esse convite também mostra alguma empatia por essa "causa" de reabilitar ou adaptar locais improváveis para receber música ao vivo... Sim! [O espetáculo] teve como base essa ideia, no sentido em que haveria uma perspetiva de que o Silo-Auto pudesse transformar-se num centro aplicado às artes - não poderei dizer de que maneira, porque também não sei. Era uma ideia e digamos que o Silo-Auto era uma cobaia, uma experiência e ao mesmo tempo um happening, apoiado nessa perspetiva do espaço, também.

Foi um concerto intimista, com um cenário bem diferente, que ali montou... Foi uma odisseia do carago, porque não tínhamos infraestruturas nenhumas. Montámos uma sala de estar com candeeiros, com sofá, frigorífico e tudo. Tudo feito com o orçamento que havia, que não era pequeno mas também não era grande - foi mesmo à medida da barriga. E foi uma odisseia do carago no sentido em que quisemos repetir o concerto em alguns sítios, mas entretanto esta formação mais simples [com o Serginho, o Edu e o Nico] surgiu, também, como hipótese. Ainda pensámos tocar dois espetáculos que fossem um bocadinho diferentes, e bastante iguais ao mesmo tempo, mas optou-se por esta formação mais simples, que também me está a dar muito gozo. Ter um setup simples que pudesse levar para qualquer lado: quase que podes tocar aquilo em acústico, em detrimento de uma cena que demora dois dias a montar e que dá o seu gozo... Mas se já foi feito, deixemos assim. Foi muito bonito, foi insólito e ficou por aí. (risos)

No espetáculo do Rivoli voltou a tocar com músicos que respeita e admira; atuou na mesma noite que Ana Deus (ex-Três Tristes Tigres, Osso Vaidoso) ou Alexandre Soares (ex-GNR, também dos Osso Vaidoso). A música faz cada vez mais sentido, para si, numa ideia de comunidade e de amizade? Sim, de comunidade por esse sentido de amizade, de ligação, da cumplicidade. E nem é fazer cada vez mais sentido, sempre fez e, se calhar, de uma certa perspetiva, isso foi-me um bocadinho "roubado", porque [com o tempo] começas a ter de dar concertos e a pensar noutras lógicas - ainda que tentes ao máximo preservar a lógica inicial. Mas, na essência, a parte que me dá mais gozo é estar na sala de ensaios a fazer música com os outros músicos. O resto dá-me gozo - há alturas em que adoro, há alturas em que não me apetece dar um concerto e depois acabo por conseguir concentrar-me na ideia e tentar tirar o maior prazer... e nunca é um contragosto. Mas a parte que me dá mais pica não é a parte profissional, digamos assim. A música para mim até era quase um hobby, algo que eu fazia com os amigos porque me apetecia - era uma 'curtes'. E noutras atividades como o desenho é que eu planeei mais aquela questão profissional, porque [sentia que] tinha mais essa capacidade. Mas essas coisas não se planeiam e depois começaram a chamar-me mais para a música, ou a música começou a chamar-me mais. Tentei manter sempre essa ligação com os outros [músicos], tanto que agora estou a tocar músicas minhas com eles. Não é porque tenha medo de tocar sozinho, ou vergonha, mas sim porque não me apetece ir para a estrada sozinho, não me dá pica. Estar a tocar com eles é outra coisa. E tocar com eles coisas que fizemos juntos na sala de ensaios mais pica me dá ainda. Quando a música surge ali, naquele momento - não estás a fazer arranjos em casa que depois vais experimentando. Não: aquilo soa ali, aconteceu ali, está feito o arranjo.

Passado, presente e os vários futuros

Há uns anos disse, numa entrevista: "Ainda me sinto como um puto, mesmo que já tenha perdido a inocência há muito tempo". É essa pureza possível que sente ao criar na sala de ensaios? Completamente. Às vezes o entusiasmo parece que nos leva outra vez para a adolescência. Primeiro, tens de te sentir à vontade com as pessoas com quem estás, para perderes alguns filtros, para te dares ao luxo de disparatar e curtir isso. São momentos necessários para voltares a fazer as coisas que fazias em puto. Mas é uma coisa natural, de estares a tocar e ficares entusiasmado com certa coisa, e quando reparas estás com o mesmo entusiasmo e a mesma maneira de o expressar de há não sei quantos anos. É muito fixe... e é uma sorte do carago! Não é só na música: seja onde for, poder ter momentos assim com os nossos amigos, em que criemos alguma coisa que nos faz sentir que o tempo para, e que voltamos àquela bolha temporal que não tem idade, é uma oportunidade rara, [sobretudo quando falamos da nossa] profissão.

Alguma vez pensou como seria ter uma profissão "das 9h às 17h", fora do universo das artes? Cada vez mais acredito que até possa fazer sentido, na medida em que podes querer preservar um espaço de liberdade, e para teres esse espaço de liberdade, por mais pequeno que seja, terás de ter outro que não é de liberdade mas, por outro lado, está mais do que definido. E nesse sentido é fácil - no sentido de estar definido, não do trabalho que dá. Mas está decidido que [aquela função] não tem de ser mais do que aquilo, e tens de a cumprir, e a tua expectativa naquele espaço também fica mais protegida. Por isso, acho que faz muito sentido aquela ideia do hobby, como o meu pai me dizia quando eu era puto e eu não gostava. Mas agora entendo mesmo bem, embora todas as minhas atividades tenham sempre a ver com a parte criativa: o desenho, isto tudo. Mesmo que pensasse arranjar um emprego, pensaria fazer ilustrações para miúdos, ou trabalhar como ilustrador para um jornal - ia pensar naquilo que sei fazer. Mas mesmo que não tivesse nada a ver com a parte criativa, se não ganhasse dinheiro com a música não ia fazer músicas para vender mais. Nem sei como é que isso se faz. Um gajo faz a música que tem que fazer. O Tony Carreira também não faz as músicas para vender muito, faz as músicas que tem de fazer e vende! Acho que há uma confluência: não me parece que as coisas sejam radicais, de "vou fazer música para vender". Deverá haver de tudo, mas acredito que as coisas são um conjunto de circunstâncias. Eu, se tivesse de fazer uma música que batesse, para me dar dinheiro, acho que não fazia e arranjava outra coisa. Mas claro que, se fizer a música que quero e os meus discos venderem, altamente! (risos)

Numa altura em que prepara um espetáculo que é, também, retrospetivo, como olha para o seu trajeto até agora? O Nuno Prata tem uma música chamada "Agora é Que É". Eu identifico-me muito com essa letra, porque para mim também é sempre "agora é que é". E acho que isso também é - pelo menos eu quero ver assim! - sinal de juventude. Ao mesmo tempo também pode parecer sinal de insatisfação, que também é uma característica do ser humano, muito ligada à juventude - querer abraçar o céu com as pernas. Se calhar já não tenho a mesma energia e a mesma ansiedade que tinha, para o bem e para o mal, mas estou sempre a pensar que a próxima cena é que vai ser fixe, o que acaba por ter um lado de ilusão, porque nunca é. Mas ao mesmo tempo, se queres ser atual, se queres ser a tua pessoa do momento, se queres ser contemporâneo de ti próprio, é natural que procures traduzir o que sentes. Ainda que agora esteja a tocar músicas antigas, estou a tentar tocá-las de uma maneira com que me identifique. Por isso, não tem só a ver com a obra, tem a ver com o processo e a linguagem. Com a maneira como comunicas e as ferramentas que escolhes para comunicar - tanto para fazer coisas novas como para pegar em coisas antigas. Como sempre, tento comunicar de maneira com que me identifique e dizer as coisas que quero dizer agora.

Acompanha o trajeto a solo do Nuno Prata, seu antigo companheiro nos Ornatos Violeta? Sim, ele tem uma canção no último disco [Nuno Prata, de 2014], que é das mais bonitas que tenho ouvido: "Hoje é Feriado". Acho linda, a música. Ele tem letras fabulosas - é um grande escritor, para mim, dos melhores. Foi um cantor tardio, mas mais uma vez acredito que o tempo acaba por dar às pessoas o seu devido lugar e reconhecer o seu devido valor.

Há uns anos disse à BLITZ, sobre o facto de colecionar leitores de cassete dos quais não precisava, que as inutilidades podiam ser muito importantes. Quais são as suas inutilidades favoritas neste momento? Os meus desenhos e ilustrações! (risos) A tendência que temos é dizer: estas coisas nunca foram para nada, ficaram na gaveta. Mas convives com elas muito tempo, e quem cria coisas, ou escreve coisas, sabe que de cada vez que lida com elas tem ali uma relação, uma viagem. É quase como se fosses jogando um jogo de computador: uma coisa efémera, em que chegas ao fim e não produziste nada, mas passaste um tempo com aquilo. Estava a pensar nisso, ao ver os milhares de desenhos que tenho, desde sempre, e que estive a digitalizar para fazer um livro ou o que quer que seja. Até agora não foi para nada, nem sei se vai ser, mas efetivamente o tempo que passo a digitalizar, a preparar e a sonhar com aquilo é um tempo bem passado. (risos) Por isso, as coisas servem sempre para alguma coisa.

Cerca de dois anos e meio depois dos concertos dos Ornatos Violeta nos Coliseus [seis datas esgotadas, três em Lisboa e três no Porto], quando passa à porta do Coliseu do Porto, ainda se lembra daquelas noites?

(Pequena pausa) Claro... Foi uma coisa que, às vezes, até parece meio irreal. Parece que foi um sonho. Primeiro, aquele ano foi todo dedicado àquilo, ou seja, não tenho grandes referências de outras coisas desse ano. Parece que foi uma bolha no meio do tempo. E, por isso, ganha um pouco essa atmosfera de sonho. E correu súper bem. Foi mais fácil do que eu podia alguma vez imaginar e talvez a coisa mais difícil que eu já fiz. E às vezes parece que não aconteceu. É muito fixe ter acontecido.

Entrevista de Lia Pereira Publicada originalmente na BLITZ de junho