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Lugares perdidos: 30 salas de concertos portuguesas com história que entretanto desapareceram

No Dia da Sala de Concerto, que hoje se comemora, vamos ao passado resgatar sítios como o Rock Rendez Vous, o Dramático de Cascais ou o Aniki Bóbó, contamos as suas histórias e recordamos os concertos mais emblemáticos que por lá passaram.

1. Pavilhão Dramático de Cascais Abriu à pressa, sem cerimónia de inauguração a condizer. E também fechou sem aviso prévio. O pavilhão que ficou conhecido como Dramático de Cascais (pois era ali que o Grupo Sportivo e Dramático de Cascais passou a ter a sua sede administrativa além da maior parte das suas atividades desportivas) havia sido desenhado pelo arquiteto Henrique Albino.

À época, era o pavilhão português com maior lotação, mas não dispunha de eletrificação adequada ou sequer de uma pintura quando abriu portas pela primeira vez. Mas no dia 20 de novembro de 1971 entraram por ali dentro Miles Davis, Keith Jarrett, Dexter Gordon, Ornette Coleman, Charlie Haden e Rão Kyao. O Pavilhão do Dramático, que beneficiava da ausência de locais para espetáculos com aquelas dimensões em Portugal, tinha o destino traçado: seria a música a dar-lhe fama apesar dos feitos do hóquei em patins e do andebol do Cascais. O Festival de Jazz de Cascais permaneceria ali até 1980, recebendo visitas e concertos ilustres dos Giants of Jazz (Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Art Blakey e Sonny Stitt, entre outros), Cannonball Adderley, Dave Brubeck, Elvin Jones, Jimmy Smith, Phil Woods, Duke Ellington, Sarah Vaughan, B.B. King, McCoy Tyner, Charles Mingus, Gil Evans, Sonny Rollins, Betty Carter, Muddy Waters, Art Blakey, George Duke, Toots Thielemans, Tete Montoliu, Freddie Hubbard e John Abercrombie, representantes maiores do jazz e dos blues. Seriam, no entanto, os concertos de rock que viriam conceder ao inóspito equipamento desportivo o epíteto de Catedral. Ainda nos anos 70, por ali passaram os Procol Harum, Blood Sweat and Tears (com os Vinegar Joe, de Elkie Brooks e Robert Palmer), Soft Machine, Amon Düul II e, claro, os Genesis, provando que aquele era o local dos concertos de eleição da época. Ali tocaram os maiores do rock progressivo e sinfónico que marcaram aquele tempo. Um sinal: os Black Sabbath tiveram dois concertos marcados para ali, em abril de 1973, mas viriam a cancelar a sua estreia em Portugal, tendo a desistência direito a anúncio publicado no semanário Expresso. Porém, seria o punk rock e a new wave, primeiro, e o hard rock e heavy-metal, depois, a dar nome à casa emprestada do Dramático de Cascais. Esse era o tempo em que o corpo de intervenção do COPCON zelava pela segurança com excesso e denodo, mais tarde substituído pela atuação fora do pavilhão do Inspetor Catita, da PSP. Ficaram então na história os motins que antecederam um concerto, também cancelado, dos Stranglers (com os 999 na primeira parte) em 1978. Mas também os tumultos dentro e fora do pavilhão antes, durante e depois das prestações dos Tubes, Dr. Feelgood, Stranglers, Joe Jackson, Lene Lovich, Lou Reed, Steve Harley (com Gang of Four), Clash, Iggy Pop, Ian Dury, Boomtown Rats, Dexys Midnight Runners ou Ramones. Estava aberta uma nova era, ainda que os concertos de rock progressivo, sinfónico e seus derivados ainda espreitassem (Camel, Barclay James Harvest, Mike Oldfield, Supertramp, Nazareth ou Peter Gabriel). O Pavilhão do Dramático tinha passado a ser uma escola de rock em Portugal. Para os músicos, obviamente, mas também para o público, que ali tomava contacto com novas formas de espetáculo e entretenimento, nas quais se incluíam as viagens de comboio na Linha de Cascais. Não vale a pena esconder: tratava-se, para todos, da primeira vez. O profissionalismo, inclusivamente para os promotores de espetáculos, só viria depois. Nos anos 80, já depois dos primeiros concertos de heavy-metal por conta dos Rainbow, Whitesnake, Kiss ou dos Iron Maiden, o Pavilhão do Dramático começa a receber, sobretudo mercê das organizações da Tournée, espetáculos produzidos de acordo com o standard internacional. A lista é quase interminável e transformou o Dramático de Cascais em anfitrião de um rol de artistas de fazer inveja às grandes salas da Europa. Leonard Cohen, PIL, Gary Moore, Kinks, James Brown, Lloyd Cole, Suzanne Vega, Bob Dylan e Laurie Anderson (no mesmo dia), Brian May, Nirvana e Pearl Jam deixaram marcas, numa época em que o heavy-metal e o hard rock já tinham transformado aquele pavilhão em região demarcada. Os Iron Maiden faziam com que todas as suas digressões ali poisassem, mas também WASP, Motörhead, Bon Jovi, Judas Priest (com Annihilator e Pantera), Sepultura, Extreme, Def Leppard, Paradise Lost, Slayer, Machine Head, Megadeth e Manowar tiveram as suas grandes noites dentro daquele aglomerado de betão gigantesco que se dizia albergar mais de dez mil almas em noites de enchente. A 7 de novembro de 1998, quase 27 anos depois dos primeiros acordes, aconteceu o derradeiro concerto, com Slayer, Sepultura e System of a Down. Por essa altura, o risco de derrocada já era aparente e existia uma bancada interditada. Em setembro de 2005, o Pavilhão do Dramático de Cascais começou a ser demolido e no seu lugar, hoje, encontra-se um pacato parque de estacionamento. Miguel Francisco Cadete 2. Rock Rendez Vouz A memória coletiva garante hoje à sala lisboeta um lugar na iconografia musical nacional. Justificadamente: fez-se história na Rua da Beneficência.

No número 175 da Rua de Beneficência, ao Rego, em Lisboa, no edifício que em tempos tinha albergado o cinema Universal, inaugurou-se em dezembro de 1980 o Rock Rendez Vous. O concerto de abertura foi de Rui Veloso que, aliás, utilizou o espaço quando as obras ainda decorriam para ensaiar a Banda Sonora antes da entrada em estúdio para a gravação do álbum de estreia, Ar de Rock. Mário Guia, o proprietário, imaginou um clube de rock à imagem do famoso Marquee de Londres, casa por onde passaram lendas como os Rolling Stones ou os The Who. O espaço impôs-se muito rapidamente no cenário musical português funcionando como rampa para inúmeros projetos musicais, sobretudo depois da criação do Concurso de Música Moderna. A primeira edição deste concurso aconteceu em 1984, no mesmo ano em que o semanário BLITZ nasceu. Mário Guia acreditava que a iniciativa poderia agitar o panorama musical português e as suas expectativas eram perfeitamente justificadas. Para Nuno Rebelo, dos Mler Ife Dada, a história da pop em Portugal talvez tivesse sido diferente se o concurso não tivesse existido: "no que me toca, os Mler Ife Dada constituíram-se precisamente para concorrer e ganhar o concurso. Provavelmente, sem o concurso, os Mler Ife Dada nunca teriam sequer chegado a existir. E penso, pelo que vou lendo, que este grupo foi importante para a cena musical da altura". Além dos Mler Ife Dada, bandas como Croix Sainte, Essa Entente, Linha Geral, Radar Kadafi, Pop Dell'Arte ou Mão Morta viram o seu caráter distinto ser premiado pelo júri que apreciou cada uma das edições do Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous, que dessa forma se transformou num autêntico viveiro de propostas criativas que ajudaram a definir uma época na música portuguesa. O Rock Rendez Vous manteve-se aberto até julho de 1990 e nessa década de intensa atividade foi palco de inúmeros concertos que conquistaram um lugar na história: foi lá que os Xutos & Pontapés gravaram o seu primeiro registo ao vivo (a 31 de julho e 1 de agosto de 1986, embora o álbum, 1º de Agosto no RRV, só tenha saído em 2000), foi lá que os Heróis do Mar debutaram, foi lá que Adolfo Luxúria Canibal inscreveu a sangue o seu nome no folclore rock nacional. Mas o Rock Rendez Vous não viveu apenas voltado para dentro. Importantes bandas internacionais como os Teardrop Explodes, Woodentops, Killing Joke, Danse Society, Lords of the New Church ou Raincoats inspiraram os criadores locais, trazendo sinais vitais de modernidade até à Rua da Beneficência. Manuel Falcão, primeiro diretor do semanário BLITZ, recordou nestas páginas a atenção de Rui Reininho à prestação de palco de Julian Cope: "temos que aproveitar para aprender", ter-lhe-á dito o vocalista dos GNR. O Rock Rendez Vous foi isso: escola e recreio, universidade e templo para a década em que a música portuguesa atingiu a sua maioridade. Rui Miguel Abreu 3. Estádio José Alvalade Palco de vultos internacionais - Stones, Pink Floyd, U2... - e de exaltação entre portas - GNR, Portugal ao Vivo e Filhos da Madrugada.

Admiradores, ou nem por isso, dos Rolling Stones, uma multidão de 60 mil pessoas rumou ao Estádio José Alvalade a 10 de junho de 1990. Ao som de "Start Me Up", a estreia do grupo num palco português representava o início de uma nova era de concertos entre nós e ninguém queria faltar. É bom lembrar que não era a primeira vez que um estádio português recebia um concerto. Os Roxy Music e King Crimson, por exemplo, tinham passado por Faro e pelo Restelo em agosto de 1982. E neste estádio lisboeta os Police tinham já atuado dois anos antes. O próprio Estádio José Alvalade já tinha acolhido uma atuação de Roberto Carlos em junho de 1981 e outra, dos The Cure, em junho de 1989 (mas numa configuração para 15 mil pessoas). Com uma multidão consideravelmente mais expressiva, o concerto dos Rolling Stones, que então apresentavam a Urban Jungle Tour, marcava contudo o encetar de uma rotina. O circuito internacional dos concertos de estádio juntava, então, Portugal às suas agendas, com aquele espaço lisboeta como o palco mais vezes visitado. 20 mil foram ver a Sound + Vision Tour, de David Bowie, e 60 mil compareceram pouco depois na estreia nacional de Tina Turner (ambos os concertos ainda em 1990). O estádio, inaugurado em 1956 com um jogo entre o Sporting (a equipa da casa) e os brasileiros do Vasco da Gama, tornou-se um destino regular também para a música nos anos 90. Depois desse trio que cativou primeiras atenções em 1990 por ali passaram Santana, Simple Minds, Joe Cocker, Paul Simon e Bryan Adams, todos eles em 1991. Em 1992, ano em que ficou célebre o tropeção de Axl Rose num dia em que os Guns N'Roses partilhavam o palco com os Soundgarden e Faith No More, o estádio viu ainda os Dire Straits, Elton John, Genesis e Michael Jackson, além dos GNR que, com o sucesso de Rock in Rio Douro, chegavam a um patamar inédito. A música portuguesa regressaria ali em vários outros momentos, com a primeira edição do festival Portugal Ao Vivo (1993) ou a homenagem a José Afonso, Filhos da Madrugada (1994). Prince, Depeche Mode, os U2 (por duas vezes, uma com a Zooropa Tour, outra com a PopMart Tour), os Pink Floyd (em duas noites), R.E.M., os Bon Jovi (por duas vezes, uma delas com Billy Idol) ou Whitney Houston foram outros entre os muitos que assinalaram passagens por Portugal com visitas a Alvalade. Em 2003, com o Euro 2004 no horizonte (e a notícia da demolição do velho estádio), a música despediu-se daquele relvado com um festival onde, entre outros, atuaram David Fonseca, os Xutos & Pontapés, Sérgio Godinho e Caetano Veloso. Nuno Galopim 4. Johnny Guitar Herdeiro legítimo do Rock Rendez Vous, tinha outra aura, outra escala e até outro som.

Se há um clube que definiu a década de 80, não restam dúvidas de que há outro que marcou a primeira metade dos anos 90 do século passado: mais pequeno, mais "subterrâneo", o Johnny Guitar abriu portas no número 72 da Calçada Marquês de Abrantes, em Lisboa, e por ali se manteve aberto até 1996, encerrando por nunca ter conseguido resolver devidamente o seu problema de ruído. A compilação Ao Vivo em 1994, Vol. 1 é um dos documentos que guardam para a posteridade uma amostra da "fauna" que frequentava o clube: bandas como Pop Dell'Arte, Turbojunkie, Tédio Boys, Da Weasel, Lulu Blind, Ramp ou, entre outros, o Palma's Gang, super banda erguida em torno de Jorge Palma, com Zé Pedro e Kalú, dos Xutos, e ainda Flak e Alex, dos Rádio Macau, que gravou igualmente um registo ao vivo no pequeno clube de Santos. Tó Trips, músico dos Dead Combo que à época militava nos sónicos Lulu Blind, já referiu mesmo que, por esses dias, escolheu a casa em que queria viver em função da proximidade do Johnny Guitar: "um gajo vivia praticamente por ali", admitiu o guitarrista. De facto, o clube criado por Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, e Alex Cortez, dos Rádio Macau, tinha a aura de um espaço onde toda a gente se conhecia e onde as cumplicidades eram cultivadas. E onde vários contratos foram assinados: foi depois de um concerto no Johnny Guitar que os Ornatos Violeta assinaram pela PolyGram, depois de estudarem várias propostas de A&Rs que saíram rendidos da atuação. A banda de metal Anger também chegou ao catálogo da Nortesul depois de uma intensa prestação na sala da Calçada Marquês de Abrantes. À época, os clubes de rock eram, de facto, vitais para injetarem sangue novo nos catálogos das editoras. E tendo em conta a intensa programação do Johnny Guitar, que entre a abertura e o ano de 1994 realizou mais de 500 espetáculos, é fácil perceber que todas as bandas faziam questão de se apresentarem ali. Alex recorda como era importante para os músicos tocarem para os seus pares: "sabíamos que sempre que fazíamos um concerto íamos ter à frente muitos dos nossos colegas de estrada". E muitas vezes, um desses músicos era João Ribas, dos Censurados, que muitas memórias revelam que praticamente vivia por ali. Rui Miguel Abreu 5. Ritz Clube Antigo cabaré lisboeta nos tempos do Estado Novo, acolheu depois de 74 muitas das vozes africanas que se mostravam na cidade, antes de se fazer local de culto em nichos pop/rock.

A poucos passos da Praça da Alegria, com a Avenida da Liberdade igualmente por perto, o Ritz Clube (no número 57 da Rua da Glória) foi uma sala com história bem anterior à era do rock que a fez espaço de culto da cultura jovem lisboeta na etapa final do século. Surgiu como cabaret, com um belo palco recortado em arco e uma sala com dois andares para espectadores representando o topo de um edifício construído em 1908 que em tempos chegou a ter um barbeiro entre paredes. Teve uma presença importante na noite lisboeta nos tempos do Estado Novo, tendo a sua história depois de 1974 assistido a uma progressiva abertura de horizontes a outras músicas, tornando-se mesmo de passagem obrigatória para muitas carreiras de vozes locais e abrindo a atenção aos sons de África que ali conquistaram um importante público. Nos anos 90, numa etapa em que o circuito pop/rock visitou frequentemente aquele palco, ali se viveram noites inesquecíveis com nomes como os Da Weasel, Sérgio Godinho (que no Ritz registou parte do disco ao vivo Rivolitz), Pop Dell'Arte, Mãozinha ou Ena Pá 2000. As paredes mostravam, contudo, sinais de degradação e o espaço, considerado de interesse municipal, fechou por motivos de segurança em 2000. Fez-se silêncio. E durante 12 anos a sala esteve encerrada, tendo durante o intervalo, esporadicamente, acolhido um ou outro ensaio (de bandas como o Quinteto Tati ou os Ena Pá 2000) e motivando em 2005 um abaixo assinado pela sua defesa... Na noite de (re)abertura, em maio de 2012, Zé Pedro (Xutos & Pontapés) e Luís Varatojo (A Naifa) foram os DJs, abrindo uma agenda que, nos tempos seguintes, anunciou para aquele palco atuações de Jorge Palma, dos Diabo Na Cruz, Corações de Atum ou Linda Martini, entre outros. Festivais de cinema como o Indie Lisboa e Queer Lisboa fizeram festas na sua sala e o festival Termómetro Unplugged realizou ali uma final... Como outrora, muitos iniciados e figuras de circuitos alternativos ali encontraram um espaço para se mostrarem no coração da cidade. Mas foi sol de pouca dura, acabando o Ritz Clube por fechar novamente as portas cerca de um ano depois com problemas de insonorização, desviando para outras salas os últimos espectáculos originalmente agendados. Desde então, a porta não reabriu. Nuno Galopim 6. Pavilhão dos Desportos Acolheu certames desportivos, mas no final dos anos 70 abriu as portas ao rock. Em 1984, foi rebatizado de Pavilhão Carlos Lopes.

Depois do 25 de abril, Portugal começou, lentamente, a entrar na rota dos grandes concertos internacionais e o Pavilhão dos Desportos, situado no topo do Parque Eduardo VII, em Lisboa, representou aí um importante papel. O Pavilhão tem uma história extraordinária: foi desenhado pelos arquitetos Guilherme e Carlos Rebello de Andrade e ainda por Alfredo Assunção Santos e construído no Brasil para a Grande Exposição Internacional do Rio de Janeiro, tendo sido inaugurado em maio de 1923. Foi mais tarde reconstruído em Lisboa. Chamou-se Palácio das Exposições e, depois da II Guerra Mundial, foi convertido para eventos desportivos acolheu importantes finais de hóquei em patins, por exemplo, e só viria a conhecer o seu derradeiro nome quando Carlos Lopes conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1984. Houve notáveis concertos, antes ainda da mudança de nome, incluindo Pete Seeger (em 1983, ocasião documentada em disco) e os Can (com os portugueses Arte & Ofício na primeira parte, logo em 1977). Contudo, uma das primeiras memórias musicais do espaço dá conta da entrega de um prémio pela Casa de Imprensa ao Quarteto 1111, em 1968. Já como Pavilhão Carlos Lopes, aquela sala lisboeta recebeu muitos concertos entre finais dos anos 80 e inícios dos anos 90: Nick Cave apresentou-se lá em 1988 com os Mão Morta na primeira parte; os Vaya Con Dios assinaram aí um espetáculo no auge da sua popularidade, em 1990. Outros nomes: Marillion, Jesus and Mary Chain, Van Morrison. As bandas portuguesas também usavam o Carlos Lopes como "trampolim": os Delfins gravaram lá um concerto para a RTP, em 1990, e no mesmo ano atuaram os Sétima Legião, num concerto que também seria documentado em DVD. Rui Miguel Abreu 7. Aniki Bóbó Mítico espaço da noite do Porto e ponto de encontro para uma movida nortenha muito distinta, teve o seu auge na década de 90.

O Aniki Bóbó abriu na década de 80 e "foi um dos primeiros bares do Porto a ter DJs, a par do No Sense", recorda Pedro Tenreiro, A&R da Valentim de Carvalho e um dos DJs que passaram pelo espaço gerido por António Guimarães, conhecido como Becas, desde 2004 à frente do Passos Manuel. "Foi o primeiro sítio realmente cosmopolita da Ribeira", defende Pedro Tenreiro. "Esteve sempre cheio anos a fio. Abrigou artistas plásticos, designers, arquitetos, músicos, escritores, atores, enfim, a mais moderna comunidade artística da cidade. Recebeu festivais de performance e concertos de gente que vai do Carlos Zíngaro a um embrião dos Repórter Estrábico". Pedro Tenreiro realizou por lá a noite Stratusphunk (onde se estreou a futura referência do drum'n' bass nacional, Nuno Forte), e Pedro Mesquita e Nuno Pires (da segunda formação dos Repórter Estrábico) também por lá assinaram noites regulares. E no Aniki Bobó passava tudo do hip-hop ao house, mas sempre, ressalva Tenreiro, com uma toada "jazzy". Foi no Aniki Bobó que James Lavelle, patrão da Mo' Wax e mentor dos UNKLE, se estreou em solo nacional. O espaço passou depois por diversas gerências e foi despejado pela Câmara do Porto em 2005 após um longo período de portas encerradas. Rui Miguel Abreu 8. Hard Club

Foram quase dez anos de intensa atividade, que deixaram uma marca profunda na margem sul do Douro. Entre 18 de dezembro de 1997 e 27 de janeiro de 2007, o Hard Club levou até à zona ribeirinha de Gaia 1300 espetáculos e meio milhão de espectadores. Entre apresentações de bandas portuguesas (Ornatos Violeta, Clã e Blind Zero passaram por lá repetidas vezes) e figurões internacionais (só em 2002, tocaram em Gaia Muse e Tomahawk), o Hard Club deixa saudades pela acústica e pelo carisma granítico da vista para o rio. Desde 2010, a sala funciona, com o mesmo nome e um cariz mais multidisciplinar, no Mercado Ferreira Borges, no Porto. Lia Pereira 9. Noites Longas Diz a lenda que ali funcionou a Aula do Risco, gabinete responsável pela reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1775. Mas o palacete do Casa Pia Atlético Clube, em Santos, Lisboa, foi também o lugar onde Zé da Guiné, Mário Duarte e Hernâni Miguel fundaram as Noites Longas. A partir de 1985, era ali que terminavam as noites de sexta-feira, sempre sem cartaz anunciado. Ena Pá 2000, Rádio Macau ou Xutos & Pontapés atuaram ali, sendo frequentes as presenças de Eduardo Prado Coelho, Miguel Esteves Cardoso, Pedro Ayres Magalhães ou Rodrigo Leão. No mesmo espaço funcionou depois o B.Leza, documentado na foto ao lado. Miguel Francisco Cadete 10. Monumental de Cascais Tal como o Dramático, beneficiou da ausência de lugares para espetáculos musicais de grandes dimensões. Ainda nos anos 80, os Skids, Tourists (com Annie Lennox e Dave Stewart), Original Mirrors e 999 fizeram parte do I Festival Rock de Cascais. Também os Uriah Heep, Status Quo ou o Festival Só Rock aconteceram ali. Porém, seriam os espetáculos dos Aerosmith, Extreme, Scorpions, Mark Knopfler, Supertramp, Backstreet Boys ou, especialmente, Smashing Pumpkins que emprestaram credibilidade ao espaço. Foi demolido em 2008. Miguel Francisco Cadete 11. Praça Sony Construída no contexto da Expo'98, a Praça Sony, também conhecida então como Vídeo-Estádio, foi palco de concertos memoráveis. Durante a Exposição Internacional de Lisboa, acolheu Lou Reed, Foo Fighters, Garbage, Silence 4 (na concorrida noite de encerramento) e o festival Super Bock Super Rock (com Morphine, Spiritualized e Van Morrison no cartaz). Em 1999, os Morphine regressavam àquele palco, dois dias antes da morte de Mark Sandman, para a única edição do festival Alive (Paradise Lost também tocaram) e, em 2000, os Oasis deram lá o primeiro concerto em solo nacional. Luís Guerra 12. Le Son Esta sala, na periferia industrial de Coimbra, teve vida curta mas intensa. Paulo Furtado esteve ligado à sua programação, o que ajuda a explicar a presença de bandas como Bellrays, Dead Kennedys ou Dirtbombs (que aí assinaram o seu único espectáculo em Portugal). Foi igualmente importante para a agitada cena local: foi a sala onde se estrearam os Bunnyranch, onde tocaram os A Jigsaw e onde Wraygunn e Legendary Tigerman se apresentaram múltiplas vezes. O Le Son fechou em 2003 e reabriu no ano seguinte com outra gerência, mas não sobreviveria muito tempo. Rui Miguel Abreu 13. Luís Armastrondo Este espaço de concertos na Ribeira do Porto, gerido por Manuel Sousa e João Faiões, abriu portas durante a década de 80, tendo-se tornado numa espécie de extensão do Rock Rendez Vous, dada a natureza da sua programação: bandas como Bramassaji, Mão Morta, Essa Entente, Emílio & a Tribo do Rum, Seres, Entes Queridos ou Sitiados apresentaram-se aí regularmente. O espaço mudou de gerência em 1988, altura em que o nome se alterou para Louis Armstrong. Em 1990, uma derrocada na encosta que dava para as costas do edifício colocou um ponto final na sua história. Rui Miguel Abreu 14. Bar Oceano Ainda antes de a Avenida 24 de Julho ser moda, o Bar Oceano, algures no final dos anos 80, imperou enquanto capital da música ao vivo mais extrema em Lisboa. Com o interior forrado de velhas placas de autocarro com o nome dos bairros lisboetas, era ali que enquanto o Rock Rendez Vous adormecia e o Johnny Guitar não despertava atuavam Ku de Judas, Peste & Sida, Mata-Ratos, Crise Total, NAM, CIAneto, Manuel João Vieira, Mata a Velha, Necrose, Dernier Cri e Los Paz d'Almas, entre muitos outros. Destaque ainda para o primeiro (e último!) concurso de bandas hardcore. Miguel Francisco Cadete 15. Loucuras Sala de cinema lisboeta, entre o Rato e a Estrela, inaugurada em 1931, viria a transformar-se em lugar de concertos. A partir da segunda metade dos anos 80 e no início dos 90 recebeu LX-90, Afonsinhos do Condado e Café Lusitano, entre outros, quando a direção artística cabia a José Nuno Martins. Seria reconvertido em estúdio de televisão e foi casa da Orquestra da Felicidade, do Brilho e da Glória, que atuou com Heróis do Mar e Trovante. Os Ena Pá 2000 gravaram ali um DVD quando já se designava Zona Mais. Em 2002, o edifício foi classificado como imóvel de interesse público. Miguel Francisco Cadete 16. Bar Ben Fenómeno de contaminação de um entusiasmo pela descoberta de uma cultura jovem que assim se descentralizava, o Bar Ben, em Alcobaça, foi um dos mais ativos polos de atividade fora dos grandes centros urbanos nos anos 80 e 90, tendo acolhido um concurso de bandas a partir de 1991. Peça fulcral da movida local, foi ali que os The Gift se estrearam em 1994. Também da cidade, Us Forretas Ocultos foram presença marcante na sua história. Nomes como os Estado Sónico (vencedores do concurso em 91), Ex-Votos ou d3ö passaram pelo bar. Nuno Galopim 17. Solar da Cruz Vermelha de Massarelos Em Massarelos, no Porto, um grupo de carolas entre os quais João Loureiro, dos Ban, decidiu investir na produção de concertos de talentos emergentes em meados dos anos 80. Os Cães Vadios estrearam-se ali, bem como os Prece Oposto, tal como os Ban. Ficou histórica a organização do Porto Rock, em 1985, com Xutos & Pontapés (primeiro concerto com João Cabeleira), além de espetáculos com os Pop Dell'Arte e outras bandas de Lisboa. Miguel Francisco Cadete 18. Bar das Palmeiras O bar do Partido Socialista Revolucionário (que viria a fazer parte do Bloco de Esquerda) acolheu no final dos anos 80 concertos de punk rock que viriam a terminar com a morte de um dos seus organizadores, José Carvalho, no dia 28 de outubro de 1989, vítima da ação de um grupo de skinheads. Nessa noite atuariam os Dogue Dócil mas antes já por lá haviam passado os Ex-Votos, Amen Sacristi, Clandestinos, NAM, Censurados ou Peste & Sida. O movimento Tropa Não!, contra o Serviço Militar Obrigatório e no qual participaram dezenas de bandas, tinha ali um dos seus quartéis-generais. Miguel Francisco Cadete 19. Cinema Alvalade Inaugurado em inícios dos anos 50, o Cinema Alvalade, na lisboeta Avenida de Roma, ganhou lugar entre o polo que ali se desenvolveu quando os Cafés Vá Vá, Luanda e a Pastelaria Suprema chamaram as atenções da juventude lisboeta. Em inícios dos anos 70 começou a receber concertos, quando acolhe uma atuação histórica dos alemães Embryo. Em finais dos oitentas, tem pontualmente uma agenda mais intensa de música, recebendo, entre outros, os Sigue Sigue Sputnik, Fish e Tom Verlaine. Hoje há ali novamente cinema. Nuno Galopim 20. Maxime Situado à Praça da Alegria, em Lisboa, o Maxime foi fundado em finais dos anos 40 como um típico cabaré de luxo por onde passaram personalidades como o monarca Juan Carlos, de Espanha. À entrada dos anos 90, o Maxime era apenas uma sombra de tempos passados, mas foi aí, em 1995, que os lisboetas Cool Hipnoise fizeram a festa de apresentação do seu álbum de estreia. Em 2006, Manuel João Vieira tomou conta desse espaço que até 2011, ano de encerramento, recebeu numerosos concertos de artistas nacionais e internacionais como José Cid ou Bonnie Prince Billy, entre tantos outros. Rui Miguel Abreu 21. Infante de Sagres (Porto) 22. Cave das Químicas (Coimbra) 23. Juke Box (Lisboa) 24. Meia Cave (Porto) 25. Café Concerto (Lisboa) 26. Aero Rock (Tires) 27. Império (Lisboa) 28. Estufa Fria (Lisboa) 29. Buondi Café (Porto) 30. Roxy Romeo (Alhandra) Originalmente publicado na BLITZ de novembro de 2014, edição especial de 30º aniversário