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Kurt Cobain no cinema: editorial de Miguel Cadete

'Cobain tornou-se naquilo que queria ser e também naquilo que a sua doutrina execrava. Uma mistura explosiva', escreve o diretor da BLITZ na edição deste mês. Leia-o, na íntegra.

Ainda não vi o documentário sobre Kurt Cobain, que estreou no festival de Sundance, sendo também exibido em Berlim, e por isso devo abster-me de qualquer comentário por manifesta ignorância. Mas não é possível deixar passar em claro que esta é, muito provavelmente, a primeira obra sobre o líder dos Nirvana capaz de descrever com algum distanciamento o labirinto em que ele se enredou, chegando, por fim, a um beco sem saída. Ou seja, aqui trata-se da vida e não tanto da obra. Posto isto, na entrevista que este mês publicamos com o realizador deste documentário biográfico, Brett Morgen, torna-se evidente que existiam dois Kurt Cobain, o homem e o artista. E é exatamente a contradição que irrompia dos dois Cobains que levou ao triste fim de Kurt. Seria patético dizer que tal era previsível, mas também não é surpreendente que tal tenha sucedido a alguém que vivia numa pequena cidade dos Estados Unidos da América como Olympia (pouco mais de 40 mil habitantes), que era devoto dos princípios do punk-rock (é ali que nasceu a editora K Records, as riot grrrls e as Sleater-Kinney) e se vê catapultado para a fama devido a uma canção, "Smell Like Teen Spirit", e três álbuns que cristalizaram o sentir de uma geração. Cobain tornou-se naquilo que queria ser e também naquilo que a sua doutrina execrava. Uma mistura explosiva. Talvez não se encontre algo tão revelador como a recriação que o realizador, de acordo com o texto de Nuno Galopim sobre Montage of a Heck, leva a efeito: "numa delas recorda-se o momento da perda de virgindade com uma rapariga com peso a mais e problemas mentais, que resultou em chacota dos colegas e numa tentativa de suicídio". Kurt não terá retirado a devida lição desta experiência e, anos mais tarde, voltou a repeti-la. A rapariga gorda já era, no entanto, a indústria discográfica ou, se quisermos, a fama. À segunda era demais. Daqui resulta que existia um Kurt que não resistiu. Que os fãs não conheceram. Nem sequer a filha, Frances Cobain, que não tinha ainda completado dois anos de idade quando o pai se matou. Esse, percebe-se nas palavras de Morgen, foi o maior trunfo do realizador. A entrevista que Francisco Ferreira, coordenador da secção de cinema do Expresso, publica neste número tem duas frases bombásticas que explicam com toda a clareza ao que ele vem. Quando revela o que Frances Cobain lhe terá confidenciado após ver o filme - "obrigado por me teres dado as duas horas com o meu pai que eu nunca tive" - torna-se óbvio que este é um filme sobre Kurt, o homem, e não tanto sobre a super estrela Cobain. O mesmo, exatamente o mesmo, resulta do comentário de Courtney Love, a vilã da história que passou nos media desde o famigerado dia: "isto foi o mais perto que estive de Kurt desde a sua morte". O fim de uma distância que, muito provavelmente, só o cinema podia apagar.