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Kraftwerk triunfantes, ao vivo e em 3D, no Coliseu de Lisboa: leia a reportagem e veja as fotos

Fantástica apresentação em modo 3D mais ou menos vintage do grupo alemão em topo de forma e a preparar nova música para muito breve, garantiu Ralf Hütter à reportagem BLITZ.

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Ainda há gente a entrar no Coliseu dos Recreios e "Home Computer" já se faz ouvir perante uma sala esgotada, mas ainda a encher porque há muitos que, certamente, duvidam da pontualidade e do rigor germânicos. Kraftwerk em 3D (versão em holograma para uma próxima digressão?) diante de uma plateia que pareceria saída de uma qualquer foto dos anos 50 tirada durante a exibição de O Monstro da Lagoa Negra, não estivessem todos os pontinhos de luz dos smartphones a desvirtuar o efeito. A culpa é dos óculos 3D lo-fi, não do género dos que hoje se oferecem nas modernas salas de cinema, mas muito mais próximos daqueles que, há muitos anos, se venderam em quiosques de todo o país para se poder assistir à exibição do primeiro filme 3D por parte da RTP (que, se a memória não me engana, foi mesmo a tal criatura da lagoa negra que se referiu há pouco). Faz sentido: nos Kraftwerk o futuro e o passado foram sempre coordenadas muito próprias de um tempo que lhes é singular. A forma como têm gerido a carreira também para isso concorre: não editaram nada nestes últimos 12 anos, mas certamente este tem sido um dos mais activos períodos do grupo no que apresentações de palco diz respeito. O tempo das máquinas, os Kraftwerk parecem dizer-nos, é diferente do tempo dos homens. As imagens são obviamente fantásticas e contrapõem-se à performance estática que Ralf Hütter e os seus companheiros nos oferecem: gráficos geométricos, cores primárias, o interior de uma nave espacial e um satélite que orbita em torno da Terra em "Spacelab", tema que arranca "ooohs" da audiência quando um disco voador (sim, o espaço dos Kraftwerk ainda tem muito dos anos 50...) parece invadir o Coliseu, primeiro, e aterrar em pleno Rossio, logo depois. De seguida, "The Model" traz, muito literalmente, a casa abaixo. A década referenciada nas imagens, no entanto, continua a ser a mesma: a que se seguiu à guerra e em que a Alemanha natal dos Kraftwerk foi obrigada a reinventar-se, assumindo uma rígida ética de trabalho que certamente influenciou o espírito que move estes músicos. O grupo de Autobahn não se limitou, no entanto, a olhar para o futuro. Inventou o seu próprio futuro onde uma música folk - ou volk... - podia ser criada com máquinas, ser erguida em cima de novos sons e retratar uma nova paisagem: moderna e industrial, mas também algo idílica e até inocente. Essa inocência foi sempre uma das suas marcas distintivas. E essa cidade, ídilica e inocente, é a que os Kraftwerk cantam em "Neon Lights". Curiosamente para uma banda que nunca escondeu o seu fascínio com uma certa ideia de rock and roll - "Autobahn", que se faz ouvir logo depois de "Neon Lights" (a cidade primeiro, a auto-estrada depois...), cita obliquamente os Beach Boys, e depois havia a admiração declarada pelo ritmo metronómico dos Stooges - o show que apresentam é o menos rock and roll possível: os fatos que vestem eliminam qualquer resquício de sensualidade, não se vislumbra um pingo de suor e a imobilidade parece dizer que a atenção deve recair em tudo o que não sejam aqueles quatro corpos ali presentes (ou dali ausentes...). O olhar deve, por exemplo, concentrar-se no enorme Mercedes que flutua por cima das nossas cabeças enquanto a auto-estrada de jogo Atari se estende à nossa frente. Ou então nas semi-colcheias e claves de sol que se soltam do rádio do carro e nos entram pelos olhos dentro. O efeito é tremendo e remete, estranhamente, para memórias de uma infância em que a tecnologia prometia quase tudo, menos um mundo feito de drones e redes sociais. A banda sonora desse futuro erguido em cima do preto e branco das televisões de quem teve a infância nos anos 70 nunca foi melhor do que a assinada pelos Kraftwerk. E, de certa forma, esse futuro nunca existiu fora dos seus discos. E é admirável que, ao contrário dos Rolling Stones, por exemplo, ou de qualquer outra estrela rock acima dos 40, Ralf Hütter não faça o mínimo esforço para fingir que este é o seu tempo: a matrícula do Volkswagen carocha que percorre a auto-estrada de "Autobahn" é D (de Deutschland) KR (de Kraftwerk) 70 (da sua geração). Os medos dessa geração, como os que moveram um movimento global anti-energia nuclear, manifestam-se em "Radioactivity", cantada parcialmente em japonês e a citar Fukushima. "Ohm Sweet Ohm" é mais uma declaração de amor à electricidade, curiosamente interpretada por cima da imagem de alguns violinos clássicos projectados no ecrã gigante. A tal ideia de futuro e passado que coexiste no tempo singular dos Krafwerk. "Electric Cafe" antecede esse verdadeiro "tour de force" que é "Tour de France", incrível tema em que a música dos Kraftwerk mais se aproxima do presente (juntamente, talvez, com "Aero Dynamik" que se fará ouvir mais tarde). Na verdade, o presente techno que ergueu gigantes como os Daft Punk não existiria sem o passado trilhado pelos Kraftwerk. E faz sentido que esse presente seja abordado no tema em que os alemães sagram aquela que é talvez a mais perfeita e simbiótica aliança entre homem e máquina: a que é representada pelo ciclista na mais nobre das provas, aquela em que o homem, ao pedal, supera os Alpes e qualquer outro obstáculo que se interponha entre a sua força e a meta. "Trans Europe Express" foi o tema que se seguiu, majestoso naquela linha melódica que subtraída por Afrika Bambaataa serviu, em "Planet Rock", de momento fundador do electro. E depois há uma cortina que se fecha: os Kraftwerk não querem que ninguém se esqueça que esteve a assistir a um filme, mais do que a um concerto. Para o público isso parece interessar muito pouco: os aplausos são claros - querem mais! O trabalho extra, pós encore, é feito, pois claro, pelos autómatos. "We're charging our battery", dizem eles em "The Robots". Embora possa não parecer, o humor foi sempre um dos elementos da distinta fórmula kraftwerkiana. E há algo de incrivelmente poético em ver uma multidão de alguns milhares a aplaudir uns robots humanizados depois de um excelente concerto assinado por quatro humanos mecânizados. Não é só o fluxo entre passado, presente e futuro que os Kraftwerk confundem - as fronteiras entre homem e máquina, entre natureza e tecnologia marcam igualmente o discurso daquela que continua a ser a mais moderna e relevante de todas as bandas. As despedidas começam por se fazer com "Aero Dynamik" e "Planet of Visions", dois temas em que ritmicamente os Kraftwerk se aproximam do presente, com ritmos mais quadrados que fariam sentido em qualquer pista. Mas a melodia permanece intemporal. O híbrido "Boing Boom Tshak", "Musique Non Stop", "Techno Pop" remata uma viagem perfeita, com cada um dos homens-máquina a abandonar o,palco após um solo, o movimento mais vistoso que cada um fez nesta noite e que foi fervorosamente aplaudido pelo público. É disso, enfim, que a música dos Kraftwerk realmente trata: de movimento, de deslocação, de um tempo que não pára de evoluir, mas onde importa reter o essencial - o cérebro ainda é a mais avançada tecnologia de que dispomos. É essa a máquina que nos permite descodificar os sinais que esta noite se emitiram em alemão, inglês, francês, russo, japonês e espanhol. O mundo é o palco destes senhores. Sempre foi. E nem parece que já passaram quase duas horas e meia desde o início do espectáculo. Onde fica o botão do repeat? ALINHAMENTO Computer World Man Machine Spacelab The Model Neon Lights Autobahn Airwaves Radioactivity Oham sweet ohm Electric Cafe Tour de France Trans Europe Express Encore The Robots 2 Encore Aero Dynamik Planet of Visions Texto: Rui Miguel Abreu FotosRita Carmo/Espanta Espíritos