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Kraftwerk hoje e amanhã em Lisboa e Porto: saiba tudo sobre os concertos em 3D

Para ver os concertos do grupo alemão em Portugal (hoje no Coliseu de Lisboa, amanhã na Casa da Música, no Porto), cada espectador vai ter de usar óculos. É a última inovação de um longo percurso entrelaçado com a tecnologia.

Quando, nas noites dos próximos dias 19 e 20 de abril, respetivamente no Coliseu dos Recreios (Lisboa) e Casa da Música (Porto), os espectadores entraram na sala levarão consigo, depois de entregues gratuitamente à entrada, um par de óculos 3-D. O hábito, que se vulgarizou entretanto em algumas salas de cinema, não é prática frequente quando se trata de um concerto. Mas aquele será um acessório fulcral para poder assistir à atuação, uma vez que todas as projeções que acompanharão a música dos Kraftwerk serão feitas com tecnologia 3-D. Esta é mesmo uma das características distintivas da digressão que o grupo tem vindo a apresentar pelo mundo fora nos últimos anos desde a apresentação da caixa antológica que, em 2009, juntou toda a sua discografia entre 1974 e 2003 devidamente remasterizada e acompanhada por um novo trabalho de design gráfico. Há muito que, de facto, associamos os Kraftwerk a um espaço de inovação na música. Quando, em 1974, o álbum Autobahn (o seu quarto disco lançado como Kraftwerk) os destacou face a toda uma série de outros grupos alemães seus contemporâneos que usavam também as emergentes eletrónicas como uma das suas principais ferramentas de trabalho, experimentaram o desafio de criar uma canção conceptual com uma instrumentação até aqui mais usada em músicas de vanguarda ou em peças com uma liberdade formal distante das estruturas mais rígidas da canção. Em disco foram aprofundando a exploração das eletrónicas, definindo sobretudo entre os álbuns Trans-Europe Express (1977) e The Man Machine (1978) uma visão musical de uma filosofia de relacionamento entre o homem e a máquina, bem como uma nova forma de pensar a canção pop, que teve frutos em muita da pop que se fez de então para cá. Uma história visual Em palco a visão experimental dos Kraftwerk esteve, ao contrário da liberdade das ideias e dos sons, sujeita às limitações da tecnologia de cada época. Assim, e depois de terem vivido o palco em parte da década de 70 segundo modelos de trabalho não muito diferentes dos usados pelos demais colegas apenas a presença protagonista das eletrónicas vincaria maiores diferenças, quando regressaram a cena em inícios dos anos 80, após um breve hiato, e ao som do álbum Computer World, traziam algo completamente novo consigo: todo o seu estúdio Kling Klang, até então um mundo de máquinas fixas às paredes e consolas do espaço de trabalho do grupo em Düsseldorf, era agora um conjunto de quatro unidades portáteis que com eles podia andar pela estrada. Nessa digressão, onde usavam máquinas de calcular para interpretar "Pocket Calculator", apresentavam ainda manequins que usavam em fotos promocionais desde finais dos anos 70 para, em palco, serem as figuras no centro das atenções quando interpretavam "The Robots". Um novo hiato, que se seguiu a Electric Cafe (1986), e assinalou a dissolução do "line up" clássico do grupo Ralf Hütter, Florian Schneider, Karl Bartos e Wolfgang Flür viu o grupo a atualizar todo o seu equipamento e, consequentemente, a mudar progressivamente de paradigma até chegar a uma nova versão digital do estúdio Kling Klang. Pelo caminho, e como fruto deste processo de atualização de maquinaria, as possibilidades da era do sampling e uma certa vontade em assimilar ensinamentos colhidos entre alguns dos que consigo tinham aprendido, levou-os a criar o álbum de remisturas The Mix em 1991. Desde então alguns temas clássicos, como por exemplo "Autobahn" ou "Radio-Activity" são apresentados ao vivo segundo estas versões, no caso desta segunda canção vincando a leitura anti-nuclear de uma canção que, na origem, dava uma segunda abordagem possível centrada no universo da rádio (como forma de comunicação). Mais que nas escassas atuações ao vivo nos anos 90 a vida na estrada dos Kraftwerk retomou ritmo e visibilidade depois da edição do álbum Tour de France Soundtracks (2003). Foi por essa altura que nos visitaram duas vezes, apresentando um novo formato de concerto apostado em trabalhar a construção de imagens (em consonância com o grafismo dos discos) e exibindo as funcionalidades de nova tecnologia digital. A edição da caixa Der Katalog assinalou novo encontro com a estrada, desta vez acrescentando tecnologia visual 3-D às projeções, muitas delas entretanto redesenhadas em função do trabalho gráfico apresentado nas reedições em disco. A maior das novidades dos concertos da fase 3-D surgiu quando, em 2012 o MoMA, em Nova Iorque, apresentou a série de concertos Catalogue durante a qual o grupo mostrou, a cada noite, na íntegra, com tecnologia 3-D e por esta ordem, os álbuns Autobahn, Radio-Activity, Trans-Europe Express, The Man Machine, Computer World, Techno Pop (ou seja Electric Cafe, retomando o seu título originalmente previsto), The Mix e Tour de France Soundtracks. É entre esta série de oito performances que entretanto levaram a lugares como a Tate Modern em Londres ou a Ópera de Sydney e este ano tiveram já lugar em Berlim, Amesterdão e Copenhaga e o mais solitário concerto 3-D (em regime de alinhamento best of) que vem a Lisboa e ao Porto que a vida dos Kraftwerk se tem feito na estrada nos últimos dois anos. Em palco, da formação original, resta apenas a figura central de Ralf Hütter, um dos dois fundadores do grupo. Com ele estarão Fritz Hilpert (percussionista e engenheiro de som que os acompanha desde 1987), Henning Schmitz (teclados ao vivo) e Falk Grieffenhagen (que se juntou ao grupo em 2013). E enquanto não se fala de um novo disco, na estrada, o regime vai sendo de musique non stop... Texto: Nuno Galopim Publicado originalmente na BLITZ de abril de 2015