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Kathleen Hanna homenageada com dia em Boston: recorde a entrevista à BLITZ

A líder das Bikini Kill e Le Tigre foi homenageada pela cidade de Boston, nos Estados Unidos, com o Riot Grrrl Day.

A líder das Bikini Kill e Le Tigre, Kathleen Hanna, foi homenageada com a criação, em Boston, do dia da Riot Grrrl. A efeméride vai passar a assinalar-se a 9 de abril e, segundo o presidente da câmara de Boston, pretende "comemorar, celebrar e promover o significado da cultura riot grrrl e inspirar as grrrls a abanar o sistema e criar".

Kathleen Hanna, cujo manifesto inspirou esta iniciativa, foi homenageada num concerto esta semana. A ideia partiu da chefe da polícia de Boston,  Joyce Lineham, que em tempos trabalhou como promotora de concertos punk, e que entregou à cantora uma declaração onde, entre outros pontos, se pode ler: "uma mulher não deve ganhar 23% menos que um homem" ou sentenças sobre a saúde reprodutiva das mulheres.

"O dia das Riot Grrrl junta duas das minhas coisas favoritas: ativismo político e arte. A ideia de que as mulheres e as raparigas devem ter uma voz e ser ouvidas é-me muito querida", afirmou Joyce Lineham, citada pela Rolling Stone. Recorde aqui a entrevista da BLITZ a Kathleen Hanna, publicada no ano passado. KATHLEEN HANNA - GUERREIRA PUNK

Conhecida pelo papel de frontwoman nas bandas Bikini Kill e Le Tigre, Kathleen Hanna é, também, uma figura central no movimento riot girlll e na cena fanzine dos anos 90. Em 2005, afastou-se da música, alegando cansaço. Exibido no festival Indie Lisboa, [em 2014], o filme The Punk Singer conta a verdadeira história, que passa pela doença que a artista norte-americana contraiu e escondeu de quase todos. À BLITZ, a amiga de Kurt Cobain e mulher de Adam Horovitz (Ad-Rock), dos Beastie Boys, desvenda um pouco mais da sua história.

A realizadora Sini Anderson fez um documentário sobre si, intitulado Punk Singer. Como foi abordada para participar nesse projeto? Perguntei à Sini se estaria interessada em realizar o filme de digressão das Le Tigre e a resposta dela foi "não". Umas semanas mais tarde, entrou em contacto comigo para dizer queria fazer um filme, mas só sobre mim, proposta com a qual me senti desconfortável. Mais tarde, porém, cheguei à conclusão de que era a opção certa. Eu estava doente, nessa altura, e não sabia se voltaria a ter uma oportunidade de contar a minha história.

Durante algum tempo escondeu a sua doença dos amigos e dos companheiros de banda. Mas aceitou falar sobre o assunto no filme. Foi uma experiência catártica? Foi. Eu revelei que tinha a Doença de Lyme na minha festa de aniversário. O meu amigo Eben fez um bolo com a forma de uma carraça e toda a gente perguntou porquê, por isso passei a noite toda a explicar às pessoas o que é esta doença e como é que é causada pelas carraças... o que foi uma chatice, tendo em conta que se tratava da minha festa de aniversário. Que divertido, não? Depois lá apaguei as velas e, quando cortei o bolo, montes de sangue falso esguichou para cima de mim, o que foi hilariante. Foi bom poder rir-me da doença, para variar. Como dizia o [humorista] Lenny Bruce, "tragédia + tempo = comédia".

O filme documenta, também, a sua vida e carreira. Há algumas facetas importantes do seu percurso que não tenham sido exploradas? Julgo que gostava de ter ouvido falar mais das ideias do meu trabalho, do facto de usar vozes diferentes para interpretar identidades diferentes e de brincar com a ideia de género... a importância da comunicação, no que toca a falar entre canções e romper a regra do "toca mas é a música"; o que é que isso tem a ver com outras artistas feministas que usam a linguagem no seu trabalho, mesmo quando os críticos homens chamam a esse recurso uma "muleta" ou dizem "se o teu trabalho fosse suficientemente forte não terias de usar essa linguagem...". Mas um dia, quando tiver para aí 60 anos, hei de escrever um livro completamente incoerente que cubra esses assuntos todos. 

Recentemente, voltou a fazer música e a atuar ao vivo, com o projeto The Julie Ruin. Do que tinha mais saudades: da energia de estar em palco, dos fãs? Cantar. Cantar. Cantar com bateria ao vivo. Cantar com os meus amigos. Estar dentro da música. E cantar. 

Nos anos 90 esteve muito envolvida com o movimento dos fanzines. Acha que esse formato amador, feito por fãs de música, pode coexistir com a comunicação contemporânea, bem menos orgânica e dominada pela internet?  Claro que sim. Simplesmente, hoje há muito mais escolhas, em termos do formato que queremos escolher. Os fanzines são mais viscerais, podemos agarrar neles com as nossas mãos e guardá-los como recordação. São táteis e, embora nos parecessem mais imediatos e efémeros, como se só existissem em certas cenas e durante determinados períodos de tempo, hoje, graças ao arquivamento, acabam por ser mais duradouros que a internet - o que é esquisito! Para mim, os fanzines criados atualmente estão mais perto da ideia de livro de arte, mas isso sou eu. Se estivéssemos em 1990 e o Tumblr já existisse, eu ia estar toda contente com essa merda.

Diz que, quando está em palco, não sente dor ou fraqueza. Sempre foi natural para si subir a um palco e sentir essa liberdade toda? Antes de cada concerto, estou sempre tão nervosa que até vomito. Mas, quando o espetáculo começa, as coisas mudam. Não diria que é propriamente natural, mas sim que é, ao mesmo tempo, excitante e meditativo. O facto de tentar manter-me no momento e ser capaz de pensar apenas numa coisa, tentando que o concerto seja o melhor possível, faz com que tudo o que resto que se possa estar a passar comigo - sejam dores ou problemas emocionais - desapareça. Essas coisas não são problema do público. Nunca!

Ela criou "Smells Like Teen Spirit"

Uma das canções mais populares dos Nirvana tem dedo de Kathleen Hanna. Amiga de Kurt Cobain, a cantora não escreveu nem a música, nem a letra do primeiro single de Nevermind. Mas, numa noite de copos com o vocalista dos Nirvana, sarrasbicou numa parede que Kurt cheirava a Teen Spirit, referindo-se ao desodorizante que a namorada do cantor usava. A frase saltou para título de canção icónica, ainda que Kurt desconhecesse tratar-se de uma brincadeira, acreditando ser um slogan revolucionário.

 

Entrevista: Lia Pereira