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Josh Homme: um guardião do rock nascido no deserto de Joshua Tree

Continuamos a recuperar artigos da BLITZ 92, dedicada aos guardiões do rock do século XXI. Josh Homme, dos Queens of the Stone Age, Eagles of Death Metal ou Them Crooked Vultures, é o herói desta segunda-feira.

Aos 40 anos, Josh Homme é um veterano da música. Afinal, foi aos 13  que o nativo de Joshua Tree, na Califórnia, começou a dar concertos, com uma formação embrionária do que viriam a ser os Kyuss. Duas das traves mestras da sua obra começavam, logo aí, a ser erguidas: a paixão pelo rock simultaneamente clássico e transgressor, com forte tempero stoner e psicadélico, e a ligação inquebrantável ao deserto. Anos mais tarde, o norte-americano organizaria as agora famosas Desert Sessions, levando para aquela região árida e inóspita vários músicos seus amigos. Na origem das gravações e patuscadas, das quais saiu um total de dez discos, estava a firme convicção, por parte de Homme, de que na ligação aos elementos mais primordiais está a solução para qualquer desnorte temporário. "O que eu adoro no deserto é a mesma coisa que adoro em qualquer situação", disse ao Jam Base. "A melhor forma de explicar isto é dizer que, no deserto, não há pressa. Tens a oportunidade de levar um pensamento até ao fim. Não existe a mesma pressão que sentimos na cidade". Os artistas que Homme convidou para se lhe juntarem no "covil" de Joshua Tree, entre os quais PJ Harvey, Mark Lanegan ou Ben Shepherd (Soundgarden), receberam assim, no entender do senhor Queens of the Stone Age, carta-branca para recordarem aquilo que os ligava, inicialmente, ao seu ofício. "Nas Desert Sessions, tocas pela música. Por isso é que é tão bom para os músicos. Se um dia eles sentirem que a música já não é a sua raison d'être, uma coisa destas pode fazer muito por eles. Porque é muito fácil esquecermo-nos que tudo começa quando nos pomos a tocar na garagem e descobrimos que adoramos". No caso de Josh Homme, essa descoberta chegou cedo. Aos oito anos, o filho de um empreiteiro pediu aos pais que lhe dessem uma bateria. "Desde pequeno que batia nas mesas e nas cadeiras", contou à pitchforkmedia. "Comecei a tocar guitarra porque não há pai que dê ao filho de oito anos uma bateria, a menos que esteja divorciado e a tentar reconciliar-se com a mulher". Músico profissional desde os 18 anos, altura em que lançou um disco com os Kyuss, de forma independente, Homme garante não saber fazer mais nada além de criar música, e não tem reservas em partilhar o seu método de trabalho. Longe do imaginário esquivo de tantos companheiros de profissão, o norte-americano de origem norueguesa é direto com as palavras e compara a forma como escreve canções a caçar. "Go With The Flow", um dos maiores êxitos dos Queens of the Stone Age, por exemplo, surgiu-lhe como uma peça una: letras, melodia, bateria. Mas nem sempre o processo é tão simples e indolor. Adepto da novidade, no que toca aos instrumentos e objetos aparentemente não musicais que usa ("Já gravei latas do lixo e postes de eletricidade"), Homme busca, na parte lírica, nada menos do que a verdade. "Acima de tudo, gosto de pintar uma imagem", ilustrou ao Jam Base. "Gosto do lado imagético da música, que é aquilo que define um contador de histórias. Prefiro escrever "I don't want to be some hanging leg of lamb" [em "Leg of Lamb"] e conseguir ter, logo ali, aquela imagem. Para mim, as letras ou são verdade ou não são. Tenho de escrever sobre algo que já aconteceu, ou que já vi". Musicalmente, Josh Homme procura, igualmente, atingir o âmago das coisas, quer siga ao volante dos Queens of the Stone Age ou se dedique a projetos pouco paralelos, como os destravados Eagles of Death Metal e o super-grupo Them Crooked Vultures, com Dave Grohl e John Paul Jones. "Tento que as minhas canções me deixem com aquela sensação de quando saímos pela primeira vez com alguém e voltamos para casa com 'borboletas' no estômago.

Quero que todas as canções me deem isso", resume ao Jam Base. "Mas, quando o alcanço, essa sensação desaparece e sou obrigado a persegui-la outra vez. É assim o rumo agridoce da música. É como ter areia na mão: não fica lá por muito tempo". No que toca a ídolos e décadas musicais prediletas, Josh Homme é invariavelmente frontal e os anos 70 que lhe deram o punk e o glam servemlhe, até hoje, de escola. "Dois dos meus álbuns favoritos são o Lust For Life e o The Idiot", revelou ao site Radio. com, salientando que ambos os discos de Iggy Pop saíram em 1977. "São produzidos pelo [David] Bowie, que os influenciou muito. Eles eram uma grande dupla e esses discos são uma inspiração [eterna] para mim. T-Rex, Bowie, Iggy: o som deles é omnipresente no meu cérebro musical". Apesar da fidelidade ao rock mais intemporal, Josh Homme diz-se fã de "tudo o que tenha 'ganchos' melódicos. Na mesma entrevista, justifica o facto de ter escolhido o tema "Oblivion", de Grimes, para passar na BBC Radio, com o seu gosto despreconceituoso. "As pessoas pensam que eu ouço música pesada todo o dia, quando na verdade adoro é ganchos. Não me interessa o estilo de música. Do Dean Martin aos Slayer à Motown, não importa. [Mas] só aos 20 e tal anos é que deixei de dizer que só ouvia música punk". Outra ideia feita que persegue o músico e produtor é de que, na sua banda-mor, é um verdadeiro tirano. A rotatividade de músicos no seio dos Queens of the Stone Age ajuda a sustentar esta teoria mas, ao Jam Base, o homem que em casa responde pela alcunha amorosa de 'Baby Duck' afiança que não toca uma canção, "se houver alguém na banda que não queira. E no que respeita a [despedir] pessoas, se eu for a tua casa dizer que está na hora de saíres, é porque já andas a fazer merda há pelo menos um ano". Mais próximo da imagem que tem de si próprio é a de um homem que comunica e produz sem rodeios ("O trabalho salvou-me sempre. Também me lixa, mas salvou-me sempre"). Questionado sobre eventuais repercussões da fama na sua vida pessoal e na privacidade da sua família, resume: "Sou só um tipo do deserto que faz música e adora. É a minha religião". Por falar em família: ainda que não tente escamotear os tempos em que as groupies faziam parte do quotidiano da vida na estrada ("Quem disser que não gosta, está a mentir"), o homem em tempos "acusado" de devolver a sexualidade ao rock é hoje pai de uma menina de 8 anos e de um rapaz de três, fazendo gala da sua devoção à mulher (Brody Dalle, vocalista das Spinnerette) e às suas "crias". Em 2011, à pergunta "qual é o sentido da vida?", disparou: "A família. E sempre senti isso. Houve momentos em que me armei em pirata e andei perdido em alto mar. Mas nem aí encontrei nada mais importante que as relações familiares". Talvez por isso traga tatuados nos dedos os nomes dos seus avós, Cam e Cap. "O que me importa é o que o meu avô me costumava dizer: se vais ser diferente, vão atirar-te pedras. Por isso, é melhor que aprendas a gostar de pedras".

Lia Pereira Artigo originalmente publicado na BLITZ de fevereiro de 2014