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(What's the Story) Morning Glory?, dos Oasis, celebra hoje 20 anos

Recorde aqui a última entrevista que os Oasis concederam à BLITZ, em fevereiro de 2009.

Faz hoje 20 anos desde o lançamento de (What's the Story) Morning Glory?, o álbum que fez com que os Oasis deixassem de ser uma banda de trajeitos indie para se transformarem num dos fenómenos mais sérios do rock dos anos 90. Foi a 2 de outubro de 1995 que a vida do quinteto de Manchester se alterou para sempre, por força de canções como a eterna "Wonderwall", "Don't Look Back In Anger" ou "Champagne Supernova", temas que conseguiram resistir ao teste do tempo e à perda de força da britpop na viragem de século. Gravado em maio do mesmo ano, (What's the Story) Morning Glory? é por muitos considerado como um dos melhores discos de sempre - em 2008, ficou em primeiro lugar numa sondagem realizada pela revista Q e pela loja de discos HMV, que o distinguiram como o melhor álbum britânico alguma vez lançado. Peça fundamental da chamada "batalha da britpop", que no ano de 1995 opôs os Oasis aos Blur - estes últimos venderam mais cópias do single "Country House" do que o quinteto o fez com "Roll With It", mas os irmãos Gallagher vingar-se-iam vendendo mais de 4 milhões e meio de cópias do disco -, foi (What's the Story) Morning Glory? que catapultou os Oasis para o estrelato, granjeando-lhes inúmeros fãs de todos os quadrantes: Cristiano Ronaldo, por exemplo, é um fã assumido. Em 2009, os Oasis punham um ponto final numa história marcada por conflitos, mas o seu legado ainda perdura; basta ver que, todos os meses, correm rumores de que a banda poderá voltar ao ativo. Recorde aqui em baixo a última entrevista que a banda concedeu à BLITZ, em fevereiro de 2009, mês que marcou também a sua última passagem por Portugal, meros seis meses antes de terminarem, pela mão de Lia Pereira. São a última banda inglesa a viver o mais clássico dos sonhos rock: fazem canções para ouvir com a mão no peito, tocam para estádios cheios, têm opinião apimentada sobre toda a gente e não se arrependem nem dos mais embaraçosos momentos. Em Fevereiro, e quatro anos após a última visita, os Oasis vêm a Portugal pela quarta vez, para um concerto no Pavilhão Atlântico. A Blitz falou com Liam Gallagher e sobreviveu para contar a história. A década de 90 não teria sido a mesma sem os Oasis. Definitely Maybe, o álbum de "Live Forever" ou "Rock 'n' Roll Star", foi a primeira pedrada no charco e serve, ainda hoje, de termo de comparação sempre que se fala em estreias bombásticas e de sucesso incontornável. Lançado no Verão de 1994 e apresentado pelo petardo que é "Supersonic", Definitely Maybe vendeu 100 mil cópias nos primeiros quatro dias em que esteve nas lojas e, no espaço de poucas semanas, ganhou o título de disco que mais rapidamente foi açambarcado pelos fãs, na fervilhante história da pop em Inglaterra. O estado de graça prolongar-se-ia no ano seguinte, com o igualmente bem sucedido (What's The Story) Morning Glory?, a "casa" de clássicos como "Roll With It", "Champagne Supernova" ou "Wonderwall", porventura a canção que mais mortais trauteiam de imediato, ao ouvirem o nome dos Oasis. Sem surpresa, Noel Gallagher, compositor daquela que é uma das músicas mais elogiadas e transversais da banda, diz já não poder ouvir falar nela. É que, além de escritores de canções de recorte clássico, assumidamente seguidores da escola "brit" Beatles, The Jam, The Kinks os Oasis são a banda mais desbocada de que há memória. A paixão pela polémica dos irmãos Gallagher, muitas vezes mal interpretada fora do seu habitat natural, a Grã-Bretanha, nunca deu sinais de abrandar, mesmo quando as vendas dos discos começaram a perder gás e, depois da arrasadora trilogia Definitely Maybe, What's The Story (Morning Glory?) e Be Here Now, os anos 00 não foram tão amigos dos manos de Manchester como a benfazeja década de 90. Lançado no final do ano passado, o mais recente Dig Out Your Soul ameaça trazer de volta para as luzes da ribalta as canções ambiciosas, pulsantes e tão conservadoras como sempre dos Oasis. A fama de espalha brasas do clã Gallagher, actualmente secundada por Gem Archer na guitarra, Andy Bell no baixo e Chris Sharrock na bateria, também não tem sido descurada; nas últimas semanas, Liam e Gallagher agraciam a imprensa britânica com uma provocação por dia, atingindo alvos tão diversos e irresistíveis como Amy Winehouse, Pete Doherty ou os Coldplay. À BLITZ, numa entrevista exclusiva, Liam Gallagher garante que não acorda a pensar em deitar abaixo esta ou aquela banda, e que o seu único pecadilho é ser um rapaz honesto. Apesar dos "fockings" disparados a meio de cada frase, que remata invariavelmente com um "man!", Liam Gallagher parece, genuinamente, um rapaz simpático. E jura que está ansioso pelo dia 15 de Fevereiro, data em que os Oasis dão o seu segundo concerto em nome próprio no nosso país, mais precisamente no Pavilhão Atlântico. "Mal posso esperar, man!", diz-nos ao telefone de Minneapolis, onde os Oasis se encontravam, em finais de 2008, para mais um concerto da digressão norte-americana de Dig Out Your Soul. Em Portugal é quase meia-noite, nos Estados Unidos pouco passa da hora do chá. À semelhança do guitarrista Nick McCarthy, dos Franz Ferdinand, com quem também conservámos neste número da BLITZ (ver entrevista página 54), Liam Gallagher responde por um nome falso, junto dos recepcionistas do hotel onde a banda se encontra instalada. À hora marcada, atende o telefone e fala-nos, com amabilidade, do tempo frio que faz em Minneapolis e da forma como tem ocupado a folga até ao concerto da noite que tem pela frente. Ao vivo em Lisboa, no próximo mês de Fevereiro, os Oasis irão tocar "uma boa mistura, de coisas velhas e coisas novas", a actual receita da banda em palco. Será que o material mais recente se aguenta na "competição" com as velhas conhecidas do público? Uma sondagem recente mostrava que, para o público inglês pelo menos, o alinhamento ideal de um concerto dos Oasis seria composto por 90% de canções anteriores a 2000, com "Champagne Supernova", "Whatever" ou "Morning Glory" à cabeça. "Acho que as pessoas têm reagido bem às músicas novas, sobretudo aos singles", responde Liam Gallagher. "Mas sabes que mais?", dispara. "Eu nem presto muita atenção à reacção das pessoas". O falso alheamento, já se sabe, faz parte da pose do cantor que ganha a vida a cantar com as mãos atrás das costas e que escreveu "I'm Outta Time", o terceiro single de Dig Out Your Soul. Nem de propósito, Liam Gallagher acha que a sua canção é "uma das novas favoritas do público. Quer-me parecer que gostam dessa. Pelo menos batem palmas e parecem estar a curtir". O pormenor de ter sido Liam, e não o principal compositor dos Oasis, o seu irmão Noel, a escrever a música não influencia a sua opinião bem positiva sobre a própria criação. "A decisão de ser single foi do nosso agenciamento. Nós temos as músicas e damos-lhe aquilo que eles querem, man!", exclama o cantor, pouco interessado em burocracias. "Eu gosto da canção. Não me aflige se é single ou deixa de ser. Gosto do álbum como álbum". Frequentes vezes apresentados como gente de fracos recursos intelectuais, Liam e Noel Gallagher são, isso sim, donos de uma sinceridade desarmante e de um sentido de humor que também serve para "ferrar" a própria banda. Na entrevista com a BLITZ, por exemplo, Liam Gallagher tenta descrever o novo álbum mas faltam-lhe as palavras. Diz ele: "Não consigo explicar muito bem, mas é um disco bastante psicadélico, percebes o que quero dizer?". Percebemos, e acrescentamos que, na redacção da BLITZ, ao ouvir o single "Shock of the Lightning", houve quem de imediato dissesse. "Deixame adivinhar, disseram: "Desliga-me já essa porcaria!"", brinca Liam Gallagher, fazendo humor em causa própria. Quando lhe dizemos que o comentário foi, pelo contrário, bastante abonatório uma comparação com o primeiro disco dos Oasis o inglês torce o nariz. "O "Shock of the Lightning" até parece um bocado os Oasis dos primeiros tempos, mas espero bem que este disco não soe ao nosso primeiro álbum. Mas percebo a ideia: é música rock muito directa, certo? Isso é sempre bom. Cool, man!". DIRECTOS AO ASSUNTO Numa época em que a ironia dita o "modus operandi" de boa parte das bandas indie, a ambição desmedida dos Oasis, bem como o seu antiquado hábito de dizerem exactamente aquilo que lhes passa na cabeça, torna-os numa estirpe de estrelas rock em vias de extinção. Perguntamos a Liam Gallagher se, em pleno século XXI, nunca sente pertencer a outro tempo. "Se me sinto fora de moda em relação à música de hoje? Eu não! Se alguém está fora de moda são os miúdos de hoje em dia! Eu sinto-me é autêntico", garante. E qual o diagnóstico que faz, então, dos garotos dos anos 00? "Não acho que haja nada de errado com as bandas de hoje. O que acontece é que não pensam em grande. Pensam em pequeno, percebes? Não acho isso nada fixe. Vais aos concertos e ouves a música que eles fazem e percebes que têm medo de serem grandes, mesmo grandes. Medo, medo é o que eles têm!". E falta de ambição? "Claro que sim. Falta-lhes ambição na escrita de canções. Mas é a vida. Nem todos podem ser grandes", conclui, com uma pequena risada. No final de 2008, a revista Q dedicou aos Oasis uma edição especial, publicando entrevistas com todos os seus músicos e ainda depoimentos de gente famosa sobre a sua relação com a banda de Manchester. Alguns, como Peter Hook, dos New Order, The Edge, dos U2, ou o escritor Irvine Welsh escolheram as suas músicas favoritas dos Oasis. Já Tom Meighan, vocalista dos Kasabian, escreveu mesmo um emocionado elogio a Liam Gallagher, considerando-o a última das estrelas rock. "Gosto dos Kasabian, são uma banda bem boa. Eles sim, pensam em grande!", retribui o homem dos Oasis. "Percebo o que ele quer dizer ele acha que eu sou um espectáculo! Eu também acho que ele é um espectáculo. Mas espero bem não ser a última estrela rock. Temos de levar isto para a frente, continuar a tradição". A mesma confiança que, no entender de Liam Gallagher, falta às bandas novas, sempre sobrou no seio sua família mesmo que a história do seu agregado seja tudo menos cor-de-rosa ou afluente. Das fraquezas o vocalista dos Oasis fez forças e, hoje, acha que ter sido expulso da escola aos 15 anos (primeiro por não usar o uniforme oficial da escola, depois por diversas escaramuças) foi mais uma bênção do que uma maldição. "Fiz asneira e expulsaram-me. Então arranjei trabalho num centro de jardinagem", conta à revista Q. "Enquanto os outros andavam na escola [a estudar] eu pintava cercas e ganhava 50 libras por semana. Além do mais, à Sextafeira ao meio-dia já estava despachado, por isso pegava na minha [bicicleta] BMX, ia para a escola com o dinheiro e esfregava-o à frente [dos meus colegas]. Olhem para isto, seus cabrões!". UMA QUESTÃO DE GENES Liam Gallagher, é justo dizê-lo, já nasceu uma estrela rock. "Oh, claro que sim!", diz-nos ele, quase amuado. "Antes de eu sequer estar numa banda já achava que era uma estrela rock, percebes? Porque é disso que são feitas as pessoas de Manchester, desse convencimento. Em Manchester, toda a gente se acha bastante cool... Quando eu trabalhava na construção, por exemplo, já era bem cool. Só estava à espera que o meu momento chegasse". Liam Gallagher tem a certeza que a vocação para os palcos "não se pode comprar" mas acredita piamente que Manchester, a cidade da qual é natural e que defende até às últimas consequências, lhe deu uma preciosa ajuda. O seu carácter não seria o mesmo se, ao invés de no Norte de Inglaterra, tivesse nascido em Londres, garante-nos. "Em Londres é só merdas. O pessoal todo cheio de rodeiozinhos... Em Manchester não, vamos directos ao assunto", explica, na enésima versão da guerra Norte/Sul conhecida em tantos países perto de si. "Quer dizer, Londres até é fixe. Tem coisas boas, porra! Mas as pessoas são frias, se precisas de ajuda elas continuam o que estão a fazer, ao passo que em Manchester são capazes de fazer qualquer coisa para te ajudar". Também a pitoresca frontalidade dos Gallaghers, no que toca a comentar a conduta e a obra alheias, é fortemente influenciada pelas raízes nortenhas dos Oasis, e não tanto pelo desejo de enxovalhar o próximo, diz-nos Liam, cada vez mais inspirado e à-vontade. "Ai eu opinião tenho sempre! No dia em que não tiver opinião é porque o mundo está para acabar! Tenho mais do que fazer do que perder tempo a falar de bandas da treta. Mas se alguém me pergunta o que eu acho, se gosto ou não gosto, eu digo-lhes o que penso! Não me levanto de manhã a pensar: vou embirrar com aqueles! E também há muita gente que não gosta da minha banda, porra. E eu não me preocupo com isso. As pessoas não se deviam preocupar tanto com essas coisas", desabafa, de forma quase cândida. Decidimos testar, então, o desportivismo de Liam Gallagher. Será o vocalista principal dos Oasis capaz de tecer uma crítica à própria banda? A ideia começa por confundi-lo. "Mas os Oasis sou eu!", reclama. "Os Oasis são aquilo que eu escolhi fazer. Embora não esteja sempre nos Oasis... Estou nos Oasis quando estou a fazer música, ou a dar concertos. Mas deixa-me ver, o que é que seria uma crítica justa aos Oasis... Olha, que nos mexemos demasiado em palco, man! Aqueles tipos deviam eram estar quietinhos, man!", brinca. Aproveitando a crescente boa disposição de Liam Gallagher, quisemos saber mais sobre o incidente que, no começo de 2008, deixou Noel Gallagher em mau estado. A meio de um concerto na cidade de Toronto, no Canadá, um espectador invadiu o palco e abalroou, literalmente, o irmão mais velho de Liam, obrigando-o a ser assistido no hospital e cancelar alguns espectáculos. "Já não tenho medo, pus isso para trás das costas, no fundo da minha memória. Para que não me chateie mais", diz Liam Gallagher, que, nos vídeos do episódio que circulam na Internet, parece ter ficado bem perturbado pelo imprevisto. "O que é que se há-de fazer? Temos de andar em frente, podia ter sido muito pior, o tipo podia ter uma arma! Se calhar o Noel ainda pensa nisso, eu já não". Quanto às razões que terão levado ao acto tresloucado, a resposta sai-lhe mais jocosa: "Sei que a polícia está a tratar dele, por isso um dia destes havemos de saber mais alguma coisa. É um maluco qualquer, percebes? Deve achar que escreveu as nossas canções, sei lá". Se fosse esse o caso, não seria uma situação inédita para os Oasis. "Aí há uns anos havia um tipo da Escócia que andava todo maluco a dizer que os Oasis lhe deviam dinheiro, que ele é que tinha escrito o Definitely Maybe!", recorda. "E eu assim: "ouve meu, se tu tivesses escrito o Definitely Maybe, eu acho que sabia disso!". Já deve ter voltado a tomar os comprimidos, entretanto. Os malucos andam aí! Andam à solta... em todo o mundo... Até há uns quantos nos Oasis", ri-se. Divertido com a própria prosa, Liam Gallagher acede também a comentar a polémica que, no final de 2008, opôs os Coldplay a Joe Satriani: o virtuoso guitarrista acusa os ingleses de terem escrito "Viva La Vida", um dos grandes hits do ano passado, com base numa das suas músicas. "O Satriani devia era estar caladinho, se fosse eu tinha vergonha de dizer que tinha escrito aquilo!", exclama. "Nem acredito que ele tenha vindo a público dizer: fui eu que escrevi a música! Ai foste? Então deviam era processar-te a ti!". Em diversas ocasiões, os Oasis já confessaram ter gasto pequenas fortunas em drogas, casas onde nunca viveram e carros que nunca conduziram. Hoje, os manos terríveis levam uma vida vagamente mais pacata, mas Liam Gallagher assegura que não guarda arrependimentos. "Não tenho saudades de quando não éramos famosos, nem me arrependo de nada que tenha feito. Mas também não me sinto como se fôssemos uma banda velha, até tenho a impressão que começámos ontem, sabes? Acho que continuámos no mesmo caminho: fazer boa música, tocá-la bem, passá-la às pessoas e ir por esse universo fora. Deitar as paredes abaixo. Sempre foi assim connosco, desde o primeiro dia. A mensagem ainda é a mesma". Se do futuro próximo dos Oasis não consta a palavra mudança, do de Liam Gallagher também não. As notícias que falam da edição de discos a solo das figuras de proa da banda, por exemplo, não têm fundamento: "Ui, disco a solo? Para mim não!", interrompe-nos Liam. "O Noel já há muito tempo que fala nisso, por isso boa sorte para ele, mas eu não tenho necessidade nenhuma disso. O meu ego já é suficientemente grande. Não preciso de fazer isso só para poder dizer: olhem para mim, sou capaz [de brilhar sozinho], não preciso dos outros! Sou tão bom! Isso não é para mim: é mais para o Robbie Williams e essa gente. O Noel que faça um disco a solo, que eu fico mas é em casa com os miúdos, a descansar e descontrair. E a rir-me", acrescenta maliciosamente o pai de Molly, Lennon e Gene, de 10, 9 e 7 anos. Avançando ainda um pouco mais no tempo, atrevemo-nos a perguntar a Liam Gallagher como preferiria ser recordado, no dia em que tiver de ajustar contas com o criador: com uma estátua na sua querida Manchester, ou com a abertura de um pub com o seu nome? "Acho que preferia o pub, man", responde, após uma pequena pausa. "Se fosse uma estátua os pombos cagavam tudo. E os estudantes iam para lá fazer parvoíces. Venha daí o pub!".