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Iron & Wine ao vivo em Lisboa: A América de Sam Beam é também a nossa

Estreia imaculada do cantautor norte-americano em Portugal, no lisboeta Tivoli. Vinte canções e um coração enorme, distribuído pelos presentes como uma hóstia.

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Há uma América que nos chega através da literatura, do cinema, da música. Uma América real e profunda, com cheiro a pinheiro, percorrida por camionistas aventureiros desde as planícies do Montana até ao Bible Belt sulista, e habitada por comunidades tementes a Deus onde o indivíduo não importa mais, ou menos, do que o todo. Uma América que Walt Whitman cantou por entre a erva fresca e o sexo por medir: Those of earth-born passion, simple, never constrain'd, never obedient. Esta é a América de Sam Beam, aquela que abraça sem ferir, e que junto de uma fogueira onde a carne se assa salgada vai contando histórias e amarguras, reflete o coração em cada pedra e dedilha um poema como quem beija. A América de ruralidade desenvergonhada onde a simplicidade é a chave para um qualquer presente temporal. Aço e vinho interligados. Naquela que foi a sua, há muito aguardada, estreia por terras lusas, Sam Beam sorriu e fez sorrir numa inocência quase infantil, desdobrando-se em agradecimentos e desculpando os erros na mesma medida, ele que diz que tocar ao vivo é como aquele sonho em que nos encontramos na escola, de calças derreadas, perante a turma inteira. Freud que explique. Assim como explicará as inúmeras referências à mãe ("Upward Over The Mountain", com a qual abriu o concerto, foi inclusive dedicada às mães presentes na audiência), a pássaros e ao amor. O que o austríaco nunca poderia explicar é como é que cada um dos presentes no Tivoli se sentiu americano por uma noite, se sentiu parte dessa comunidade de onde provém Sam Beam. Talvez Fernando Pessoa o consiga: saudades imaginárias da terra onde nunca se esteve. Comunidade, e comunhão. O cantautor não é uma jukebox, e ressalvou-o, mas ao mesmo tempo lá foi acedendo a (quase) todos os pedidos que brotavam da audiência como súplicas. Ele entende: o público português há muito que merecia passar uma noite junto de si e da sua guitarra, dos seus causos e da sua voz afetuosa. Tio Sam passeou-se por "Jesus The Mexican Boy", "The Trapeze Swinger" (num enorme arrepio, quando a sua guitarra se cala e deixa apenas que a voz paire pelo espaço) e "Boy With A Coin" com uma simpatia desmedida. Quando os seus versos se escutam, nenhum outro ruído perpassa a sala; o silêncio sepulcral só é combatido pelos aplausos efusivos com que cada uma das suas canções é recebida. E, claro, pelas dezenas de pedidos. "Belated Promise Ring" falhou a meio - e merece da parte do cantautor um autodepreciativo, mas feliz, ah, shit!, como se este espetáculo mais não fosse que uma noite passada na mata cerrada, entre os amigos e a natureza. "Lovers' Revolution", uma das mais requisitadas, mostrou a sua faceta mais rock'n'roll, sujidade a transbordar das cordas e da garganta. Ao todo, Sam Beam apresentou vinte canções, encore incluído, percorrendo os seus cinco álbuns de estúdio e ainda alguns dos seus EPs e havendo ainda espaço para uma canção nova, "The Backwater Birds", uma espécie de outlaw country como que para provar que todas as comunidades têm a sua ovelha negra. "Me And Lazarus", de Kiss Each Other Clean [2011], foi das mais bem recebidas, assim como "Jezebel" (do EP Woman King); mas a apoteose total, o momento em que Sam Beam não parece apenas humano, deu-se com "Flightless Bird, American Mouth", apresentada praticamente a cappella, quase como se o músico estivesse a entoar um novo hino americano - a sua alma dissolvendo-se pelo ar e aterrando no coração dos presentes, que daquele teatro saíram cheios. E em comunhão, como nesta América. Texto: Paulo André Cecílio Fotos: Rita Carmo/Espanta Espíritos