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Road to Extinction: Diário de bordo da digressão dos Moonspell, por Fernando Ribeiro

O vocalista dos Moonspell vai contar-nos histórias da digressão europeia em que a banda embarcou recentemente. Neste primeiro texto reflete sobre a partida e a ausência. 'Estás preparado?'.

Estás preparado? Outro dia tentámos contar as tours que já tinhamos feito Europa fora, e, enquanto os meus colegas chegavam a um número, eu já estava distraído com outra coisa no meu pensamento: ninguém verdadeiramente entende como é a vida dos músicos em Portugal ou de Portugal. Duas coisas diferentes. Sem juízos de valor, a minha é bastante diferente de quase todos os músicos em Portugal. Não só pelo que sou e sinto; mas também por um percurso diferente, uma trajectória que ainda nos surpreende e que, por vezes, é absolutamente intraduzível perante colegas de profissão, família, na escola dos filhos, no mercado, no táxi, nas entrevistas com a imprensa.

Não tenho grande tempo para aproveitar e juntar-me à cena burguesa de dar concertos ao fim de semana e passar a semana enfiado em cafés cheio de estilo, a mamar brunches austríacos e cervejas de autor. Também nunca fiz uma pausa sabática para reencontrar força e inspiração. Não me mudei para o campo, nem me juntei ao mindfulness. Tudo o que há para ser vivido, vivo e tento manter-me nesse estado.

Sei bem que muitas pessoas que fazem parte do meu quotidiano têm a leve ideia de que ando por aí, mas os detalhes dessa vivência são-lhes estranhos e confusos. Um autocarro com camas? Tocar todos os dias? Três horas antes no aeroporto? O conforto adiado? Depois, quando aparecer e começar a contar como foi, fazendo conversa de circunstância, estarei apenas a falar não uma língua diferente, mas a utilizar um léxico inútil de palavras, sítios, referências que muito pouca gente está preparada para entender.

Por isso, fico contente de as poder partilhar no futuro com o Tiger Man, com os Dead Combo, a família Gift, que também e que bem têm andado por aí em situações e sítios que nos são familiares. Quando leio coisas sobre eles, ou quando eles próprios as partilham, sinto-me bem, muito bem. É esta sensação que poderá alimentar uma cultura que não existe, e não o circuito do fado, que não é o do rock. Duvido que algum fadista fique sem banho ao fim da noite nas Américas. Ainda por cima sua-se menos.

Os últimos telefonemas que a minha família me faz é para me desejar felicidades mas também para me perguntar se estou preparado. Amigos e fãs também: estão preparados? Estás preparado? Ao chegar agora ao autocarro, onde vou dormir em movimento cerca de um mês (podia ser pior, bem sei, pode sempre) não consigo responder. Desde 1995 que faço isto. Sem interrupções para auto-análise, família ou datas. O meu filho Fausto tinha apenas 18 dias quando fui em tour em 2012. Sim, tenho uma mulher (linda, por sinal) que também é da música e por isso "bla bla bla"... Não, não entendem. As lágrimas no sofá, o beijinho na testa do nosso infante pela madrugada, o sorrir no Skype quando por dentro o coração aperta, o sentido do dever versus o dever do sentido. Gosto muito do que faço mas há coisas para as quais nunca estamos preparados. Ainda assim fazemo-lo porque é a nossa vida, o nosso sustento, a nossa paixão, e cá estou eu, hoje na Holanda, daqui a dois meses no México, daqui a seis, sei lá, outra vez na China. Aviso: este não é um texto de ingratidão, apenas do amor que tenho a quem deixo, ao que deixo. Regresso sempre mas deixem-me choramingar um pouco, talvez. Muitos de vocês não aguentavam aqui uma semana.

Vou preparar-me então. Passem-me aí a foto do meu filho para lhe dar um beijo. Let's rock! A digressão europeia dos Moonspell começou a 12 de março na Holanda e termina a 2 de abril em Londres. A 27 e 28 de março passa por Portugal: no Coliseu de Lisboa e no Hard Club, Porto, respetivamente. Texto e fotos (salvo assinalado): Fernando Ribeiro Foto (destaque): Rita Carmo/Espanta Espíritos