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Hard rock: uma história de peso

Há uma linha que liga a electrificação dos blues aos devaneios pesados desde os anos 70 até ao presente. Rui Miguel Abreu desenhou-a outra vez num artigo que recuperamos no dia em que se confirma o regresso dos AC/DC a Portugal.

Na década de 60, as culturas alternativas, as drogas e tecnologia permitiram ao rock evoluir drasticamente para lá dos moldes com que tinha sido criado nos anos 50. Ao mesmo tempo que em São Francisco uma série de bandas procurava expandir as consciências introduzindo no rock influências orientais e estruturas alternativas, em Inglaterra o crescimento de uma escola local de blues deu a toda uma geração de músicos três importantes bases que conduziram à imposição do hard rock: um forte circuito de concertos que devolveu ao rock uma certa crueza e uma mais directa relação com o público; a base pentatónica dos blues como um ponto de partida em termos de estrutura musical; e, finalmente, a electricidade. Enquanto nos Estados Unidos a tradição folk dos anos 60 dava origem a cantores como James Taylor e Carly Simon, porta-estandartes do soft rock, a partir de Inglaterra o volume dos amplificadores era levado para lá do 10 graças ao trabalho de bandas como os CREAM (de Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker), ROLLING STONES, YARDBIRDS, KINKS ou THE WHO. Os próprios Beatles endureceram o seu som em temas como "Helter Skelter" e "Revolution", sentindo a atracção irresistível dos decibéis. Mas não era apenas a amplificação que abria portas ao hard rock. O processamento nas guitarras fazia o mesmo: heróis da guitarra como JIMI HENDRIX, ERIC CLAPTON, PETE TOWNSHEND e JEFF BECK aumentaram consideravelmente o arsenal de soluções tímbricas com pedais de phasing, wah wah, distorção e, claro, com o feedback. Tudo isso abriu caminho a uma nova geração que nos anos 70 sagraria, definitivamente, o hard rock.

Jimi Hendrix Os BLACK SABBATH, DEEP PURPLE, LED ZEPPELIN, NAZARETH ou até QUEEN são bons exemplos de grupos que testaram os limites da força no rock na primeira metade dos anos 70, criando memoráveis obras que, nalguns dos casos, são mesmo apontadas como predecessoras directas da estética heavy metal. O grupo de Ritchie Blackmore foi mesmo responsável pela conversão à guitarra de muitos futuros músicos que normalmente assinalavam a primeira etapa na conquista desse instrumento com o domínio do riff de "Smoke on the Water", tema incluído no álbum de 1972 dos Deep Purple, Machine Head. Com apresentações literalmente explosivas nos Estados Unidos, como a que aconteceu no lendário festival californiano de 1974, California Jam, onde os Black Sabbath também tocaram, os Deep Purple foram dos principais embaixadores do rock mais pesado abrindo o caminho para o sucesso de grupos como ALICE COOPER, AEROSMITH, RUSH (do Canadá) ou KISS, um dos maiores fenómenos do planeta rock na década de 70.

Deep Purple Retoques na maquilhagem Os Kiss pegaram nas típicas marcas do hard rock e acrescentaram à fórmula uma teatralidade que ajudou a transformá-los em gigantes do circuito de arenas nos Estados Unidos, fazendo ao mesmo tempo a ponte para a geração hard que haveria de surgir na década de 80. O álbum Alive!, de 1975, era quase um manual na nada subtil arte do hard rock riffs, power chords, volume, músculo. Estava tudo lá. David Lee Roth ouviu atentamente e quando em 1978 os VAN HALEN editaram o seu álbum de estreia, onde se incluía uma versão de "You Really Got Me" dos Kinks, o sucesso chegou imediatamente. Nesta altura, claro, já os AC/DC tocavam regularmente nos Estados Unidos, impondo a sua visão pesada dos blues no subconsciente de toda uma geração. À beira dos anos 80, o grupo de Bon Scott assegurava com Highway to Hell o seu maior sucesso até à data. Mas nem a ausência do imenso carisma de Scott, que viria a falecer em 1980, impediu que Back in Black se transformasse num dos álbuns mais vendidos de sempre, encabeçando, certamente, as listas de maiores êxitos do hard rock. Com este álbum, o grupo australiano definiu o pulsar hard dos anos 80 que iria assistir a uma ainda maior disseminação do rock mais musculado graças ao aparecimento da MTV que sagrou bandas como DEF LEPPARD, MOTLEY CRUE, TWISTED SISTER e, claro, os grandes campeões da década, os GUNS N' ROSES.

Como é óbvio, nos anos 80 o metal também reinou supremo, graças a bandas como os METALLICA, mas no território hard, menos extremo, as coisas não acalmariam no virar da década graças ao poder do grunge de bandas como ALICE IN CHAINS, NIRVANA ou SOUNDGARDEN, que soavam como devedoras, em iguais doses, do hard rock dos 70s de grupos como Led Zep e também do punk dos Ramones ou Clash.

Soundgarden No presente, este espírito hard continua bem vivo em bandas tão diferentes como QUEENS OF THE STONE AGE, THE DARKNESS (fora de combate), VELVET REVOLVER, AUDIOSLAVE ou WOLFMOTHER, entre várias outras. O poder dos riffs, o volume eléctrico e a força continuam a ser coordenadas e o hard rock uma via válida para quem quer que pegue numa guitarra. Texto: Rui Miguel Abreu Originalmente publicada na BLITZ de novembro de 2008