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FMM Sines, a última noite: do maravilhoso mundo da kora ao ritmo dançante do afrobeat

Na despedida da edição deste ano do festival, o triunfo das tradições ancestrais do Mali e da energia do afrobeat. Número de espectadores ultrapassou os 100 mil durante todo o evento, afirma a organização.

Entrou sozinho, apesar do programa prometer um dueto. Olhos brilhantes, corpo confiante, Sidiki enfrentou a audiência que preencheu à cunha o recinto do Castelo de Sines, para provar como atrás de uma abordagem aparentemente simples se esconde uma rara complexidade. Na última noite do Festival Músicas do Mundo (FMM), os bilhetes esgotaram, e os concertos marcados para encerrar a edição de 2015, naquele palco, prometiam iniciar a viagem na raiz das tradições ancestrais do Mali e terminar ao ritmo dançante do afrobeat. Assim que os dedos de Sidiki Diabaté abordaram a kora (uma espécie de harpa e alaúde, com 21 cordas e mais de 700 anos) tornou-se clara a sofisticação do instrumento e a superioridade do músico. O filho do prestigiado Toumani Diabaté seguiu em palco, com segurança, por mais 15 minutos, até o pai entrar, e apresentar o próprio filho: "Estão prontos? Estão prontos?", perguntou depois Sidiki a um público que já se tinha deixado hipnotizar, como que para dizer que o concerto só começaria naquele momento em que pai e filho estavam reunidos lado a lado.

O diálogo entre os dois, e entre as suas duas koras, iniciou-se, estendendo-se depois ao próprio público, com Sidiki a dar o ritmo das palmas que acompanhariam uma parte de performance do pai. Toumani fez ainda questão de sublinhar a ancestralidade da música e da kora e de como este instrumento sobrevive atravessando gerações. No final da atuação dos dois, e ainda na escada de saída de palco, pai e filho cruzar-se-iam com outro maliniano, Salif Keita, o rei vestido de branco, que sentado à boca do palco faria ecoar as suas canções, acompanhado pelos Les Ambassadeurs. A kora continuaria em palco, mas agora acompanhada também por instrumentos eléctricos. No "backstage", passeava-se então David Murray, o músico de jazz norte-americano que, depois de há uns anos ter tocado no FMM, resolveu comprar uma casa em Sines, e voltar todos os anos para assistir ao festival. O saxofonista acompanhava as movimentações no palco, à distância, vestido num impecável fato às riscas e resguardado atrás de uns óculos de sol. No final do espetáculo do concerto de Salif Keita, e num tom muito mais bem disposto do que lhe conheci há uns anos quando fez um concerto no Coliseu de Lisboa, o músico do Mali confessava ter trocado Paris por todo o mundo, "ter a casa em toda a parte", e sublinhava "a sensibilidade do público português" e o prazer de conhecer este festival.

A festa, em Sines, seguiria, no palco do Castelo, com Orlando Julius, pioneiro do afrobeat, e um dos responsáveis pelo diálogo da música africana com a música afroamericana, acompanhado por The Heliocentrics. Não faltaria o habitual fogo de artifício que todos os anos parece incendiar o Castelo. Mas o FMM, como sempre acontece, só acabaria na praia, à luz do dia. Para o ano haverá mais, até porque o diretor artístico do FMM, Carlos Seixas, garante que por este andar, com o número de espectadores a ultrapassar os 100 mil, o FMM está próximo de alcançar a auto-sustentabilidade, e continuar a viver, ao contrário de grande parte dos festivais de verão, livre da intromissão das marcas e da publicidade. Texto: Cristina Margato (jornalista do Expresso) Fotos: FMM Sines