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Florence de nascença, Machine de missão: esta é a história de um regresso [ARQUIVO]

No dia em que se sabe que Florence + The Machine regressará a Portugal em abril de 2016, entramos na montanha-russa emocional que foram os últimos anos da banda inglesa e da sua intensa mentora.

Florence de nascença, Machine de missão. É uma forma de dizer, claro. Espécie de romance. Porque a sua história é de facto a de uma quase máquina. Mas o nome da banda tem outra história. É que no início de tudo, Florence Welch, com vinte e poucos anos, encontrou na amiga e teclista Isabella Summers a sua máquina, o seu parceiro criativo de confiança, o seu motor de arranque. E que arranque. Lungs, o celebradíssimo álbum de estreia de Florence + The Machine, catapultou o nome de Florence Welch para um patamar que esta mal podia imaginar com a sua tenra idade. Depois os seus aliados e colaboradores multiplicaram-se. A banda fez-se e construiu-se. Parte da história é do conhecimento geral. De repente, Florence Welch ficou ombro a ombro com os grandes nomes da música atual, com uma carreira avaliada em largos milhões de euros, a viver um sonho. O sonho que provavelmente nunca soube que tinha. Mesmo que continue longe de saber tratar de si própria, mesmo que tenha decidido mudar-se para uma casa a menos de cinco minutos de distância da casa da sua mãe para não abrir mão de alguma segurança e algum conforto de espírito. Florence Welch não quer dizer adeus à sua vida normal; quer estar a viver o sonho porque adora cantar, porque precisa de cantar mas acordada. Está agarrada a essa ideia para se manter perto das suas raízes, para não ceder aos encantos e aos luxos da fama. Enquanto lhe for possível, quer encontrar um equilíbrio para esse compromisso. Se for possível, ela vai tudo fazer para que o seja. Primeiro com Lungs, depois com o sucessor Cerimonials, Florence + The Machine tornouse num fenómeno à escala global, colhendo nomeações e prémios vários, vendendo milhões de cópias, chegando rapidamente aos grandes palcos dos grandes festivais, invadindo o espaço radiofónico com uma sequência de singles que colocam em grande destaque a intensidade e emotividade da voz de Florence Welch. E entretanto tornou-se impossível não reconhecer o seu timbre, a sua força, a sua marca. Aquela forma de furacão que ganha quando coloca palavra sob palavra em cada canção. A história da sua ascensão meteórica é como a de tantas outras: envolve sofrimento, envolve confusão, envolve dores de crescimento muitas a variadas. Envolve um divórcio, relações que correram mal, terapia, enfim, os dramas da vida comum mas transformados em canções, em arte, em expurgação. Florence nasceu em Camberwell, no sul de Londres, filha de uma professora de história e de um homem da publicidade. Não terá passado por dificuldades económicas é o que se pode perceber das suas entrevistas. Mas há pior: os seus pais divorciaram-se quando Florence estava a entrar na vida adolescente. Pouco depois, a sua mãe decide casar-se com um vizinho (viúvo) e as duas famílias vizinhas tornaram-se mais do que isso. Deixou de ser a mais velha de três irmãos para ser uma entre seis. Alguns mais novos, alguns mais velhos. Seis adolescentes ao todo. Houve confusão, discussões, tudo o que pode existir quando duas famílias se juntam debaixo de um mesmo telhado. Como acabou por entrar na música já é outra história. E que história. Depois de alguns falsos alarmes, de alguns "quases" e "talvez", de arranques carregados de erros e precipitações. Mas de tentativas. De muita descoberta. Quase fez música folk, quase produziu algo palpável depois de estar em estúdio com Johnny Borrell, dos Razorlight, em 2007. Quase. Mas quando Florence viu que estavam reunidas todas as condições nem olhou para trás. Todas as suas dúvidas terminaram. As ânsias não, todos os outros receios também, mas os bloqueios criativos ficaram resolvidos logo ali. Take um. A cena de descoberta dos talentos de Florence Welch é digna de um filme. É assim que se conta: depois de ter gravado vozes com uma banda chamada Ashok, percebeu que estava na banda errada, cancelou o contrato que os unia por lei e decidiu procurar um novo rumo. Numa noite de exageros alcoólicos, foi descoberta por Mairead Nash (metade do duo de DJs Queens of Noize) a cantar uma versão de "Something's Got a Hold on Me" de Etta James na casa de banho de uma discoteca. E foi assim simples. Ou pelo menos assim parece. Depois veio então Lungs, editado em 2009, apenas dois anos após a formação da banda, e com ele um enorme êxito de vendas e notoriedade. Escrito na sequência de uma separação temporária com o então namorado, a estreia discográfica de Florence + The Machine apresentou ao mundo clássicos instantâneos como "Dog Days Are Over", "Kiss with a Fist" ou "You've Got the Love". E deu a Florence um sucesso que estava longe de adivinhar quando projetou para si uma carreira no mundo da música. Algo confirmado dois anos depois com o lançamento de Ceremonials, que seguiu o fulgurante rasto de sucesso do seu antecessor. Mas com o sucesso a britânica pagou um preço, como confirmou recentemente numa entrevista ao Sunday Times: "descobriram-me quando tinha vinte anos e depois andei em digressão durante uns cinco anos. Quando terminou, passei umas duas semanas a beber", admitiu. Aquilo que deveria ter sido um calmo regresso à vida normal foi, afinal, uma verdadeira crise emocional, durante a qual decidiu que tinha de viver sozinha: "Senti que havia partes de mim por todo o lado. Toda a minha vida tinha sido andar em digressão e, de repente, dei comigo numa casa pequena, sozinha, sem sequer saber cozinhar. Estava numa espiral, a tentar agarrar-me desesperadamente a qualquer coisa que fosse estável, sem saber viver", confessou nessa entrevista. A vida na estrada retira-lhe defesas para a vida real: "[quando estás em digressão] podes ir a um sítio, armar a confusão, mas depois podes sair. Mas viver aqui, se eu acordo e destruí a casa toda e é terçafeira e há água por todo o lado... Esta é ainda a minha vida. Não posso simplesmente sair, não há nenhum concerto que me possa revalidar, estás a fazer da tua vida uma grande confusão mas tens de ficar nela", admitiu. É claro que em toda esta história havia um rapaz. Uma relação com um pé dentro e outro fora. Algo que serviu de matéria-prima para o seu novo disco. Mas a isso iremos mais para a frente. Porque ainda há mais fantasmas para afastar. Numa entrevista a Zane Lowe, na BBC Radio 1, Florence admitiu que mudou a forma como encara o êxito: "penso que, realisticamente, todo esse sucesso é ótimo, mas de repente paras e pensas "não estou a ter sucesso em viver a minha vida do dia-a-dia"". A pausa que a britânica quis impor a si mesma entre o segundo e o terceiro disco serviu para que não tivesse de esconder os fantasmas como os quais tinha obrigatoriamente de lidar. "Uma coisa é ser uma artista de sucesso, outra é teres uma relação de sucesso, outra coisa ainda é teres uma relação de sucesso contigo próprio. É uma coisa totalmente diferente e quanto não tens esse escape dos concertos, obrigas-te a ti própria a encerar esses demónios". E assim foi. Pouco a pouco, até ao grito final. A primeira canção que Florence Welch escreveu para o seu terceiro disco nasceu na Jamaica. Nessa mesma entrevista ao Sunday Times, a britânica fala de um telefone que nunca tocava, de uma chamada que esperava durante horas, das incertezas das relações pela metade. "Eu estava no sítio mais bonito do mundo, recusando-me a ir lá fora, num mar de lágrimas e confusão. Estava a perder a cabeça à espera de alguém, alguém que me ligasse. Alguém me perguntou se essa canção era acerca de esperar por um drug dealer. Mas não era...". Pelo menos não de forma literal. De regresso a Londres, tentou resolver tudo com bebida e toda a vida social a que se pudesse agarrar. Isto tudo por entre visitas regulares ao estúdio, onde o produtor do novo disco, Markus Dravs (com créditos em discos de Björk, Arcade Fire, Coldplay, entre outros), com quem Florence nunca tinha trabalhado, tentava levar tudo a bom porto. "Ele esperava uma espécie de Boudicca, uma espécie de rainha guerreira. E o que ele teve foi uma rapariga a chorar em leggings todos os dias às quatro da tarde", contou nessa entrevista. Por mais estranho que possa parecer, Taylor Swift acabou por ser a escolha de Florence Welch para se aconselhar acerca de rapazes. "Ela sabe muito do assunto", afirmou a britânica. Mas não se ficou por aí. Spike Jonze também fez parte do consultório sentimental. Tudo terá levado Florence a perceber que os seus relacionamentos problemáticos não eram a culpa de tudo: "pensas que um relacionamento te vai salvar, mas não vai. Tal como ser famoso não te vai resolver os teus problemas. Tens de te fazer a ti próprio feliz, não podes colocar essa responsabilidade noutra pessoa qualquer", disse. Por não ver no álcool a fonte primordial de diversão e de felicidade, por não favorecer um momento de estabilidade e otimismo, Florence deixou de beber. E depois de repente tudo mudou. A partir desse momento, o processo de gravação do disco passou a ter semelhanças com a vida num mosteiro. A viagem entre a sua casa e o estúdio, que ficava perto de Tower Bridge, passou a ser feita de bicicleta. Mais: começou a cozinhar em casa, a ter aulas de dança interpretativa, meditação transcendental. E até aderiu a um clube de leitura. Depois da tempestade parece ter chegado a bonança. Pelo menos por enquanto a britânica não gosta de ter muitas certezas acerca da sua estabilidade na vida. O certo é que Florence parece ter poucos ou nenhuns arrependimentos. Para a britânica tudo faz parte de um processo de autoconhecimento: até a tristeza e a confusão. Apesar do caos, apesar dos altos e baixos, o terceiro disco acabou por chegar de uma forma natural. E foi chegando até ao público da mesma forma. Primeiro, através de um curto vídeo filmado no México com o tema que dá título ao disco, "How Big, How Blue, How Beautiful". E logo aí se percebeu que algo no caminho de Florence havia mudado. Depois chegou "What Kind of Man" e o seu poderosíssimo vídeo. Nele, é possível ver um casal em cenas da normalidade romântica, uma viagem de carro intercalada com pequenos retratos da vida a dois. Nele, Florence Welch é metade desse casal no ecrã. Nele, a nudez é ao mesmo tempo metafórica e real. Não fosse esta uma canção inspirada numa história real, a sua história. "Ship To Wreck" foi o último single a chegar até nós. O vídeo, filmado na sua casa, colocou de novo as suas fragilidades em cima da mesa. Ter uma equipa de cinquenta pessoas no lar que ela carinhosamente apelida de "Disneyland hippie" terá provocado um pré-ataque de ansiedade. Sim, Florence Welch é uma daquelas pessoas que se atormenta se alguém deslocar um vaso dois centímetros para o lado. A soma de tudo isto, obsessões incluídas, farão certamente parte do novo disco de Florence + The Machine. Gravado entre os Estados Unidos e o Reino Unido, How Big, How Blue, How Beautiful (o título é inspirado no céu de Los Angeles e tem uma mensagem de otimismo) tem lançamento marcado para 1 de junho, um mês e meio antes de ser posto à prova no Super Bock Super Rock, que este ano regressa a Lisboa. Será o reencontro com o público português depois de uma estreia em março de 2010 na Aula Magna, com lotação esgotada. Em julho desse mesmo ano, terão assinado um dos melhores concertos no palco secundário do então Optimus Alive. Dois anos depois, a parada subia o mesmo festival convidara-os para o palco principal mas problemas nas cordas vocais de Florence forçaram o cancelamento do concerto. No regresso a territórios português, a britânica fará desta vez aquilo que terá feito em todas as outras: subir a palco sem máscaras nem filtros, sem defesas nem rede de segurança. E mostrar as suas canções, imitando a própria realidade, abrindo o jogo. Por vezes a música pop também faz isso. Texto: André Gomes Originalmente publicado na BLITZ Fest de junho