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FKA Twigs estreia-se hoje em Portugal: esta mulher é um camaleão

A autora de LP1, melhor álbum internacional de 2014 para a BLITZ, atua logo à noite no NOS Primavera Sound, no Porto. Contamos-lhe a história de Tahlia Debrett Barnett.

A história da britânica Tahliah Debrett Barnett é a história de uma ascensão meteórica. Mas também de superação, de reinvenção, de crença, de teimosia, de aprendizagem com os erros. Twigs nasceu e cresceu em Gloucestershire, numa zona rural, apaixonandose pelas vozes de Billie Holiday, Marvin Gaye e Ella Fitzgerald. Em casa, o dinheiro raramente foi muito, por isso viveu desde cedo com imensas dificuldades. Mudou-se para Londres na sua adolescência, altura em que chegou a ter três ou quatro empregos ao mesmo tempo. Apesar dos obstáculos, aproveitou a vitalidade própria da idade para não desistir; antes, para lutar e para chegar onde queria. Ainda que com todas as dúvidas do mundo pelo caminho. Quando achou que a dança era o que queria fazer da sua vida, começou a colaborar como bailarina em vídeos de alguns artistas longe do radar mediático, mas pouco depois passou a figurar em alguns vídeos de artistas pop como Kylie Minogue, Ed Sheeran, Jessie J ou Taio Cruz. E tornouse numa espécie de fenómeno, recebendo muitas vezes mais dinheiro do que os seus pares. Certo dia, cansada de ser reconhecida em vídeos de outros artistas, e desiludida por não fazer propriamente parte do processo criativo, deixou de querer ser uma "video girl" e passou a concentrar-se inteiramente na sua música, algo que fazia já parte da sua vida há vários anos desde os 16 anos, mais precisamente. E começou a escrever as canções que viriam a compor o seu EP de estreia. Depois de conhecer Tic Zogson (representante da Young Turks) numa festa de bondage, FKA Twigs tinha encontrado a pessoa certa para a ajudar na sua estreia discográfica. Em quatro dias, Twigs e Zogson ergueram em estúdio as canções de EP1, que foi lançado pela artista no Bandcamp em dezembro de 2012. Quase um ano depois, marcava o calendário o dia 17 de setembro de 2013, a Young Turks publicava o segundo EP, EP2, produzido por Twigs e pelo produtor venezuelano Arca. E foi nessa altura que as nomeações começaram a surgir e as expectativas foram crescendo, isto é, que tudo se começou a alinhar para FKA Twigs. Tudo aconteceu muito rápido, pelo menos visto desta perspetiva. Menos de um ano depois, LP1, o seu disco de estreia, viu a luz do dia, alcançando um sucesso global e valendo-lhe, entre outros laudos, a nomeação para o Mercury Prize de 2014. Na sua estreia, e apesar da tenra idade, FKA Twigs tornou-se uma artista icónica. Mas para perceber o que é hoje FKA TWigs é preciso regressar até aos dias da sua meninice e à altura em que, num processo clássico de "tentativa e erro", começou a trilhar o caminho que agora, em retrospetiva, parece totalmente claro. ESTRANHA, EU? Tahliah Debrett Barnett é filha de mãe britânica com ascendência espanhola e de pai jamaicano. Na escola, e devido ao seu aspeto "exótico", não teve uma vida facilitada. "As pessoas diziam coisas horríveis acerca de algo sobre o qual eu não tinha controlo, o que foi complicado", admitiu à Dazed and Confused. "Mas está tudo bem. A vida não é suposto ser fácil, pois não? Eu nunca vi nada de realmente errado com a forma como me apresentava. Ou é o teu cabelo que é diferente, ou a cor do teu cabelo, ou as tuas feições. Em metade da minha vida tive pessoas a olhar para mim porque tinha um aspeto estranho. Na outra metade, chamei a atenção porque me julgam fascinante. Tudo se neutraliza. É mais um statement acerca da sociedade e de quão estranha esta pode ser", admitiu. Tahliah Debrett Barnett foi atraída para a dança de uma forma "bizarra", como disse em entrevista à Rookiemag. Durante anos implorou para ter aulas de ballet mas a sua mãe, bailarina, não queria que a filha fosse arrastada para esse mundo. "Ela acabou por ceder quando eu tinha oito anos, tive aulas de ballet e jazz. Entretanto, acabei por perceber que não podia dançar ballet, por isso empenhei-me em descobrir o estilo de dança que me mais se me ajustava", acrescentou. Entre os 13 e os 16 anos, Twigs começou a ir regularmente a Londres para fazer trabalhos enquanto bailarina e modelo. Contudo, sentia-se "perdida", sem saber realmente o que queria fazer. "Por isso, desisti. Fui para o Croydon College, fiz os meus A-levels [certificado geral de educação] e comecei a cantar em centros de juventude e a fazer trabalho com jovens, ensinando-os a tocar música, a escrever poesia e a cantar. Fui uma jovem trabalhadora durante dois ou três anos até que o governo cortou o financiamento e eu fui dispensada", contou na mesma entrevista. Com 17 anos mudou-se, definitivamente, para Londres de molde a prosseguir uma carreira no mundo da dança. Pouco depois vieram, então, as colaborações em vários vídeos de artistas pop, trabalhos que lhe pagaram as contas e que serviram para criar burburinho. Mas ainda estava longe de ser o que Twigs queria: "quanto mais o tempo passa, mais percebo como odiava aquilo", contou numa entrevista à Rolling Stone. "Se eu não me conectava com o trabalho diretamente, às vezes pensava para mim: "porque é que estou a fazer isto?". A resposta chegava logo depois: "na altura sentia-me muito agradecida fazia um vídeo e ganhava 200 libras. Ter-me-ia levado uma semana e meia a fazer o mesmo com quatro empregos diferentes", admitiu. "Video Girl", uma das canções de LP1, é precisamente sobre essa fase da sua vida: "escrevi essa canção depois de deixar de ser uma rapariga dos vídeos", admitiu numa entrevista ao site Pitchfork. "Quando assinei contrato [com a Young Turks], deixei de dançar tinha abandonado essa fase da minha vida. Saía à noite e alguém vinha ter comigo e dizia: "eu conheço-te!". Eu esperava que fosse por terem ouvido a minha música, mas as pessoas perguntavam: "és aquela rapariga do vídeo da Jessie J?". Eu dizia sempre que não e as pessoas achavam que estava a mentir". "Apareço em tantos vídeos. Houve um período de dois anos em que dancei para toda a gente: Kylie Minogue, Ed Sheeran, Jessie J, Taio Cruz. Chegou a uma altura em que o meu cachê era o dobro do de outras raparigas e nem sequer tinha de ir a uma audição. Eles telefonavam diretamente ao meu agente e diziam: "queremos a Twigs". Tinha a fama de ser de confiança. Quando a câmara estava ligada, eu era a maravilha do primeiro take, por isso muitos realizadores gostavam de trabalhar comigo", explicou. Certo dia, percebeu que a música seria mesmo o seu futuro próximo e arregaçou as mangas. Na mesma entrevista à Rookiemag, FKA Twigs sublinha a importância da aprendizagem. "Há dois anos, não era capaz de produzir música; aprendi a fazê-lo, literalmente, em dois anos. Quando comecei, achava muito difícil programar, mas de repente tive um salto de confiança e pus-me em frente do computador predisposta a fazê-lo. Foi um desafio grande, porque eu não sou uma pessoa lógica, de todo. Tudo se resume a enfrentares os teus próprios medos. Se fizeres isso, apercebes-te que, na verdade, podes fazer tudo o que quiseres. Foi uma experiência verdadeiramente libertadora", admitiu. Cada etapa do percurso de FKA Twigs foi sempre apenas um patamar necessário para chegar até onde realmente quis chegar. Primeiro com dois EPs e depois com LP1, FKA Twigs haveria de chegar muito rapidamente às bocas do mundo. ESTÁ TUDO NOS DETALHES Com o lançamento do segundo EP, FKA Twigs foi apontada imediatamente com a next big thing. Com um contrato assinado com a Young Turks, a britânica procurou responder prontamente às expectativas criadas ao seu redor com um disco de estreia que viu a luz do dia em agosto de 2014. LP1 é, então, um resumo de tudo aquilo que FKA Twigs construiu desde tenra idade: a dança, a música, o ícone de moda, as frustrações, a luta. Gravado entre Nova Iorque e Londres, o disco de estreia contou com um dream team de colaboradores Arca, Emile Haynie, Dev Hynes, Clams Casino que ajudaram a construir uma aeronave R&B futurista e minimal. É um disco apurado até ao último detalhe, ou não fosse FKA Twigs uma geek do som. "Eu escrevo muitas vezes por cima de apenas bateria, sem qualquer informação melódica ou mudanças de notas. Depois coloco lá dentro tudo aquilo que me consigo lembrar tudo, tudo até ser apenas uma parede de som maciça, por vezes sem BPM [definição de batidas por minuto], sem estrutura, nada. Normalmente são três da manhã por essa altura e eu digo a mim mesma "OK, tens de parar"", contou à revista Rolling Stone. FKA Twigs não quer ser apenas uma voz bonita; a britânica, que coproduziu todos os temas do seu disco de estreia, quer ser também creditada pelo seu trabalho de estúdio. A sua esperança para este disco, admitiu à Dazed and Confused, é de que as pessoas sejam capazes de identificar o seu som e perceber quanto de LP1 é trabalho seu: "estou a ser corajosa e estou a encontrar uma força em mim para ser mais confiante, para tomar opções mais ousadas. É uma indústria difícil", rematou. Numa entrevista à Pitchfork, FKA Twigs explicou o título atribuído ao disco: inventar um nome grandioso para algo tão "transitório" era algo que queria evitar a todo o custo. A dúvida parece continuar a fazer parte do seu processo criativo, da sua condição artística: "eu adoro a minha música, por isso quero produzir, escrever e servir o mais possível o som que faço. Tive de aprender sobre frequências de equalização, programação, espaço e ruído, e a tocar melhor piano ou baixo tudo. Podes ter grandes aspirações, mas depois percebes que o nível das tuas capacidades ou as tuas inseguranças estão a prender-te. E então começas a odiar-te a ti própria e a ficar frustrada", confessou. Na mesma entrevista, FKA Twigs ensaiou uma possibilidade de explicação para um eventual significado do seu disco: o amor não correspondido. "Quando amas alguém, dás tudo, mas quando [eles] se revelam uns parvalhões, tudo se vira contra ti. Depois tornas-te insegura, paranoica e invejosa, e tornas-te obcecada por aquela pessoa. É um jogo mental poderoso que te leva a uma indecisão: "quem sou eu agora?"". Numa entrevista ao jornal The Guardian, e a propósito da canção "Two Weeks", FKA Twigs assumiu o seu fascínio pela estranheza, pelo bizarro: "eu escrevo exatamente aquilo que penso. Se é um tema cru, escrevo imensas coisas e depois retiro todas as palavras macias". Para FKA Twigs as coisas "estranhas podem ser sexy": "a vulnerabilidade é o estado mais forte no qual se pode estar. Quão aborrecido seria se fôssemos constantemente dominantes ou constantemente submissos? No vídeo há esta visão de mim, alimentando-me, aleitando-me. Eu estava nua, pintada de ouro", descreve. "É bizarro, mas sexy de uma forma estranha". À Billboard, contou uma pequena história que funciona como a metáfora perfeita para o seu mistério: "uma vez disse a um rapaz: "beijas mesmo muito bem". Ao que ele respondeu: "és apenas tão bom quanto a pessoa que estás a beijar". Acho que é a mesma coisa com a música: se alguém diz "a tua música é muito provocadora", eu sou apenas tão provocadora quanto a pessoa que a está a ouvir". Apesar de todas as inseguranças, FKA Twigs é hoje a soma de tudo aquilo que aprendeu no passado, incluindo o seu trabalho enquanto bailarina (mesmo tendo em conta as frustrações nascidas nesse período da sua vida), as suas dúvidas e todas as tentativas de encontrar o seu "eu" artístico. FKA Twigs não é, portanto, apenas uma voz; é imagem (os seus vídeos são também uma parte indissociável do seu trabalho), é performer, é tudo o que possa existir pelo meio. A soma de todas essas partes ficou bem evidente quando atuou ao vivo no programa de televisão de Jimmy Fallon, apresentando "Two Weeks" numa fabulosa performance num cenário abrilhantado pela escultura de ar do artista Daniel Wurtzel. Esse é, provavelmente, o momento que melhor define tudo aquilo que FKA Twigs representa e quer representar, o universo delimitado que quer transportar para os nossos olhos e ouvidos. Porque nada em si parece acontecer fruto do acaso. É essa artista completa mas ainda em pleno desenvolvimento que poderemos ver, no momento certo, em junho. Como recusar o convite? Alinhamento provável 1 Preface 2 Video Girl 3 Give Up 4 Figure 8 5 Papi Pacify 6 Water Me 7 Glass & Patron 8 Numbers 9 Pendulum 10 Two Weeks 11 How's That Texto: André Gomes Foto: Getty Images Originalmente publicado na BLITZ Fest número 6, de maio de 2015