Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Festival Med, em Loulé: Batida ergue nova bandeira e alerta para a situação em Angola

Batida, aventura que já leva dois álbuns editados na britânica Soundway, assinou ontem um brilhante espetáculo no palco Castelo do festival Med onde a dança dividiu espaço com uma clara mensagem política.

Havia, no meio do público, quem estivesse sobretudo interessado no ritmo. "Queremos dançar!" foi uma frase que se fez ouvir algumas vezes durante os "discursos" de Pedro Coquenão, o cérebro, coração e, pelo menos, parte dos braços e pernas que compõem o corpo exótico de Batida, aventura cuja repercussão internacional se tem feito sentir com crescente fulgor: apresenta-se hoje em Bruxelas na Nuit Africaine e amanhã em Glastonbury, Inglaterra. Há um par de anos, quando subiu ao palco Matriz do Med, Batida era ainda outra coisa. Mas com o crescimento da audiência para a sua música, Pedro Coquenão fez igualmente crescer a intensidade do seu discurso político e ontem, em Loulé, as suas intervenções foram mordazes, cáusticas e certeiras. Em palco, Batida é uma proposta multicolor e multimédia: um baterista ("da melhor banda de afrobeat das redondezas, Cacique 97"), um baixista com pulsar dub, Catarina Limão, que canta, dança, toca percussões e ainda assina as imagens, 3 bailarinos - Bernardino, Gonçalo e Piny - e ainda o gigante A.F. Diaphra, "que tem novo disco para sair para a semana", como fez questão de frisar Pedro Coquenão. Todas aquelas pessoas têm outras coisas para fazer, mas sobem a palco para realizarem a visão do autor de Batida. E esta palavra, "autor", é mais do que justificada neste contexto. Batida é uma proposta muito mais conceptual do que adivinharão aqueles que só querem dançar. O "concerto" (aspas absolutamente necessárias porque isto foi outra coisa qualquer) começou com Pedro Coquenão sozinho em palco: as primeiras farpas foram directas para o público que parece ter nestas ocasiões algumas dificuldades em se concentrar no que se passa em palco; depois, Pedro tocou discos que descobriu numa banca de vinil ali mesmo ao lado do palco Castelo, incluindo um clássico de Duo Ouro Negro: "descobri recentemente que a minha avó era madrinha deste senhor", disse, apontando para um dos membros do mítico duo angolano; exibiu fotos, sintonizou as rádios locais - "soam todas ao mesmo, não é?"; procurou agitar... No cartaz, quando se identifica a origem de cada um dos projectos, o nome Batida precede as palavras "Portugal" e "Angola", dupla nacionalidade que leva mesmo Pedro Coquenão a propor e a erguer uma nova bandeira - com o verde e vermelho da bandeira portuguesa na base, mas a esfera armilar substituída pelos símbolos da bandeira angolana, a catana, a roda dentada e a estrela. "Que vos parece?" Há-de ser a erguer esta bandeira acima da cabeça que Pedro se despedirá do público. Mas erguer bandeiras é algo que Pedro faz durante todo o concerto, muitas delas com palavras e outras imagens. Os recentes acontecimentos em Angola que ressoaram por todo o mundo - a detenção de jovens ativistas após uma reunião privada em Luanda - mereceram um alerta de Pedro Coquenão que até se socorreu de imagens do telejornal da SIC. É claro que Batida pretende soltar as ancas de quem ouve a sua música, mas abrir as mentes é um objectivo nada secundário. E pode claramente dizer-se que ambos foram conseguidos em pleno. Recorrendo a velhos filmes angolanos ou a imagens de documentários, Pedro Coquenão construiu uma viagem pelos seus dois álbuns com recurso a temas como "Bazuka", "Cuka", "Pobre e Rico" ou "Tá Doce" sempre ilustrados com incríveis momentos de dança com uma óbvia espessura dramática e uma perfeita interacção entre os homens do ritmo e o comandante das máquinas, Pedro Coquenão, que além de disparar samples ainda toca dikanza, canta e, claro, ergue fotos: de "Zédu", obviamente, mas também de Iconoclasta, o MC e ativista que já colaborou com Batida e que agora está detido em Angola. A música e a revolução têm uma longa história juntos. Em Portugal, naturalmente, como em Angola. A Batida interessam ambas as histórias e Pedro despede-se da multidão no final da noite dizendo "se não se manifestarem nada acontece" e "façam barulho pelas vossas vidas", disfarçando de apelo para regressar ao palco uma mensagem que é muito mais profunda, como em tempos se disfarçou de canções simples, apelos muito mais gritantes pela liberdade. "Mexam-se", parece dizer-nos. Mas não só com as ancas... Texto: Rui Miguel Abreu Foto: CM Loulé