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Festival Med começou ontem em Loulé: Rock nacional num festival do mundo

Tape Junk (na foto), Brass Wires Orchestra ou Keep Razors Sharp também merecem espaço num festival que reclama um lugar entre os melhores que por essa Europa fora amplificam as músicas do mundo.

O circuito fechado do centro histórico de Loulé transforma-se numa espécie de bazar de medina islâmica com cheiro de incenso a dominar a paisagem olfativa, crianças a correrem pelas ruas apertadas cheias de gente, marroquinaria diversa à venda em cada recanto, atores, cuspidores de fogo e pequenas bandas filarmónicas que circulam entre as pessoas, banhos islâmicos abertos ao olhar turístico e pequenos largos e entradas que escondem surpresas atrás de surpresas. Ao fim do dia percebe-se que se anda muito mais do que se pensaria. Mas, afinal de contas, são seis palcos e quase dezena e meia de propostas musicais só no primeiro dia. Ao circular pelas ruas onde tudo acontece, o sistema de som vai ambientado os nossos ouvidos a sons do mundo, ouvem-se ritmos árabes e uma voz off que repete várias vezes a ideia de que o Festival Med tem por prato principal a world music. O que não impede que o cartaz do dia inaugural acolha outras propostas bem diferentes.

Tape Junk e Brass Wires Orchestra levaram as suas visões "indie" ao palco do Castelo e tocaram para plateias generosas. O concerto de Tape Junk foi enérgico e de total entrega, com o público a aderir, mesmo ao reportório mais fresco da banda, enquanto que os Brass Wires Orchestra conseguiram, com a sua receita "loud, quiet, loud", empolgar a multidão que se juntou para ver o seu concerto, mas provavelmente nenhum grupo teve ontem um público menos ocasional e acidental e mais "diferente" do que os Keep Razors Sharp de Rai, Afonso Simões, Bráulio e Bibi. Este grupo entrou em palco já bem para lá da meia noite e de imediato despejou sobre quem se deslocou ao palco Bica um portento de rock and roll. É que a música destes fab four soa como se fosse possível concentrar num barril -como os de cerveja - cinco décadas de rock and roll de onde se extraem shots que matam a sede a quem gosta de Yardbirds e Stooges, Cramps e Jesus and Mary Chain, Stone Roses e Queens of the Stone Age. E de tanto mais. Além de tudo, estes rapazes são genuinamente bonitos: falam a fala, andam o andar e têm o ar certo e condizente com a música que apresentam - abrasiva, mas com vozes carregadas de reverb que apontam ao céu. E nem uma pessoa no público de rastas ou um cuspidor de fogo se vislumbrou. Para freaks já bastavam estes verdadeiros discípulos do rock and roll que ofereceram uma missa cantada capaz de converter qualquer cético. Se mantiverem as lâminas afiadas, não há razões para estes rapazes não irem longe. Texto: Rui Miguel Abreu Foto: CM Loulé, Helga Serôdio