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Festival Med: Carminho oferece fado gourmet a Loulé

Com bateria e teclados, a fadista de Canto segurou uma praça a rebentar pelas costuras com pose festivaleira e um fado pensado para as multidões. Festival algarvio começou ontem.

A praça onde se situa o palco Matriz foi pequena para acolher a multidão que acorreu ao maior nome da primeira noite da edição 2015 do festival Med que ontem arrancou em Loulé, no Algarve. Carminho encheu o palco, riu, partilhou histórias e desfilou classe perante um público variado, mas pouco reverente tendo em conta o contexto tão específico. O velho adágio "silêncio que se vai cantar o fado" não teve seguidores no largo que se estende em frente da Igreja Matriz. O festival algarvio, que vai na sua 12ª edição, promete para este ano 50 horas de música divididas por seis palcos que receberão mais de quatro dezenas de concertos. O programa é ambicioso, mesmo que pareça mais concentrado na "prata da casa": Babylon Circus, Balkan Beat Box e Nneka acabam por ser os nomes internacionais mais sonantes que, sente-se, não fazem assim tanta sombra como isso a propostas vindas de dentro como Batida, Tiago Bettencourt ou Carminho. Há algo que resulta evidente do concerto de Carminho: o fado, para aguentar o embate com as grandes multidões dos festivais, por um lado, e com o circuito internacional de concertos, por outro, tem vindo a sofrer (a "merecer" talvez fosse uma palavra mais benigna) um processo de "gourmetização" em tudo semelhante ao que se encontra em curso numa cidade grande como Lisboa: para agradar aos turistas, a velha tasca do carapau de escabeche a macerar no balcão há três dias teve que se modernizar - substituiu as mesas de fórmica, o velho emblema do Benfica na parede cedeu lugar a uma foto genérica de um eléctrico, pôs balcão refrigerado, iluminado e de design moderno, toldo preto à porta e acomodou o carapau em bolo do caco ou algo que o valha. Ontem, ao ouvir Carminho a ser propulsionada por bateria, com o velho arranjo da viola, da viola baixo e da guitarra portuguesa a ser ampliado ainda com teclados deu para perceber que também no fado se pode colocar toldo preto e balcão iluminado, com bolo do caco a servir de cama ao que antes se aguentava bravamente com carcaça de dois dias. Preço a pagar para se sobreviver fora do circuito da Casa de Fados. Nada contra: Carminho não poderia ficar para sempre no micro-clima da Mesa de Frades, mas o que se ouve agora é nitidamente uma versão diluída para consumo mais massivo.

Diga-se, ainda assim, que Carminho enfrenta com classe estas multidões: quando canta a capella e consegue calar as crianças que não entendem que música assim exige um certo grau de atenção, por exemplo. Ou quando conta histórias que explicam as outras histórias que os fados contam - como faz questão de fazer antes de "Bom Dia, Amor" quando confessa ser aquela Maria José de que fala a letra de Diogo Clemente ou antes de "Chuva no Mar": "A Marisa Monte, artista que muito admiro, ofereceu-me esta canção que escreveu com um grande poeta, Arnaldo Antunes. Uma canção que nos diz que somos todos responsáveis uns pelos outros". Vestindo de vermelho, Carminho transforma por momentos um largo de Loulé numa viela da Mouraria quando canta a história da Bia e do Chico e arranca efusivos aplausos e recruta quem se encontra na zona mais próxima do palco para um coro que replica todas as suas palavras. Carminho é, sem dúvida, nome grande deste fado de exportação, património mundial, mas fado também é saudade e por isso é impossível não pensar em como soava diferente, ali a um metro de nós, na pequena sala da Mesa de Frades. Texto: Rui Miguel Abreu Foto: CM Loulé, Helga Serôdio